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sexta-feira, 15 de julho de 2016

Psicose

Os pedaços de sol que entram pelas persianas meio fechadas do meu quarto acordam-me de um sono falso.

Não passaram muitas horas desde que me refugiei nos meus lençóis brancos, em fuga das horas que me acompanharam, quando ninguém mais o fez. 

Apenas as horas passaram. As mesmas que, a cada segundo me aproximam da morte. Elas e os meus cigarros que sempre se misturam com o álcool que verto para dentro de mim, para me adormecer mais rápido, todos os dias.

O meu corpo jaz, agora, sem grande movimento que o apoquente. No chão coberto por um tapete negro restam papéis e blocos de notas infindáveis com histórias que temo partilhar. Não são mais que as minhas desventuras por esta existência oca e sem grande sentido que a nomeie. Mas é desses contos que se faz a minha história.  


Subjugo-me à vontade da luz e deixo-a entrar sem mais conversas. Este dia está demasiado brilhante e contrastante com as prosas que acomodei nas páginas lisas dos meus blocos de notas. Sento-me, derrotado, e leio.
Revivo os momentos de memórias que me levaram até àquelas frases ditadas ao meu ouvido, por uma voz que nunca consegui identificar, mas que insisto em escutar com a maior das atenções.
Segreda-me retalhos de uma vida passada e desejos de dias que de futuro nada têm. Mas eu ouço e escrevo. Uma palavra, uma frase, uma folha inteira. Nascem relatos fiéis desta coisa que não sei se chame vida ou teste à minha resistência. Deito-me no tapete negro, e só agora reparo que nada mais me cobre o corpo senão umas calças gastas pelos meses. Leio, de novo, a minha história com uma curiosidade inexplicável, duvidando que tenham sido os meus dedos que a colocaram ali, à minha frente.

Ainda atordoado pela minha descoberta, acendo um cigarro solitário. Como eu. Façamos companhia um ao outro, pois então. Folheio inconscientemente uma e outra página, e ali permaneço. Agora não estou só, é a frase que se repete na minha cabeça.
E no entanto sei que é mentira. Por momentos não faz mal. Nestes instantes não me faz mal saber que as coisas mais simples do meu dia são mentiras. Penso se não serei, também eu, uma mentira. Uma invenção daquela voz que todos os dias me segreda as minhas memórias. Serão minhas, realmente?

Duvido de tudo, questiono tudo. Vivo incrédulo, naquelas horas que me leio, que tenha conseguido exorcizar tantos pedaços de mim.
Vivo sem crenças, sem respirar a vida com os meus pulmões. Existo à espera do dia em que desista de desistir de mim, um dia que me prometem que chegará, pelo qual tenho que esperar. Só.

Neste recanto da cidade só moram as minhas letras, que habitam nos meus blocos de notas. As mesmas que me segredam ao ouvido. Por alguém que não saberei jamais nomear. Um nome que não quero saber. Apenas sei que o nome não é o meu.

Porque eu não sei mais o meu nome, por ter esquecido quem sou.






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