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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Eu não tenho quereres

Não quero que fiques aqui.
Aqui não é o teu lugar. No puzzle que construí tu és uma peça que não encaixa mais. Nunca encaixaste, se eu quiser ser honesto. Hoje quero sê-lo. Porque hoje despeço-me da nossa utopia que tão bem me serviu, que me aconchegou as noites de inquietude e os dias em que te sonhei de olhos abertos.

Não te posso manter viva.
Para que a minha mente não se ofusque com o brilho que deste ao meu coração, este meu recanto demasiado obscuro para perceber de despedidas ou de carinhos.

Quiseste dar-me pequenos nadas que para mim eram mais que tudos.

Quiseste ser-me doçura e crença num despertar da inocência perdida, mais que uma vez, nas mentiras que me contei sobre ti, que tu nunca confirmaste a não ser em pedaços da minha louca imaginação.
Quiseste fazer-te presente, com a honestidade que só as almas puras apregoam, segurar-me as mãos durante  os pesadelos que atormentam e nos fazem acordar lavados em dor e angústia.
Quiseste que te suspirasse como se olhasse uma peça de arte rara que nunca mais poderia vislumbrar durante esta vida, para te recordar como a louca odisseia que nunca poderia perseguir.
Quiseste tudo. Eu quis-te apenas a ti. Mas eu não tenho mais quereres que permaneçam vivos em mim. Ou em ti.

Foram estes os quereres vazios que nesta minha existência fica orfã do que nunca pudemos partilhar, mas que apenas eu soube verdadeiramente sentir.

E por fim, caio. Caímos.

Cai o sonho, disfarçado de amor raivoso ou paixão vazia de sustento.
Caio eu, abraçado à tua memória que desvanece nos meus abraços vazios enquanto me sinto descer ao purgatório, caído numa ravina de auto-comiseração que antes tinha esquecido existir.
Cai o desejo, a necessidade, a vontade, o sexo.

Caem todos juntos sem que os veja, como caem os sonhos que não são mais que pecados e fantasias. A triste herança que me resta, tal como prometido no primeiro momento em que me deixei encantar por uma luz que nunca foi minha para receber.






sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Necessidades

Tenho dúvidas. 
Sinto-te a falta, mas tenho dúvidas. Se vale a pena esta maçada de me impor a ti, pedindo que me sacies esta minha saudade da tua presença. Preciso-te, perdoa-me por te suspirar.

Duvido. Não acho que mereças que te chame, não por mim, mas por ti que me és querida e sonho erótico que recuso confessar. Não precisas que te atrapalhe com as minhas existencialidades absurdas. Não mereces. Mas preciso-te. 

Soa-me a deslealdade que te peça que te aproximes de mim, quando estou assim. Sôfrego, carente, teimoso, dedicado. Mas preciso-te.

Estupidifiquei o meu respirar, porque estupidifiquei a alma que agora se desfaz em palavras vãs.

Tenho dúvidas que mereças que te precise assim. Mas preciso-te amargamente, meu amor...
Só hoje. Não peço mais, mas que hoje me deixes precisar-te. Só hoje.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Sal




Cheira a sal. Na tua pele.
Estendeste o corpo à minha frente para que o sol o beije completamente. 

Os pingos deixam-se cair pelas tuas pernas e pelas tuas costas, já bronzeadas, e eu invejo-as porque te tocam. Confesso. Apeteces-me neste momento. Mas não podemos, há gente. Mantenho no silêncio este meu desejo permanente, tentando desviar o meu pensamento do teu corpo.
O mar mantém o seu perfume em ti, tentando-me com mais força. 
Fico-me pelo beijo suave no teu ombro, declarando o meu amor por ti. Só por ti. 
Não sopra senão uma aragem, leve como tu, que me traz esse odor salgado, e me chama a atenção em permanência. Sei que estou inebriado por tudo aquilo que te faz ser mulher, deitada ao meu lado, com esse perfume de mar. 

O meu beijo faz virar a tua face na minha direcção. A luz não te deixa manter os olhos abertos mas não desfaz o sorriso dos teus lábios, respondendo-me a este mimo sem barreiras que posso deixar fluir. 
Abraças as minhas costas com o teu braço, já colorido com os tons do Verão, para que me beijes a face. Sussurras baixinho "eu também", antes de retribuíres o carinho no meu braço, com a delicadeza do teu beijo. Tudo está normal, penso. 

O meu mundo está a girar no sentido desejado, porque estás aqui. 
Porque estou aqui. Contigo. Como deve ser.

Tudo faz sentido. 
Porque é a tua pele que perfuma os meus dias.
Porque é o teu sussurrar que me ama.
Porque é o teu beijo que me expia de todo o pecado.

Porque tudo faz sentido, quando posso viver o meu amor ao teu lado. E não preciso de mais nada.