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sexta-feira, 29 de julho de 2016

Impossível

Não te posso tocar. 

E é injusto. Imperfeito. Obsceno. Mas não te posso tocar.
Não existe saída nem alívio, não te posso tocar. Apenas te posso querer. 

E não chega. Nunca chega.

Anseio, numa sofreguidão exasperada, que um dia estas barreiras que nos manietam desapareçam. Que tudo o que está a mais se dilua em meros nadas, e que finalmente te toque e inspire.

Isto não é viver. É apenas aguentar todo e cada dia como se fosse uma penitência exagerada em busca de uma redenção que (estou consciente) não chegará nunca. 

E tu aí, à minha frente, como se nada disto te fizesse o mínimo sentido, por ignorares que todo este turbilhão existe e se faz gente.

Achei uma personificação do desejo. Tu. Ninguém mais. 

Foi tudo um desastre à espera de acontecer, a tempestade perfeita. E agora... agora algo me diz que a minha ansiada paz não me chegará nestes tempos vividos à velocidade da luz, que partilhamos e amaldiçoamos serem tão efémeros...

Como poderei, algum dia e nesta vida, saciar uma vontade que apenas mora na minha alma sem pele nem rosto? Vivo numa utopia que só eu conheço, que não partilho nem entrego a mais ninguém.
 
E tu aí, à minha frente. Sem que nada disto te faça sentido, sem que nada te inflame, enquanto eu me deixo consumir neste incêndio ao qual não vejo mais horizonte...

Não te posso tocar.
E é injusto. Imperfeito. Obsceno. Só desejar-te, e isso não chega.

Nunca chega. Nunca chegará...




quinta-feira, 28 de julho de 2016

Paz

Abraça-me outra vez.
Exatamente assim.
Ou se preferires não me soltes de todo.

Sim, eu sei que te peço demasiadas vezes o conforto dos teus braços. Não sei viver sem eles.

Não sei ser homem sem me deixar levar pela paz que só tu me sabes conceder nesse momento em que o tempo tira férias, nos deixa ficar ali, quietos, serenos e longe das nossas tribulações.

Mas não o sei evitar. Não quero aprender a fazê-lo. Perdoa-me por isso.
Peço-te perdão por não querer saber como são os dias corridos sem te ter, junto a mim, envolvida e envolvente.

Morri de amores por um momento. Apaixonei-me tanto por ti como por este momento que, de repetido, se tornou pele em mim. Sim, é isso. Tornaste-te a minha pele, a minha única pele. Que me protege, conforta, me ilumina... tudo numa só pessoa. Tu, que és a minha outra metade de alma, desta alma tresmalhada e confusa. E só.

São estes os dias em que os momentos se tornam as horas do meu prazer.
É nestes pedaços de tempo que me sei reconhecer.
Serão sempre estas oferendas que me entregas que me tornam pleno.

Em ti sei o que é paz. Em ti sei o que é a necessidade. Em ti sei o presente.

Somente em ti sei o que é o amor.



quarta-feira, 27 de julho de 2016

Pertença

Adoraria passar, simplesmente.

Adoraria passar pelos dias sem os ver correr desenfreados, sem os viver desnecessariamente, sem esperar mais. Apenas porque significaria que estava contigo. Escondido. Protegido. Contigo.

Nesta cidade deprimida pelos tempos obscuros, nada há para fazer que não seja pensar-te.

Investir o meu tempo em ti, de forma permanente e reflectida. É um investimento inseguro, sem retorno expectável, a um custo hipoteticamente elevado.
Mas é esta a minha forma de te gostar.

Ver-te à frente dos meus olhos, esticar a minha mão e não conseguir tocar-te, mas ainda assim sorrir... Sentir-te respirar ao meu lado, abraçada ao meu peito, sem que aqui estejas. Navegar cada recanto desta calçada sem conseguir tirar os olhos do chão por ter vergonha que as gentes me achem maluco por sorrir sem motivo aparente.

É a minha maneira de te pertencer. Não conheço outra forma de viver, de ser pleno, quem sabe até feliz.
Mesmo que nunca seja mais que a minha imaginação que me leva até ti, sem que o saibas. Sem que confesses que, por instantes, me soubeste junto a ti a sussurrar-te o impossível, encostado ao teu ouvido. Mesmo aí, onde dormes. Aí onde eu queria estar.



Haverá outra forma de te ter?...
Se houver não a quero saber. Será imperfeita e sujeita a tremores de terra e aflições.
Prefiro estar assim, longe e perto em simultâneo. Da única maneira que faz sentido querer-te.

