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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Utopia

A minha mulher dorme deitada à cabeceira da cama que nos acolheu. A minha utopia dorme a quilómetros da mesma cama onde agora descanso.
A minha mulher procura-me para que a abrace uma vez mais. A minha utopia descansa abraçada a uma almofada, sonhando com alguém que não serei eu. 

A minha mulher é a minha permanente lembrança que o sonho não passa de uma fraca utopia à qual nos entregamos, suspirando, chorando, pedindo que nos envolva de volta. Sem nunca nos ouvir, sem nunca nos dedicar sequer uns segundos do seu atarefado dia.

É a pele dela que deveria contrastar com a minha, nas noites sem solidão que vivo e revivo a cada respiração. Deveriam ser as mãos dela a acordar o meu sexo da letargia dos dias, durante o beijo das nossas línguas que nunca se encontram. É o meu desejo que quero entregar-lhe no abraço que nunca assumirá a sua forma, agarrado às costas dela como que a agarrar-me à vida que desgasto e lhe quero entregar.

A minha utopia tem nome, mas não me atrevo a pronunciá-lo. O meu sonho tem contornos que não mais têm vergonha senão aquela que guardo para mim, envoltos em medo que de mim se ria ou despreze.
Não imagino qual seria a dor maior. Se vê-la soltar o riso ao lhe dizer da minha fantasia, se sofrer na pele que queima dentro de mim, se me virasse as costas e nem uma palavra me dirigisse.

A minha mulher acorda com o movimento das minhas ideias. Abre os seus olhos em negação, e lê nos meus olhos a constatação conformada que ali só mora um amor que mais não tem por onde sê-lo. No meu olhar fixo no dela, crescem oceanos de embaraço e perdição. Estou sem voz. Não consigo conjurar palavras para lhe mentir, dizendo que tudo está onde deve estar, que estamos juntos para além das fronteiras do leito que nos aconchega. A minha mulher sabe que não é, nem nunca será a minha utopia.
A minha mulher sabe que não é o sonho que quero realizar, que não é o amor que quero fazer. Ela sente, como mais ninguém, que a minha alma lhe foge por entre os dedos finos com que me penteia o cabelo todos os dias, e todas as noites antes de embarcarmos no sono. A minha mulher sabe que não é, nem nunca será a minha utopia.

Prefere vestir-se e fugir. Não quer que a veja chorar. Não consegue ver-me, inerte e dormente, deitado sem a reacção mais natural que seria correr atrás dela. A minha mulher não quer ser o amor que preenche as horas vagas entre as minhas fantasias. Parte para não mais voltar. Foge porque sabe que não é, nem nunca poderá ser aquilo que apenas vive nos sonhos dos homens que perderam a alma algures no caminho.

Ela vai porque sabe que não é a minha doce, leve e impossíel utopia. E eu deixo-a partir, porque ninguém merece habitar em mim sem que as chaves deste domínio lhe pertençam em toda a plenitude. E ela muito menos.

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