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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Medo do tempo

Tenho medo.
É uma confissão despida de qualquer preceito, sem a roupa que me envolve o espírito. E logo eu que nunca fui muito bom a confessar-me. Assumo que sou um ser nascido e vivido como um perfeito pecador, sem arrependimentos ou contrição.

Este medo não é um castigo, é uma consequência. É um resultado obstinado e moldado pela teimosia em ser tal como vim ao mundo. Uma besta, um idiota sem filtros, sem ralações de aceitação, vivendo cada dia com receios de rejeição. É verdade, todo eu me chamo contradição, o meu destino é possuir um brilho ofuscado pelas persianas que apenas deixam espreitar résteas de luz.

Não sei mais o que digo.
Não procuro ser brilhante, apenas direto enquanto me vejo disparando em todas as direcções. Sem me preocupar, sem me defender, sem perdoar. Porque o perdão é perda de tempo e à vida só se sobrevive sem ter medo de perder seja o que for. O tempo é o dinheiro dos nossos dias, e todo o mundo vive cego pela noção que assim não é.

E eu tenho medo. Medo de gastar o tostões de tempo que me fogem sem eu querer.
Tenho medo. Medo de avançar. Medo de perdoar. Medo de viver.

Os meus dias perdem-se nos confins do tempo, porque o tempo vive a sua vida sem me perdoar. E eu também. E desse medo, e dessa existência ninguém me pode salvar.

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