Assim...








terça-feira, 26 de julho de 2016

Indefinições

Tenho medo disto. 
Disto que não sei o que é.

Porque não nos falamos como antes, não nos chamamos como antes. 

Como se a estrada tivesse mudado à frente dos nossos olhos e não déssemos conta.
Como se tivéssemos deixado que a direcção deixasse de ser a que originalmente tínhamos antevisto.
Como se fosse, afinal, este o nosso destino final emergido das areias do nosso deserto comum.

Não sentes? Não respondas. Prefiro não saber.

Mas tenho medo, confesso-te. Receio que tudo seja furacão que passe a correr e nada reste depois da borrasca.
Que seja apenas uma passagem pelo teu refúgio, que apenas nos vívamos dentro do silêncio, como criminosos. Meros pecadores numa vida que merece mais que apenas o sonho.
Sem saber para onde olhar. 

Apenas prefiro não ver-te falar comigo sem dizer uma única palavra. Porque tenho receio que quando o faças, fujamos para longe para onde os dias se diluam nos rios da memória. Não apenas da tua, mas da minha também.
Fugaz entrega do ser que apenas anseia ser mais do que é. Daquela maneira que me olho ao espelho depois de te abraçar.

É natural? Faço-te sentido? Fazes-me sentido?
Não sei. Nada mais consigo saber...

Mas suponho que sim. 
É um dilema. O extremo da incerteza. Simplesmente uma verdade que não pode merecer mais detalhe ou debate.

És o meu medo e a minha vontade. E receio que ambos se misturem. Até que nada mais reste de nós, como a vida deveria ser vivida...


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Mérito

Devia ser proibido ter ansiedades destas. 

Nos nossos genes devia haver um mecanismo de defesa contra ti. Contra as coisas que me fazes pensar. Prevenção contra esta loucura que me fazes passar de cada vez que me lembro que existes.
É imoral, sei. Vai contra todas as convenções que me ensinaram ser válidas. Mas nada me vale, agora. Neste momento não sei a quem ou a que recorra para me acalmar este estado de angústia e pecado. Sim, porque aquilo que sonho tem que ser pecaminoso e punido. Porque me fazes pensar em ti de todas estas formas?


Não me ignoras a existência. Eu não deixo.
Sabes qual o meu rosto e como se chamam os meus olhos quando se encontram com os teus. E não tens pena de mim, nem me tentas consolar. Não te afastas, eu não deixo. 
Tu ris. Gostas de saber que te suspiro a cada pulsação que se manifesta em mim. E eu gosto que tu gostes, é indesmentível...

A minha fortuna continua a ser o facto de não te ver. A não ser quando adormeço, claro. Quando me deixas sonhar-te. Não tem o sabor da tua pele clara, ou o cheiro do teu peito, mas é o melhor que posso ter. Não me chega, mas dás-me isso, pelo menos.

Mas ainda assim permaneço nesta ansiedade atroz que não se acalma, para a qual não há, ainda, cura viável. Provavelmente, só tu me podes dar esse remédio, impregnado nos teus lábios, entregando-me a salvação com um beijo que desejo merecer. Mesmo que não te mereça. Mesmo assim, sei-te ser a chave da minha prisão que carrega o teu nome. 
Quero-a. Hoje e todos os dias que me esperam no horizonte...

Mesmo que não a mereça.

Mesmo que não te mereça. A ti e unicamente a ti. 







sexta-feira, 22 de julho de 2016

Inquietude

Guarda-me de tudo o que me faz mal. Em ti.

É só isso que te peço. Apenas que me guardes em ti. 

Me abraces, protejas e digas que tudo vai correr bem, mesmo que saibas que é mentira. 
Por vezes preciso que me mintas, me faças crer por segundos que tudo está onde deve estar.
 
Preciso de ti hoje mais que ontem. 
Ontem já não interessa, passou, não o podemos ter novamente junto de nós. Mas hoje estás aqui, e não quero mais que isso.

O agora assusta-me, tanto como o amanhã. Carrego em mim todos os medos que possas nomear. Mas aquele que mais me destrói é aquele que se chama a tua ausência. Temo o dia em que possas não estar perto quando te chore, quando te escreva, quando te respire. 

No entanto, e se for apenas a tua recordação que me aqueça pela noite, ou somente o som da tua voz a confortar-me, no meio desta melodia taciturna que sou eu, será suficiente se te souber meu. 
Só meu. 
O meu recanto perfeito, o abraço envolvente de toda a paz.

