Translate

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Obsessões



Demoro-me a acordar. Propositadamente, como todos os dias.

O sol já despertou e entra-me pelos orifícios das persianas, em jeito de provocação.
Os meus braços tapam-me a vista, em revolta pela obrigação de sair daqui. Não me apetece viver este dia. Nem ontem nem o dia antes desse. Esta obsessão pela fuga e esconderijo do mundo que me persegue... esta vontade de deixar que a vida passe sem que dela queira guardar memória concreta.

Um ardor na minha cabeça traz-me à lembrança solidão medida em horas e comprimidos misturados com cervejas demasiado geladas. Um paladar a cigarro que se renova todos os dias. Isto um dia mata-te, vaticinam-me. Quando? pergunto com sentida curiosidade.
Assustam-se quando falo de certezas, e afastam-se com medo de serem arrastados na minha teia de realidade.

Ainda me resta um cigarro no maço, que acendo em modo automático, enquanto me despeço dos lençóis. Um calor insuportável que quase não me deixa respirar. A casa fechada há demasiado tempo. Um corpo que se despede de si mesmo sem lutar para sobreviver. Instinto que aqui não mora desde... já não sei. Deixei de querer saber.

Ainda meio despido sento-me na varanda debruçada sobre uma rua demasiado movimentada para o meu estado de alma. Eu e esta cidade podre vamos decaindo a cada aurora que desperta. Não somos daqui.

Preciso de mais cigarros, de mais vida e dela. Nestas alturas confesso que me parece que nenhuma das minhas necessidades me será satisfeita.
Um homem carente de coisas ou gente é uma mancha na sua própria história. E um homem carente numa cidade doente é uma sentença demasiado avassaladora para um só corpo abraçar.


Preciso de mais cigarros, de mais vida e dela. Esta vontade de deixar que a vida se desvaneça sem que dela queira guardar memória.





Tal como ontem. E o dia antes desse.

Sem comentários:

Enviar um comentário