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terça-feira, 5 de julho de 2016

Fuga

Não vás. Por favor, fica mais um pouco, comigo.

Esboçou um sorriso, olhou para baixo e saiu de perto de mim. Fiquei deitado, enrolado em lençóis, a olhar o dia que acabara de nascer, por entre os intervalos das persianas. O meu quarto recebia os primeiros raios de luz, contrastando com a noite que ela me acabara de oferecer. Ouvia-a vestir-se algures na sala. Calçou-se e regressou até mim.

Um beijo, com os olhos fechados. Sem amor. Sem sentidos à flor da pele, como nas horas noturnas que nos tinham velado. Apenas um beijo nos meus lábios. Acariciou-me a face sem me ver a cor dos meus olhos, e despediu-se com um até breve que não era mais que um adeus, disfarçado de esperança, tão vã quanto as suas palavras. Foi. Não olhou para trás. Foi, tal qual como tinha chegado, de repente, sem compromissos ou tratados, e partiu em direcção ao futuro que só ela sabia. Um futuro que não me contemplava.

Tudo ao contrário do que sonhara, dias antes. E perguntei-me, naquele momento de pretensa solidão:
Mas há alguma coisa que corra como eu mais desejo?

Não com ela. Nunca com ela. E no fundo sabia-o, mas preferia não dar valor aos avisos do meu cérebro, optando sempre por ouvir a voz do desejo que me sussurrava insistente noites adentro. E preferi sonhar, sem pensar se me poderia arrepender, fosse do que fosse. Na minha sonhada fantasia, não havia arrependimento ou pecado. Havia-a, somente. E isso chegava-me.

E ela foi. Sem arrependimentos, sem culpas ou indício de pecado. Foi, simplesmente.

Levantei-me da cama, acendi um cigarro e, ainda nu, fui espreitar os raios de Verão que se encostavam à minha pele, com o desenho das persianas. Lá fora não havia nada que me cativasse, senão ela. A ir. A não voltar.

Ela foi. Eu fiquei. E eu consciente que, afinal, não podia ser de outra maneira.



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