Por isso te peço: guarda-me, por favor. Abraça-me, por favor. Fica aqui, por favor. Não me deixes só, sem a tua voz, a tua canção na minha melodia...

Ama-me como só tu sabes, agora que me escondo nos teus braços. 

Por vezes só preciso que me guardes, escondas, ames. Que me digas que não irás para nenhum outro sítio que não seja aqui. Junto a mim. Guarda-me, meu amor...

Somente. 
Em ti. 

Hoje. Amanhã. Em ti.





quinta-feira, 21 de julho de 2016

Sede

Esta cidade está deserta. Nunca a tinha visto assim.
Não está ninguém no jardim junto da casa dela.

Caminho pelo meio da relva sem que uma única pessoa me veja, sem me preocupar se me seguem ou documentam os meus passos. Carrego um saco com uma garrafa de vinho. Fica bem. Quando somos convidados para entrar no domínio de alguém, fica sempre bem levar uma oferenda.

Ao chegar ao apartamento, a porta estava aberta. Ouviu os meus passos, insistiu que entrasse. Que vinha já ter comigo, que terminava o jantar naquele instante. Fui até junto da janela, segundos depois, senti-a abraçar-me o peito. Bem-vindo, sussurrou-me, senti a tua falta.

Quando me virei para ela, foi o fim da palavra dita como ambos a conhecemos. Sim, eram os lábios que falavam, mas a mensagem era já outra. Sentia-lhe a falta e não sabia o quanto. Bebi a saudade dela com a sofreguidão dos aflitos. Aflitiva era também este necessidade, este apetecer inconsolável que desconhecia existir assim.

Era sede e corpos imperfeitos, era dúvida e certeza misturadas, era o fim do tempo. Éramos nós juntos e livres, finalmente livres. Teria trocado todos os momentos da minha vida passada por aquele tempo que ela me ofereceu. Tudo nela era entrega, era amor, era ela. Nada mais me importou naquele momento. Amei-a, senti-a.

No chão, enrolados num cobertor, respirei-a uma vez mais. As nossas mãos encontraram-se no meio dos corpos, encaixadas. Descansávamos da eternidade durante o tempo que nos restasse. Não era muito mais. Sabia-o. Ela também.

Se me lembro do que foi dito, naquele chão? Não. Não foi importante. O que me ficou foi o cheiro  da sua pele, os risos que soltou ao abraçar-me ali deitado. Ficou-me a imagem da minha felicidade que só ela podia ver, que só ela podia receber.

Sonhei-a como a mais ninguém. Amei-a sem saber como. Pertenci-lhe sem culpas.
E o mundo voltou a fazer sentido, a partir daquele momento.




quarta-feira, 20 de julho de 2016

Oração da Aflição

Deixas-me sonhar contigo hoje? Só hoje. Ia fazer-me bem. 

Deixa-me sonhar que molhamos os pés neste mar e que ninguém nos observa. 

Que a vida somos nós que a fazemos. 
Que as nossas pegadas nesta areia não são apagadas pela força das ondas, e permanecem para sempre, onde quero também permanecer contigo. 

Que a eternidade nos pertence, apenas a nós e mais ninguém. 

Deixas?

Se me deixares sonhar contigo hoje eu posso ser tudo aquilo que desejo, apenas por te sentir nas minha mãos como nunca senti mais ninguém.

É um pedido estranho, bem sei, mas eu nunca fui alguém coerente quando o assunto és tu. 

Sem quereres desmascaras toda esta figura que criei para me defender de ti. Apenas de ti. Nunca precisei de defesas com ninguém. Nunca quis sonhar ninguém. E agora faço-te este pedido tão absurdo, sem cabimento e vazio de sentido, como se de uma bênção se tratasse.

Deixa-me sonhar contigo sem que durma, apenas por hoje.
Peço-te que me deixes mergulhar por ti adentro como se nunca me faltasse o ar, afogando-me nesse mar que é a tua essência.  
Apenas por este dia quero pedir-te que me deixes conhecer o fundo do teu oceano, ao invés de apenas conhecer os teus olhos como os de mais ninguém.

Deixas-me sonhar contigo?
Deixas-me abraçar-te plenamente sem censuras, preocupações ou punições?
Tocar-te na alma e arrancar-te todas as tuas dores e pecados? Hoje, apenas hoje, deixa-me entregar-me sem contemplações e deixar-te levar-me para onde mais queiras, no teu mais recôndito espaço de paz, de tempestades, de luxúria e prazer... no teu mais íntimo recanto de ti.

