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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Traz-me à vida

Sentei-me no meu sítio.

Estiquei as minhas pernas, apoiando-as na janela. E fiquei ali a contemplar a noite como se nada mais importasse no mundo, àquela hora. Deixo sempre o cinzeiro perto, vício danado este. Acendo um cigarro e fumo-o com alguma pressa, mesmo sabendo que não vou a lado nenhum. As horas são minhas, agora, para fazer o que me aprouver, pensei. Usei-as da única maneira que sou capaz nestes dias que demoram a passar: a olhar. Só isto. Naquela noite não queria fazer mais nada senão olhar.

Devo ter começado dezenas de textos na minha mente. Não escrevi um único, nem uma ideia sequer. É das minhas piores manias, achar que depois me lembro de tudo, quando no fundo sei que não me lembro de nada, depois. Todos começavam da mesma maneira

                      "Perder-me no beijo dela é a melhor forma de saber que estou vivo."

E começavam todos assim porque esta é a verdade. É a única realidade que sei ser irrefutável. Sei-o apesar de nunca a ter tocado.
Apenas o sinto como real e deixo-me guiar por essa lei que não me preocupo em estudar em demasia. Não é preciso... Saber é suficiente, comprovar não será para esta encarnação, certamente. Mas não importa, não faz mal. Ter esta fé já me deixa manter o coração a bater incessante sem prazo de validade.

Por fim, suspirei como se os meus pulmões não tivessem fim, e acendi um último cigarro. Revi aquele desejo a cada vez que o levava aos meus lábios, como se o levasse aos lábios dela. E sabia-me a pouco. A nada. Agora nem o meu vício me sabia a paz.
Quando dei o cigarro por terminado, também a noite terminou. Como sempre termina.

Eu aqui, ela não sei onde.
Eu aqui perdido de amores irreais. Ela a fazer-me crer que nada é impossível.

Eu a sentir algo que não sei definir, ela dona daquilo que me pode trazer de volta do mundo dos mortos.

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