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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Despedidas

Foi uma crueldade. Só isso.

Foram poucas e sonoras as palavras ditas. Foram duras e cortantes como se exigia. Mas foram ditas no momento em que nada mais havia a debater. 
O arrasto, a dor, a insuficiência multiplicada por quadrantes que só nós podemos perceber... tudo se acumulou, semana após semana, ano após ano, até que um dia nada mais permaneceu que pudesse ser salvo. 

Falaste, no teu jeito calmo, embora sofrido, sofrendo genuinamente por te ter obrigado a um murro na mesa demasiado sonoro para que eu não o ouvisse. E eu ouvi. Em silêncio deixei-me ficar a escutar sem responder nem reagir. Não era preciso nem desejado. Bastava que ouvisse, aceitasse e prosseguisse. Pareceu-me correto. 

Quando a porta bateu atrás de ti que saías, o vazio entrou para ocupar a vaga agora criada. Foi uma crueldade, mas não tua. Nunca seria. Foi minha, no fim de contas. Esta coisa das assunções de culpas tem destas particularidades. É sempre o repetido pedido de desculpas, as promessas que se esbatem no tempo, a repetição da repetição que se repetiu após outra qualquer repetição. E isso é cruel e deixa marcas profundas que o tempo nem sempre tem tempo de curar. 

Partiste. Eu fiquei. Não à espera de ti, não à espera de mim. Apenas fiquei a sorver as palavras e choros que provoquei. 

Sim, estarás longe. Eu longe permanecerei. 
Porque tem de ser, porque é o mais certo, porque era o inevitável. Que os nossos caminhos se mantenham direitos, cada um à sua maneira com os destinos escolhidos por força ou por desejo. Mas que sejam escorreitos e de bom-porto. 

Foi uma crueldade. Apenas e somente isso. Seja lá o que for que nos aguarde no horizonte longínquo, que nos deixe viver. 
De formas diversas. Mas que nos deixe viver...

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