Deixas-me sonhar contigo? Só hoje. 

Só te peço o hoje, porque o amanhã não o sei dizer e amanhã pode ser tarde demais.


terça-feira, 19 de julho de 2016

Incêndio

Saí de lá em fuga. Perdida e inconsciente.

Antes tivesse ficado, podia ter sido aquilo que era e amanhã não seria mais que isso. Uma noite passada, na minha história que poderia guardar num recanto escondido. Deveria ter sido um riso e um copo de vinho. Um jantar, um momento inocente que descambasse numa perda de sentidos momentânea, sem consequências nem marcas.

Em vez disso fugi, temendo pela minha sanidade. Nem um beijo, nem mais um copo de vinho. Mas com consequências. As piores. Daquelas que não fazem sentido.

Quero que isto passe, mas fui assaltada à mão desarmada, sem esquemas ou engodos. De maneira desleal e à luz do dia. Não se faz.

Aquece-me o sangue, a pele arde-me em cada recanto.

Esqueço-me de dormir, de comer, de respirar, se não for a imagem dele a levar-me. Por mais que tente bloquear as mãos dele, são elas que me aquecem ainda mais e me deixam ofegante por algo que não recebi, e repito que não quero conhecer. Não era suposto. 

Falta-me o discernimento, agora. Falta-me isso e muito mais. Não era suposto.

Mas agora aconteceu. Uma angústia, uma ausência que me faz doer, que não quero colmatar por não querer nada que me preencha este espaço. O mesmo lugar onde me deixei atingir, uma e outra vez, até que o fechei a estranhos. Quero este canto de mim livre de inquilinos e penetras.
Não preciso disto, não agora. Ainda sou dona de mim, engano-me a torto e a direito. É mentira, a minha vontade já não é a minha, é apenas um reflexo de uma noite que não era suposto ter deixado a marca que deixou. As consequências.

Estou ausente. Em parte incerta.

Consumida por um fogo que me cerca as paredes do meu ser. E eu ali. Sentada a ver como tudo à minha volta queima. As chamas que me incendeiam os sentidos. Que não me deixam ver fora de mim.



Tudo queima. Como o meu sangue. Como a minha pele.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

A minha amada

Sentou-se ao meu lado, no sofá preto.

Passou-me a mão pelo cabelo ainda molhado, e sorriu-me um amo-te doloroso. Uma dor que eu não via, nem sentia. 
Deixou-me que a beijasse na testa suavemente numa vã tentativa de a acalmar daquele pesadelo colorido que éramos nós, naquele momento. 

Amo-te, repetiu.
E eu a ti, pareceu-me a resposta mais plausível naquele instante. 

Não que fosse falso, apenas porque me pareceu razoável dar-lhe essa dose diária de amor sem a qual ela não respira.


A toalha envolvia-lhe a pele, também ainda molhada, e assentava-lhe como um vestido feito à medida para os seios dela, descendo somente até à cintura. Estás linda, sabias? Sorriu e respondeu-me novamente aflita: amo-te. Aquela aflição afligiu-me também. Quis perguntar que se passava, se algo acontecia ali naquele pedaço de ar que nos separava. Não perguntei. Segurei a face delas nas minhas mãos. Chorou. Amo-te, chorava o meu doce amor. Chorava porque lhe doía, porque o amor lhe doía e eu não percebia.

O meu amor suspirava, soluçava, lacrimejava e eu ali assustado sem solução à vista que a acalmasse.
Abracei-a. Forte. Ela não me abraçou de volta. Fiz força novamente, para que ela soubesse que o meu amor ainda lhe pertencia. Mas ela não levantou os braços à procura de me aconchegar.

O cabelo dela, molhado como o meu, estava pesado. Mas era a alma dela que pesava mais e eu tentava ter força por nós dois, e ela deixava-se cair. Amo-te, suspirava o meu amor, sem que o som das palavras saísse da boca dela. Só o ar perfumado com o pesar das noites me chegava aos ouvidos. Era a minha aflição e a dela, misturada com a minha, num mar turbulento de tremores à nossa permanência juntos.

Era o sofá negro que perdia o sustento, os meus braços que fraquejavam, era a minha voz que secava no ar que comprimíamos um contra o outro. Era tudo a fugir de nós e nós a tentar manter tudo vivo e perfeito.

