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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Árvores

As minhas Árvores caem à minha volta. É o tempo que as faz cair ou sou eu o lenhador que as corta, deixando uma raiz agarrada à terra a qual, um dia, o tempo se encarregará de destinar.

Olho esta clareira que se forma ao meu redor, tornando-se maior a cada lua que se cruza com o meu próprio tempo.
Passa-me pelo meu olhar a história de cada uma das Árvores que caíram nestes mais de trinta invernos enquanto percorro esta minha floresta caída. 
Passo a minha mão por cada tronco, cada ramo caído, vejo o que ficou esmagado debaixo dos troncos sem que lhe reconheça semelhança com alguma memória.
São muitas Árvores. São muitos invernos.

Por vezes parecem ser já demasiados, ao ponto de me esquecer que a seguir vem sempre um Verão. Mas hoje não me lembro do Verão. Hoje só me envolve o Inverno. Igual a tantos outros que conheci e atravessei com relativo sucesso.

Arrefece o ar nestas paragens. A nuvem de vapor que se escapa por entre os meus lábios lembra que um novo Inverno chegou. Que um novo nível de inferno se galgou.
Cada Inverno mais parece um Inferno, realmente.

A nossa floresta pessoal cresce a cada ano que passa por nós.
A cada encontro e experiência. 
Ano após ano. Vivência após vivência.

Mas um dia começa a desaparecer. Por nós ou por outros que a deixam.
A cada queda. 
A cada corte. A cada Inverno misturado com Inferno. 
E desaparece. Lenta e serenamente a clareira aumenta. 

Rolam lágrimas, decidem-se destinos, caem árvores em sequência ao lado das que começam a crescer. 
Para mim, e apenas para mim, as quedas são sempre mais significativas que os nascimentos. Marcam mais. Corroem mais. Mas ensinam mais. 
São capítulos que se esgotam. E assim é que deve ser. Sempre

Recentemente tombou mais uma das minhas Árvores. 
Pela raiz, nada mais. 
Recentemente a clareira ficou tão maior, e percebi - novamente - que nada irá impedir que assim seja, daqui em diante.
Até que o Inverno seja a única realidade que conheça. 

Até que o Inverno seja a única coisa que reste.
Até que seja eu apenas aquilo que resta. 
E só restarei eu, sozinho, de pé nesta clareira onde as árvores tombam à velocidade do tempo e do inferno que o consome.


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