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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Sede

Esta cidade está deserta. Nunca a tinha visto assim.
Não está ninguém no jardim junto da casa dela.

Caminho pelo meio da relva sem que uma única pessoa me veja, sem me preocupar se me seguem ou documentam os meus passos. Carrego um saco com uma garrafa de vinho. Fica bem. Quando somos convidados para entrar no domínio de alguém, fica sempre bem levar uma oferenda.

Ao chegar ao apartamento, a porta estava aberta. Ouviu os meus passos, insistiu que entrasse. Que vinha já ter comigo, que terminava o jantar naquele instante. Fui até junto da janela, segundos depois, senti-a abraçar-me o peito. Bem-vindo, sussurrou-me, senti a tua falta.

Quando me virei para ela, foi o fim da palavra dita como ambos a conhecemos. Sim, eram os lábios que falavam, mas a mensagem era já outra. Sentia-lhe a falta e não sabia o quanto. Bebi a saudade dela com a sofreguidão dos aflitos. Aflitiva era também este necessidade, este apetecer inconsolável que desconhecia existir assim.

Era sede e corpos imperfeitos, era dúvida e certeza misturadas, era o fim do tempo. Éramos nós juntos e livres, finalmente livres. Teria trocado todos os momentos da minha vida passada por aquele tempo que ela me ofereceu. Tudo nela era entrega, era amor, era ela. Nada mais me importou naquele momento. Amei-a, senti-a.

No chão, enrolados num cobertor, respirei-a uma vez mais. As nossas mãos encontraram-se no meio dos corpos, encaixadas. Descansávamos da eternidade durante o tempo que nos restasse. Não era muito mais. Sabia-o. Ela também.

Se me lembro do que foi dito, naquele chão? Não. Não foi importante. O que me ficou foi o cheiro  da sua pele, os risos que soltou ao abraçar-me ali deitado. Ficou-me a imagem da minha felicidade que só ela podia ver, que só ela podia receber.

Sonhei-a como a mais ninguém. Amei-a sem saber como. Pertenci-lhe sem culpas.
E o mundo voltou a fazer sentido, a partir daquele momento.




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