Amo-te, dizia-me o meu amor, sem olhar para mim. Amo-te, como que a pedir perdão, dizia-me a minha amada. E eu a ti, respondi-lhe eu, não por ser plausível, mas por medo que ficasse sem alguém a quem o dizer.



Amo-te, suspirou pela última vez a minha insubstituível mulher, até que no meu abraço se deixou adormecer.
E eu também te amo, segredei-lhe ao ouvido, para que a acompanhasse no seu sono... Não por ser plausível, não mais por medo descontrolado.

Apenas por ser a única verdade que naquele momento soube ser irrefutável.



sexta-feira, 15 de julho de 2016

Psicose

Os pedaços de sol que entram pelas persianas meio fechadas do meu quarto acordam-me de um sono falso.

Não passaram muitas horas desde que me refugiei nos meus lençóis brancos, em fuga das horas que me acompanharam, quando ninguém mais o fez. 

Apenas as horas passaram. As mesmas que, a cada segundo me aproximam da morte. Elas e os meus cigarros que sempre se misturam com o álcool que verto para dentro de mim, para me adormecer mais rápido, todos os dias.

O meu corpo jaz, agora, sem grande movimento que o apoquente. No chão coberto por um tapete negro restam papéis e blocos de notas infindáveis com histórias que temo partilhar. Não são mais que as minhas desventuras por esta existência oca e sem grande sentido que a nomeie. Mas é desses contos que se faz a minha história.  


Subjugo-me à vontade da luz e deixo-a entrar sem mais conversas. Este dia está demasiado brilhante e contrastante com as prosas que acomodei nas páginas lisas dos meus blocos de notas. Sento-me, derrotado, e leio.
Revivo os momentos de memórias que me levaram até àquelas frases ditadas ao meu ouvido, por uma voz que nunca consegui identificar, mas que insisto em escutar com a maior das atenções.
Segreda-me retalhos de uma vida passada e desejos de dias que de futuro nada têm. Mas eu ouço e escrevo. Uma palavra, uma frase, uma folha inteira. Nascem relatos fiéis desta coisa que não sei se chame vida ou teste à minha resistência. Deito-me no tapete negro, e só agora reparo que nada mais me cobre o corpo senão umas calças gastas pelos meses. Leio, de novo, a minha história com uma curiosidade inexplicável, duvidando que tenham sido os meus dedos que a colocaram ali, à minha frente.

Ainda atordoado pela minha descoberta, acendo um cigarro solitário. Como eu. Façamos companhia um ao outro, pois então. Folheio inconscientemente uma e outra página, e ali permaneço. Agora não estou só, é a frase que se repete na minha cabeça.
E no entanto sei que é mentira. Por momentos não faz mal. Nestes instantes não me faz mal saber que as coisas mais simples do meu dia são mentiras. Penso se não serei, também eu, uma mentira. Uma invenção daquela voz que todos os dias me segreda as minhas memórias. Serão minhas, realmente?

Duvido de tudo, questiono tudo. Vivo incrédulo, naquelas horas que me leio, que tenha conseguido exorcizar tantos pedaços de mim.
Vivo sem crenças, sem respirar a vida com os meus pulmões. Existo à espera do dia em que desista de desistir de mim, um dia que me prometem que chegará, pelo qual tenho que esperar. Só.

Neste recanto da cidade só moram as minhas letras, que habitam nos meus blocos de notas. As mesmas que me segredam ao ouvido. Por alguém que não saberei jamais nomear. Um nome que não quero saber. Apenas sei que o nome não é o meu.

Porque eu não sei mais o meu nome, por ter esquecido quem sou.






quinta-feira, 14 de julho de 2016

Somente Mulher

Tudo o que preciso agora é do teu silêncio. Mais nada.

Não preciso de abraços, de beijos, de nada que não seja a ausência de palavras tuas. Porque não quero nada mais que não seja o meu canto, o meu mundo onde agora não cabes. 

Não te estou a expulsar, apenas a pedir que não fales, que por momentos te esqueças de mim. 
E que me deixes aqui sozinha, a olhar o mundo passar à frente dos meus olhos.  Os mesmos olhos que se desviam dos teus...

Estou diferente? Talvez, agora. Sinto-te a falta, mas não lhe posso chamar saudade. Tu não compreendes o quanto eu me quero. Muito mais que te quero a ti. 

Deixaste de ser a prioridade, e ainda bem. 

