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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Gosto disto aqui

Eu gosto disto aqui.
Este estranho aqui onde me deixei ficar.

Tudo isto é estranhamente familiar, confesso. Esta minha varanda que dá para a podridão dos dias, vividos pela gente que se transfigura para existir, também dá para o horizonte que anoitece.
Adiante, lá bem adiante, observo o sol que se deixa cair, apagando-se misturado com as nuvens de um tempo que arrefece de dia para dia.
Nestes tempos a luz natural é um bem precioso que se desvanece cada vez mais cedo.

O cinzeiro está cheio de beatas de cigarros. São os restos mortais dos meus pensamentos que ali jazem apagados. Como os meus pensamentos. Como a minha consciência. Sento-me fumando, como sempre, enquanto te escrevo estes meus dias cansados. Este exercício de observar o mundo dar as suas voltas cansa-me. Porque vou rodando com ele, apalpando o meu lugar e o meu propósito. Ainda não descobri nem um nem outro e, por isso, não me consigo sentir parte dele. No entanto, gosto disto aqui.

Escapo-me de quando em vez para esticar as minhas pernas já cansadas. À procura de histórias que queiram ser contadas, palmilhando cantos que me esqueci que visitei em tempos, encontrando pessoas que de mim não guardam qualquer memória. E ainda bem. Porque ser uma memória é ser um peso na alma de alguém.

Sentado na porta de um café escondido, na travessa mais junto da rua onde vivo, está um ser já idoso e esquecido de tempos solarengos. Com uma boina gasta pelos meses, a tapar uma cabeça parca de cabelo, e um casaco que já conheceu melhores dias, respira com a lentidão das horas que não passam. Um sacrifício, grita ao ver-me. Acredito que sim. Para mim também não é menos, respondo-lhe.
Acena com a mão, em jeito de "vai embora", e eu faço-lhe a vontade.

Regresso sem histórias novas para te contar. Como ontem. Como nos dias antes desse.
A minha vida já é uma história. Antiga e cansada.
A minha vida é uma memória, apenas. E é uma memória que pesa na alma de alguém.
Na minha.

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