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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Decadência do ser

Miseravelmente adormecida. É assim que te vejo. A ti, cidade.
Perco a conta aos teus edifícios que furam os céus sempre cinzentos que te cobrem. Estás podre, como as pessoas que te percorrem com pressa de morrer.

Vejo-te morrer um pouco a cada dia que te atravessa. E esta gente que morre um bocado contigo de cada vez que acorda para te esventrar com os seus passos e preocupações.
Caminho em direcção a casa, carregando sacos com vinho e comida pré-fabricada. Não tenho tempo para pensar em culinária, hoje. Nem nunca. 
Passa por mim uma alma indefesa à morte que a rodeia. Segura pela mão de uma mulher quebrada e ausente deste plano, seguramente uma das tuas vítimas. Desvio o olhar. Farto de morte estou eu, até da minha que insiste em adiar a sua visita.

Ouço o meu telefone tocar quando encosto a chave à porta, mas não corro para atender. Não me custa adivinhar quem está a chamar-me. Como nos outros dias é ela que me chama. Melhor não lhe dedicar mais atenção. Nem às suas lágrimas ou súplicas e perguntas com resposta pré-desenhada. Continua a tocar enquanto deixo os sacos na mesa da cozinha e acendo um cigarro que aguardei com impaciência desde que vi aquela alma inocente.

Cala-se o telefone, finalmente. Tiro as dúvidas e confirmo que era ela. Sempre ela. E sempre o mesmo desprezo que lhe ofereço. A todas as horas, a todos os momentos.
Vejo a noite chegar pela janela da sala, sentado na beira do móvel. Uma janela grande, demais até, sem cortinados que bloqueie a minha vista para o mundo a desfazer-se à minha frente. A cidade que faz companhia ao mundo a decair. Fumo apressado. Acendo outro em seguida, e continuo a vê-las. Juntas e sem relação. A ela e à cidade. Ambas decaem à velocidade da respiração de cada uma.

Prefiro não a ver, não a ouvir, não entender. Largamos tudo, disse-me ela. O mundo não nos merece, vamos esconder-nos dele, dizia ela. Eu cuido de ti e basta, disse-me ela. E talvez tivesse razão. Não quero descobrir.
Observo a decadência incessante da vida como me ensinaram que era. Das pessoas que abraçaram esta existência vazia, debaixo de um céu pintado de cinzas e julgamentos. Aqui só vive a morte a chegar.

Aqui só existo eu que espero a visita do anjo, uma última vez. Eu e a minha cidade. Apenas nós que esperamos a morte que não se cansa de se atrasar.

Eu e ela. A cidade que se deixa morrer. Exactamente como eu.

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