Foi demasiado tempo a pertencer-te e a esquecer-me que, afinal, não te sou propriedade e sou dona de mim mesma. 
Tu não percebes. Não faz mal, eu perdoo-te e compreendo que não consigas entender que ninguém é mais importante que eu. Muito menos tu.

Gostava de te pedir que não viesses ter comigo, que não pedisses para invadir este meu espaço. Que não é nosso, somente meu. Tudo o que eu preciso é que faças silêncio. Que me deixes sentir o sabor da saudade por ti. Que queira o abraço e o teu beijo. Agora não quero. Não te quero, volto a dizer-te.

Não vou partir. Mas preciso viajar em mim e por mim. Saber quem mora neste corpo, afinal.  Redescobrir a minha face, reaprender qual a cor dos meus olhos, como é o toque na minha pele. Quero saber onde chegam estes braços que investiram tanto tempo a envolver-te, e nenhum a descobrir-me.

Será que é pedir-te assim tanto? Se for, lamento. Nada mais te poderei explicar, quando tu não queres saber. Talvez não me queiras como eu sou, e apenas como desejas que eu seja. E eu não posso querer ser isso para ti. 

O que quero? Ainda não percebeste?
É tão simples, meu amor...


Quero ser aquilo que nasci para ser. 
Mulher. Somente Mulher.



terça-feira, 12 de julho de 2016

Um Adeus nunca será um Até Breve

Na despedida das memórias que te guardei, deixo-me levar pela doce leveza da tristeza que tanto tempo quis esconder.

Uma despedida dói e magoa, como se nos arrancassem um pedaço daquela que é a nossa história. Um adeus nunca se pode disfarçar de até breve.

Eu sei-o, tu sabe-lo também, e a admissão de que assim é nunca nos passa incólume ou isenta de marcas.

É uma derrota, convenhamos. Quem é derrotado? Não sei.
Prefiro apenas pensar que não há vencedores, porque ambos somos vencidos. Não que a vida seja um jogo, e não quero pintar um quadro com essas cores, mas admitamos. Uma despedida é o resultado da inglória vontade de querer tornar o presente num eterno futuro que nunca se desvanece na alma e no corpo. E como eu te guardei na minha dilacerada alma, meu amor
.
Sabendo que a despedida tinha chegado antes do amanhecer, não a quis abraçar nem valorizar. Amanhã ainda vem longe, gritei. Era mentira porque o tempo não espera por mim, e tu não quiseste esperar por mim.

Foi no sossego da tempestade que é a minha eterna solidão que me foi segredado ao ouvido: está na hora, o momento do adeus chegou. Há segredos que não queremos conhecer, há momentos que nunca queremos viver, há estradas que nunca queremos percorrer.

Mesmo que nos faça bem.
Mesmo que nos cure.
Mesmo que nos exorcize de todas as maleitas.
Mesmo que nos absolva de todos os pecados.




Não queremos, não desejamos, não nos pertence a nós o peso de assumir daquilo que não tem réu ou juiz.

É assim que me soam as despedidas. É desta forma que me recordo dos dias que passei a tentar não me recordar mais de ti, meu amor.

É desta forma e mais nenhuma que a despedida do que fui, me transformou na imagem do que nunca quis ser: Eu. E Eu sempre foi mais do que aquilo que podia merecer.

Da mesma forma que nunca poderia merecer aquilo que mais quis merecer:
Tu...






segunda-feira, 11 de julho de 2016

Liberdade

A voz saiu-lhe presa pela intensidade com que me amou.

Um suspiro, uma respiração profunda, do mais escondido recanto da alma. Era ela, plena e livre, comigo a segurar o corpo dela. A dizer-lhe que era ela e mais nenhuma. Eram todas as feridas que saravam, toda a luz que entrava por nós adentro. 
Era a contrição, o perdão que voavam pelas correntes de ar do prazer que nos rodeava. Era eu a pertencer-lhe e ela a dar-me  o que de melhor tinha para dar ao mundo. 

Éramos nós a ser. A deixar-nos ser. Somente. 

Para mim foi como se voltasse a sentir que viver fazia sentido. Para ela? Não quis perguntar, temia a resposta. Não era importante, naquele momento. Só importava que a abraçava, a amava, lhe falava baixinho, a beijava à procura da vida que brotava dos lábios dela em permanência... 

