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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Uma questão de vida e de morte

Sinto-te tanto a falta, hoje.
Não de sentimento ou prazer. Apenas de ti.
Porque hoje não me sinto eu. Seja lá o que eu seja. 
Porque hoje quase beijei a Morte. Deixei-a acariciar-me o rosto apenas por momentos e, por muito pouco, quase arrisquei deixar-me envolver por Ela.

E nesse momento de delírio senti que me poderias salvar novamente. Como tantas outras vezes em que nem te deste conta.
Porque não to confessei, porque não quis desviar-te da rota.
Porque não me acho nesse direito de te chamar apenas porque te sinto a ausência profunda nos ossos.

Hoje deixei-me caminhar sem trajecto definido. Que fossem estes meus pés calçados a decidir para onde me queriam levar. Quase me senti tentado a pedir-lhes que me levassem a ti. Mas contive esse desejo, a necessidade.
Porque não me pertences, nem um dia poderás pertencer. Porque não tenho direitos sobre ti nem sobre a tua vontade.

Precisei de salvação, hoje. E só tu me poderias salvar.
Sonhei que te chamava sofregamente, enquanto era tentado por Ela, mas da minha boca não saíram palavras com o teu nome. E até mim não tive coragem de te chamar.
Porque estás longe daqui, e estas ruas não são as tuas e sei que sentir-te-ias perdida. Porque estes dias de caos e destruição não são o que és.

Sinto-te a falta todos os dias, em todos os momentos.
E esta minha carência de ti, apenas de ti, que não pode ser saciada, continua a enfraquecer-me. Quase ganho coragem. Mas o quase nunca é suficiente.
Da mesma forma que eu nunca serei suficiente.
Porque tu és Vida e eu apenas Morte...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Obsessões



Demoro-me a acordar. Propositadamente, como todos os dias.

O sol já despertou e entra-me pelos orifícios das persianas, em jeito de provocação.
Os meus braços tapam-me a vista, em revolta pela obrigação de sair daqui. Não me apetece viver este dia. Nem ontem nem o dia antes desse. Esta obsessão pela fuga e esconderijo do mundo que me persegue... esta vontade de deixar que a vida passe sem que dela queira guardar memória concreta.

Um ardor na minha cabeça traz-me à lembrança solidão medida em horas e comprimidos misturados com cervejas demasiado geladas. Um paladar a cigarro que se renova todos os dias. Isto um dia mata-te, vaticinam-me. Quando? pergunto com sentida curiosidade.
Assustam-se quando falo de certezas, e afastam-se com medo de serem arrastados na minha teia de realidade.

Ainda me resta um cigarro no maço, que acendo em modo automático, enquanto me despeço dos lençóis. Um calor insuportável que quase não me deixa respirar. A casa fechada há demasiado tempo. Um corpo que se despede de si mesmo sem lutar para sobreviver. Instinto que aqui não mora desde... já não sei. Deixei de querer saber.

Ainda meio despido sento-me na varanda debruçada sobre uma rua demasiado movimentada para o meu estado de alma. Eu e esta cidade podre vamos decaindo a cada aurora que desperta. Não somos daqui.

Preciso de mais cigarros, de mais vida e dela. Nestas alturas confesso que me parece que nenhuma das minhas necessidades me será satisfeita.
Um homem carente de coisas ou gente é uma mancha na sua própria história. E um homem carente numa cidade doente é uma sentença demasiado avassaladora para um só corpo abraçar.


Preciso de mais cigarros, de mais vida e dela. Esta vontade de deixar que a vida se desvaneça sem que dela queira guardar memória.





Tal como ontem. E o dia antes desse.