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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Indeciso

Através do vidro da janela do carro vi como a chuva caía impiedosamente. Choveu sem parar durante mais de uma hora. Foi como o desabafo que nunca consegui exteriorizar. Alguém chorou por mim, pensei. 

Mas depois lembrei-me que não há ninguém que me queira as dores ou os desabafos. Muito menos as lágrimas ou a vontade de chorar. O mundo e os céus sabem governar-se muito bem. Só eu não aprendo a fazer o mesmo. 
Heranças, penso eu. 

Quando regressei à minha casa começou a chover novamente. Tive sorte, pensei. Peguei num livro para me entreter até que o sol nascesse, mas nem me lembro qual nem o que li. Porque não me interessou, nem interessa. Nada me interessa ou me faz reagir. 

E eu que continuo sem chorar. Nem em desabafo nem em regozijo. 

Desisti de tentar ler. Preferi acompanhar-me do meu cigarro e de uma garrafa. São companheiros fiáveis porque não falam. Deixam-se usar a meu bel prazer, eu prefiro assim. Não são como as pessoas. 

Essas falam. Por vezes até demais e sem regras. Não se usam. Usam-me e isso não me se faz. Cansei-me das pessoas na mesma proporção que não me cansarei jamais do cigarro ou da garrafa. Esses ouvem-me em silêncio deixando-se consumir por mim, embora se consumam pelas minhas dores. E isso é o melhor contrato que alguma vez tive.

Mas continuo sem chorar. Muito menos desabafar ou regozijar-me.

Fumo compulsivamente. Bebo muito mais. Até que consiga adormecer e esquecer. Não sei o quê mas preciso esquecer-me. 

Esquecer que estou vivo? Que tenho alma ? Indeciso. Em ambas. Adormeço. Durante três horas. Mais que ontem. A primeira boa notícia do dia. A melhor dos últimos meses. A garrafa caiu no chão sem tampa. Metade do que restava dentro dela desapareceu ensopado no tapete da sala. O cigarro ficou no cinzeiro e apagou-se durante o meu sono. Tivesse caído no chão e eu não teria acordado. Será a segunda boa notícia do dia? Indeciso. 

E eu que continuo sem chorar.

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