Olhava-me fixamente, segurando-me a face com as duas mãos, procurando a minha boca sempre. Deixava-me levar por cada movimento dela, entreguei-me por completo, e sei que ela o sentia perfeitamente. Momentos houve em que tremia nos meus braços.
E suspirava!
Toda ela era um furacão dos sentidos, e eu sem saber fazer mais que não fosse desejá-la e amá-la. Desejei-a com todo o meu espírito, até ao ponto em que sucumbi à vontade dela, à posse dela.
Não mais me lembro daquela tarde, e não é preciso. 

Resta-me apenas a memória dela a descansar em mim, quando quisemos que assim fosse.
Apenas memórias, nada mais. Porque dela sei apenas que ainda vive todo e cada dia. Dela sei apenas que aqui não está mais. Simplesmente porque me tinha ensinado aquilo que eu ainda não tinha aprendido. 


São apenas memórias daquele momento sem fim, que passou por mim demasiado rápido. Que eu guardei, um momento que me guardou e libertou.

São apenas e só memórias perfeitas. 
Tal como ela o é.



quarta-feira, 6 de julho de 2016

Foi

Estou a chegar. Onde estás?

Em casa, respondi-lhe. Desligou em seguida.

Minutos depois estava à minha frente. Sem dizer uma palavra, sem me deixar sorrir, sem mais nada, abraçou-me. 
Um daqueles abraços fortes, sabes? Daqueles que as mãos dela se entretêm a passear pelas nossas costas, para se esconderem dentro da roupa. Passou-as pelo meu peito, apenas para me envolver novamente. Foi o beijo que mais ansiava. Foi o momento, apenas, quis pensar.

Não foi nada disso. Foi tudo aquilo que sonhara. Ela. Eu. Nós. E mais nada. 
O mundo ficou lá fora, fechado a sete chaves, sem permissão de entrar. Éramos apenas nós contra todos aqueles que não sabiam que existíamos. Não interessava mais nada, senão a vontade de pertencer a outro alguém. Como se toda a nossa vida apenas agora ganhasse um propósito. Era como se todo o meu passado apenas tivesse significado porque estava, com ela, a sentir-me mais vivo que nunca.

Foi o amor que se fez, a saudade que nunca iria calar-se, a viagem que terminava onde queríamos que tivesse começado. 
Foi ela a respirar cansada de me amar, fui eu a querer que não houvesse tempo a correr contra nós. Fomos nós a saborear cada um dos recantos da pele do outro, éramos nós a querer que não houvesse outro amanhecer, que o amanhã não fosse mais que um pesadelo forçado. 
Numa única noite, fomos apenas aquilo para que tínhamos sido criados.

Foi ela deitada em mim, segurando-me com receio de uma fuga que eu não queria sequer contemplar. Fui eu a abraça-la como se de um tesouro se tratasse. Fomos nós a suspirar pelo fim que queria chegar, sorrateiro e cruel, depois daquela noite de Verão que, da nossa memória nunca se iria apagar.
Fomos nós a deixar fugir as lágrimas de uma dor feliz por se tornar real. 


Foi um momento que apenas com ela fez sentido. Foi uma noite em que o tempo não contava para nada. Foi o despertar de uma loucura que só nós sabemos descrever. 
Foi a perfeição vivida por duas vidas vazia de qualidades...

Foi um princípio com consciência de fim.
Foi o princípio do fim de algo que, afinal, não podia ser mais que um momento.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Fuga

Não vás. Por favor, fica mais um pouco, comigo.

Esboçou um sorriso, olhou para baixo e saiu de perto de mim. Fiquei deitado, enrolado em lençóis, a olhar o dia que acabara de nascer, por entre os intervalos das persianas. O meu quarto recebia os primeiros raios de luz, contrastando com a noite que ela me acabara de oferecer. Ouvia-a vestir-se algures na sala. Calçou-se e regressou até mim.

Um beijo, com os olhos fechados. Sem amor. Sem sentidos à flor da pele, como nas horas noturnas que nos tinham velado. Apenas um beijo nos meus lábios. Acariciou-me a face sem me ver a cor dos meus olhos, e despediu-se com um até breve que não era mais que um adeus, disfarçado de esperança, tão vã quanto as suas palavras. Foi. Não olhou para trás. Foi, tal qual como tinha chegado, de repente, sem compromissos ou tratados, e partiu em direcção ao futuro que só ela sabia. Um futuro que não me contemplava.

Tudo ao contrário do que sonhara, dias antes. E perguntei-me, naquele momento de pretensa solidão:
Mas há alguma coisa que corra como eu mais desejo?

