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terça-feira, 11 de abril de 2017

O fim de todos os vícios

Suspirei ao teu ouvido que te amava. Choravas e soluçavas. De olhos fechados para mim e para o mundo dizias que não, que não era assim que deveria ser. Que tinhas que ir. Soltaste-te do meu abraço e viraste-me as costas em negação. Vou embora, agora, disseste. Sem te virares novamente, disseste que ias. De vez. Uma última vez.

Ouvi os teus passos pela calçada molhada tornarem-se mais vagos até que deixei de te ouvir caminhar. Acendi um cigarro sem levantar a cabeça, fixando os meus olhos no chão que se enchia de gente contra a minha vontade. Exalei o fumo uma, duas vezes e atirei o cigarro na mesma direcção que acabaras de percorrer. Era o fim de todos os vícios, pensei.

Ajeitando a gola do meu casaco, tapando a minha cara vá-se lá saber porquê, caminhei no sentido oposto ao teu. Também eu virei as costas a alguém. Era assim. Nada mais me restava perseguir que não estivesse à minha frente, disse. A convencer-me que me tinha enganado, que afinal não estava escrito que eras tu. Ainda sentia a tua pele nas palmas das minhas mãos e isso incomodava-me profundamente. Afaguei as paredes, raspando a minha própria pele contra o cimento a cada esquina que podia, como que a querer arrancar de mim todos os restos de ti.

A cadência da chuva aumentava e brevemente estaria encharcado. Mas não me preocupei com isso. Olhando para a frente, de vez em quando, conseguia desviar-me das pessoas que se atravessavam no meu caminho, desviando-me do meu propósito. Fugir. Da tua lembrança, da tua existência. De saber que ainda vivias algures na minha cidade.

Atirei o que restava do maço de tabaco no caixote junto à porta do prédio de minha casa. Era o fim de todos os vícios, repeti. Subi as escadas a correr, como que a fugir do Diabo, num pânico novo que julgava apenas estar guardado para os outros. Despi o casaco ainda antes de colocar a chave na porta, com a urgência de um criminoso que se livra de provas de um crime demasiado flagrante.

Sentei-me no sofá, em pleno silêncio, olhando à minha volta por restos de ti perdidos pelo apartamento. Nada. Felizmente nada. Percorri as divisões à procura de roupa tua, de livros teus, de pedaços de ti que tivesses deixado para que o meu inferno fosse ainda mais profundo. Nada. Suspirei porque nada de ti restava aqui.
Um alívio podre apoderava-se da minha respiração. Recusei sofrer por ti. Não te achei merecedora disso. Não me achei réu ao ponto de precisar de servir uma pena tão grande.

Um cigarro perdido na mesa da sala. Só mais este. A despedida de todos os vícios que se acabavam, agora. A chuva não dava tréguas à cidade, mas ainda assim abri a janela para fumar. A minha respiração tornara-se tosca, desajeitada e sem compasso certo. Um nó atava-se em mim, dentro de mim, e apertava a minha garganta, cada vez mais forte a cada segundo que se escapava do dia. O cigarro desaparecia nos meus dedos e desejei que ele não tivesse fim. Precisava de mais para que esta expiação se tornasse mais forte.
Terminei o único cigarro que restava, ficando sem saber que fazer com as mãos. Desorientei-me em direcção ao sofá e deixei-me cair. Ali permaneci até que a noite se fizesse de convidada sem que sono, cansaço ou dor me fizessem adormecer.

Não chovia mais e agora o silêncio era total. O telefone fez-se notar com a chegada de uma mensagem. Tua. Confesso que não li, que apaguei numa fúria aliviada. Não quero mais saber. Não quero querer mais saber de ti nem de quem fui por ti. Era o fim que me trouxera de volta ao início.
Era o fim, por fim. O fim de todos os vícios.