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segunda-feira, 18 de julho de 2016

A minha amada

Sentou-se ao meu lado, no sofá preto.

Passou-me a mão pelo cabelo ainda molhado, e sorriu-me um amo-te doloroso. Uma dor que eu não via, nem sentia. 
Deixou-me que a beijasse na testa suavemente numa vã tentativa de a acalmar daquele pesadelo colorido que éramos nós, naquele momento. 

Amo-te, repetiu.
E eu a ti, pareceu-me a resposta mais plausível naquele instante. 

Não que fosse falso, apenas porque me pareceu razoável dar-lhe essa dose diária de amor sem a qual ela não respira.


A toalha envolvia-lhe a pele, também ainda molhada, e assentava-lhe como um vestido feito à medida para os seios dela, descendo somente até à cintura. Estás linda, sabias? Sorriu e respondeu-me novamente aflita: amo-te. Aquela aflição afligiu-me também. Quis perguntar que se passava, se algo acontecia ali naquele pedaço de ar que nos separava. Não perguntei. Segurei a face delas nas minhas mãos. Chorou. Amo-te, chorava o meu doce amor. Chorava porque lhe doía, porque o amor lhe doía e eu não percebia.

O meu amor suspirava, soluçava, lacrimejava e eu ali assustado sem solução à vista que a acalmasse.
Abracei-a. Forte. Ela não me abraçou de volta. Fiz força novamente, para que ela soubesse que o meu amor ainda lhe pertencia. Mas ela não levantou os braços à procura de me aconchegar.

O cabelo dela, molhado como o meu, estava pesado. Mas era a alma dela que pesava mais e eu tentava ter força por nós dois, e ela deixava-se cair. Amo-te, suspirava o meu amor, sem que o som das palavras saísse da boca dela. Só o ar perfumado com o pesar das noites me chegava aos ouvidos. Era a minha aflição e a dela, misturada com a minha, num mar turbulento de tremores à nossa permanência juntos.

Era o sofá negro que perdia o sustento, os meus braços que fraquejavam, era a minha voz que secava no ar que comprimíamos um contra o outro. Era tudo a fugir de nós e nós a tentar manter tudo vivo e perfeito.

Amo-te, dizia-me o meu amor, sem olhar para mim. Amo-te, como que a pedir perdão, dizia-me a minha amada. E eu a ti, respondi-lhe eu, não por ser plausível, mas por medo que ficasse sem alguém a quem o dizer.



Amo-te, suspirou pela última vez a minha insubstituível mulher, até que no meu abraço se deixou adormecer.
E eu também te amo, segredei-lhe ao ouvido, para que a acompanhasse no seu sono... Não por ser plausível, não mais por medo descontrolado.

Apenas por ser a única verdade que naquele momento soube ser irrefutável.



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