Não com ela. Nunca com ela. E no fundo sabia-o, mas preferia não dar valor aos avisos do meu cérebro, optando sempre por ouvir a voz do desejo que me sussurrava insistente noites adentro. E preferi sonhar, sem pensar se me poderia arrepender, fosse do que fosse. Na minha sonhada fantasia, não havia arrependimento ou pecado. Havia-a, somente. E isso chegava-me.

E ela foi. Sem arrependimentos, sem culpas ou indício de pecado. Foi, simplesmente.

Levantei-me da cama, acendi um cigarro e, ainda nu, fui espreitar os raios de Verão que se encostavam à minha pele, com o desenho das persianas. Lá fora não havia nada que me cativasse, senão ela. A ir. A não voltar.

Ela foi. Eu fiquei. E eu consciente que, afinal, não podia ser de outra maneira.



segunda-feira, 4 de julho de 2016

Sem sentido

Eu gosto de ti.

Simples e directo. Eu gosto de ti. Custa muito dizer, mas é assim que as coisas estão. E, ao que me parece, tu gostas de mim. E isso sim, custa horrores ser dito. Porque não faz sentido, nunca poderia fazer. 

Mas agora isso voou tudo pela janela, pela mesma janela onde agora me deixo a contemplar, com os olhos postos nos dias que passam com a lentidão do Verão que teima em se fazer sentir. Porque não faz sentido, nunca poderia fazer.

Toda eu sou Verão, agora. Sorrio conformadamente, ainda incrédula mas consciente de que não posso fazer mais nada. Este sol queima as nossas peles, marcando-nos com memórias dos dias que vão, também eles, passar por nós lentamente com passadas firmes. São as recordações daquilo que ainda não aconteceu que me preenchem os lábios. E isto não me faz sentido nenhum, nem nunca poderá fazer.

No entanto, prefiro guardar segredo das emoções que enchem o paladar e o pensamento. É melhor. É mais seguro. Assim dói menos. Nunca, como agora, precisei da minha armadura bem preparada para as investidas que se aproximam. Porquê? Porque não faz sentido, nunca poderia fazer. 

Mas diz-me: há alguma coisa que faça sentido? Nestas horas, nestas confissões que só a minha mente escuta, existe alguma parte de nós que faça sentido? Claro que não. E é assim mesmo que te quero. Sem sentido, sem promessas, sem compromissos. 

Porque só assim fará sentido, da única maneira que poderia fazer.



sexta-feira, 1 de julho de 2016

Traz-me à vida

Sentei-me no meu sítio.

Estiquei as minhas pernas, apoiando-as na janela. E fiquei ali a contemplar a noite como se nada mais importasse no mundo, àquela hora. Deixo sempre o cinzeiro perto, vício danado este. Acendo um cigarro e fumo-o com alguma pressa, mesmo sabendo que não vou a lado nenhum. As horas são minhas, agora, para fazer o que me aprouver, pensei. Usei-as da única maneira que sou capaz nestes dias que demoram a passar: a olhar. Só isto. Naquela noite não queria fazer mais nada senão olhar.

Devo ter começado dezenas de textos na minha mente. Não escrevi um único, nem uma ideia sequer. É das minhas piores manias, achar que depois me lembro de tudo, quando no fundo sei que não me lembro de nada, depois. Todos começavam da mesma maneira

                      "Perder-me no beijo dela é a melhor forma de saber que estou vivo."

E começavam todos assim porque esta é a verdade. É a única realidade que sei ser irrefutável. Sei-o apesar de nunca a ter tocado.
Apenas o sinto como real e deixo-me guiar por essa lei que não me preocupo em estudar em demasia. Não é preciso... Saber é suficiente, comprovar não será para esta encarnação, certamente. Mas não importa, não faz mal. Ter esta fé já me deixa manter o coração a bater incessante sem prazo de validade.

Por fim, suspirei como se os meus pulmões não tivessem fim, e acendi um último cigarro. Revi aquele desejo a cada vez que o levava aos meus lábios, como se o levasse aos lábios dela. E sabia-me a pouco. A nada. Agora nem o meu vício me sabia a paz.
Quando dei o cigarro por terminado, também a noite terminou. Como sempre termina.

Eu aqui, ela não sei onde.
Eu aqui perdido de amores irreais. Ela a fazer-me crer que nada é impossível.

Eu a sentir algo que não sei definir, ela dona daquilo que me pode trazer de volta do mundo dos mortos.