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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Passos (ou Teoria Geral do Abandono)

Eras tu.
Tinhas sido apenas tu.
Ter-me-ias sido suficiente. Se apenas tivesses caminhado pelos destroços caídos à minha volta, se apenas tivesses querido querer atravessar por entre os pedaços de memórias e cerimónias que te deixei ver.

Passo a passo.
Que andasses um passo de cada vez pelo meio de tudo aquilo que fui eu. Mesmo que agora não o seja. Chamei-te e tu ouviste. Sabias o que eu te queria dizer, no segredo das tuas quatro paredes, mas preferiste não escutar.

Passou o tempo.
Findou a minha carência. Esgotou-se-me o desejo.
E está bem assim, digo-te eu.

Não penses agora tocar-me. Nem te deixes sucumbir à tentação de me chamar, de esticares o braço em busca de mim, porque eu não estou mais. Sou eu agora que não te quero bastar nem caminhar em direcção a ti. Basta-te a ti mesma, agora.

Eu não me sei preencher, ainda. Mas sei que de ti não quero auxílio ou entendimento.

Shh... Silencio-me para ouvir algo que me soa a ti...
É o som dos teus passos que escuto ao longe? É a tua mão que me bate à porta da memória esgotada? É a tua voz que me chama do outro lado?
É.

Apago as luzes,
                         para me fingir ausente desta casa,
                                                                               deste mundo.

De ti. Ausente de um "nós" que existiu tarde demais na tua imaginação e cedo demais na minha.
Sento-me, esperando que desistas. Que te canses de me chamar. De mim apenas te posso oferecer silêncios e rancores que o tempo há-de levar para longe. Sou eu que espero, agora, que o cansaço te acompanhe para longe da minha porta que não se abrirá nunca mais.

Passo a passo, tempo a tempo. Terminou o que nunca foi nem será jamais.
E está bem assim, digo-te eu.







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