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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Guerra

Pensei que me fosse possível viver depois da nossa guerra.
Mas não sobrevivi.
Não eu. Não como tu.

Tu sabes como escapar incólume às mazelas e agressões. Às investidas da tua própria vontade de te declarar vencedora, quando afinal perdeste tanto quanto eu.
A diferença foi que eu me deixei permanecer a olhar os campos de batalha que partilhamos inutilmente. Tu abandonaste tudo nos rios da memória onde ainda insisto em banhar-me com a saudade típica do guerreiro derrotado.

Imerso em visões de plena luxúria do teu amor, deixo que esta corrente me leve assim. Ferido, combalido, tão diferente de ti que não perdes o teu tempo em águas de lembranças em pleno movimento sobre si mesmas, até à inevitável estagnação dos sentidos.

Mas tu já não sentes. Tu não sabes o que é desejar que o tempo pare de se mover, com a insistência e teimosia da ausência saudosa que só eu sei sentir e colocar aqui para que me saibas. Como se te preocupasses em saber-me, sentir-me ou acalmar-me.

Daqui não guardas a emoção ou memória.
Abandonaste esta nossa guerra.
Abandonaste-me.

Que seja.
Que seja então eu aquele que sara as feridas na solidão escura que resta.


A guerra terminou. Por fim.
Mas eu não sobrevivi. Pelo menos não como tu.

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