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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Teratoma

Absorveste-me sem que disso desses conta. Como invejosos gémeos. Com a voracidade que só tu sabes personificar, roubaste-me à vida. Simples.
E eu quis.

Pus-me a jeito, é verdade. Coloquei-me à tua disposição de forma inconsciente, mas vezes houve em que me ofereci para teu gáudio, como se de um sacrifício me tratasse.

E pior: sabia perfeitamente que o estava a fazer.


E tu, sem pestanejar ou hesitar por um segundo, agarraste-me, sorriste-me, envolveste-me com o abraço do desejo disfarçado de amor.
E eu quis.



E quero.
                                                                                                                       Que me toques e abençoes.

Que me digas aquilo que eu quero ouvir, com o som da tua voz.
                                                              

                                                                 Que me leves pelos caminhos que não sei conhecer sozinho.




Não sei dizer-te quandos ou porquês. Porque não me interessa.

Apenas sei que não quero ser de mim mesmo, que não quero mais pertecer-me.
Quero sentir o ar dos teus pulmões nos meus, quero que o meu coração se sinta no teu peito e saiba que, no fundo, é o teu coração que me faz viver. Peço apenas que me permitas viver dentro de ti, e não apenas sobreviver.

Mas se for pedir muito, então solta-me ao mundo, novamente. Não me permitas morrer dentro de ti. Ou pior: ir morrendo aos poucos enquanto te veja viver. Porque do abandono estou cansado e de ti não o consigo suportar.

Absorve-me sim. Sem nada que mais importe. Não esperes mais. Eu deixo.
E leva-me contigo até que os ventos se cansem de viajar e os dias se cansem de nascer.
Leva-me. Eu deixo.










 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Pétalas

Restei eu. Bem, não apenas eu. Os meus receios e mazelas ficaram a fazer-me companhia.
Pobres acompanhantes, certamente concordarás.

Mas é o que permanece, agora. Continuo aqui, cambaleando mas ainda de pé. Assim, tal como me vês, serpenteando pelas calçadas encostando-me a paredes em busca do meu fôlego, já parco em forças.

Os meus receios e mazelas, como tatuagens que qualquer gente pode ver, servindo de aviso às almas que se abeiram de mim em busca de não sei bem o quê.
Não as entendo, procuro não gastar muito do meu tempo com elas. São passagens de uma história que escrevo com a leveza das pétalas que caem das flores secas pelo outono que se aproxima do calendário.

Um dia, a seguir outro. Mais uma volta à boleia das rotinas, essas desgastadas defesas que criamos para nos mentirmos dizendo que, afinal, nada mudou. Os hábitos que giram à volta das horas marcadas no relógio dos dias e das noites que são iguais a ontem e amanhã.

A minha vida, existência ou como lhe queiras chamar tem cores novas. Mais escuras, talvez, com pinceladas de luz que me fazem companhia nas noites em que a solidão não se me queira emparceirar.
São apenas corpos. As tais almas às quais não preciso saber o nome ou o propósito nesta correnteza vivida. São apenas pedaços de prazer que me oferecem, sabendo que de mim não terão mais nada senão mentiras e suor. Não as preciso, não as aprendo a respirar, não me servem para nada. Apaziguam ligeiras tormentas e pouco mais. Deixo essas entidades repousar na minha cama, onde se deixam cair como as pétalas das flores secas. São as minhas pétalas. Minhas. Que morrem embrulhadas em inocência de fugazes encontros com o desconhecido. Que se apaixonam por olhares e frases feitas, num jogo enleado e regrado que todos conhecem bem demais.

Pétalas secas por ventos e outonos. Só.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Guerra

Pensei que me fosse possível viver depois da nossa guerra.
Mas não sobrevivi.
Não eu. Não como tu.

Tu sabes como escapar incólume às mazelas e agressões. Às investidas da tua própria vontade de te declarar vencedora, quando afinal perdeste tanto quanto eu.
A diferença foi que eu me deixei permanecer a olhar os campos de batalha que partilhamos inutilmente. Tu abandonaste tudo nos rios da memória onde ainda insisto em banhar-me com a saudade típica do guerreiro derrotado.

Imerso em visões de plena luxúria do teu amor, deixo que esta corrente me leve assim. Ferido, combalido, tão diferente de ti que não perdes o teu tempo em águas de lembranças em pleno movimento sobre si mesmas, até à inevitável estagnação dos sentidos.

Mas tu já não sentes. Tu não sabes o que é desejar que o tempo pare de se mover, com a insistência e teimosia da ausência saudosa que só eu sei sentir e colocar aqui para que me saibas. Como se te preocupasses em saber-me, sentir-me ou acalmar-me.

Daqui não guardas a emoção ou memória.
Abandonaste esta nossa guerra.
Abandonaste-me.

Que seja.
Que seja então eu aquele que sara as feridas na solidão escura que resta.


A guerra terminou. Por fim.
Mas eu não sobrevivi. Pelo menos não como tu.