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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Pesadelos e Sonhos

"What were all those dreams we shared / those many years ago?
What were all those plans we made now / left beside the road?
Behind us in the road
" - The End, Pearl Jam


O que faremos com todas estas recordações?

Onde estão? Guardadas? No cesto para destruição futura?

E os sonhos? Os nossos sonhos que eram tão nossos, que ninguém os percebia. Onde param, agora que esta estrada se transformou num beco sem saída, sem espaço para inversão de marcha ou direção?
Estão lá. Bem atrás de nós, longe do teu alcance, e do meu. E agora? O que faremos com as recordações, os planos, os sonhos? Não sei. Muito menos tu.

Não me olhas de frente. Eu também não sou capaz. Não é possível.
Passam pessoas pelas nossas vidas sem o que seu impacto se sinta, se guarde. Não quero que sejas uma entidade, uma memória que esteve e agora passou. Algo está mal nessa equação que, de tão doente, se torna sentença de morte.

E a morte nem sempre é pacífica ou silenciosa. Por vezes é purgatório e castigo, ainda que imerecido. E tu não mereces castigo, nem precisas de confissão ou perdão. Não tu. Eu? Bem, isso é outra história que não vou ressuscitar.

Eu quis, quero ainda, deixar os meus dias correr contigo. Queria ver a vida tornar-se mais lenta, mais plácida e serena. Seria apenas assim, e passaria pelos nossos olhos ao mesmo tempo. Observada, vivida, plena. Seríamos tu e eu, sentados no prado a ver os miúdos a correr desenfreados a serem crianças, daquela maneira que só as crianças sabem ser. Seríamos tu e eu a deixar correr a vida num rio sem fim à vista, sem mar onde desaguar por não haver fim numa história criada por ti. Os sonhos, não eram? As recordações futuras que partilhamos deitados no sofá, em silêncio, porque palavras, por vezes, estragam e confundem.

Não tenhas medo, podes olhar para mim. Sou apenas eu com coragem de olhar para ti, aí sentada, sofrida, triste e pensativa. Não tenhas medo, volto a dizer-te. Ainda sou apenas eu. Vês? Sentes? Precisas tocar para acreditar? Pois então toca e tira as tuas dúvidas, mais uma vez. Mesmo no final, sou eu e apenas eu. A olhar para ti, ainda perfeita e tristemente sentada de mãos no colo, a pensar nas coisas que em silêncio prometemos um ao outro.


Posso dizer-te que sou mais que isto, melhor que ontem e pior que hoje. Agora triste aparento eu, com frio e assustado, a sentir que a dor e o fim são reais, afinal. Não me deixes aqui, assim.
Estou a morrer, debaixo da terra onde semeámos tudo aquilo que é nosso. Ainda é. Não me deixes assim, aqui, sem ti. Assumo que a culpa vive comigo e não morre sem que percebas que não a posso partilhar. Não é tua, é minha e sou egoísta com ela.

É a culpa que envolve e não perdoa. Ainda sei que o amor está aqui, e aí, para ser puxado para fora, para sonharmos e recordarmos. A carne e os meus ossos arrepiam-se quando te falo, quando não respondes, porque farta de falar estás tu. Sou eu! Ou será que sou? Consegues ver? No meio das nossas dissertações, confesso que me assaltou a dúvida e não me reconheço. Mas tu podes reconhecer-me, abraçar-me e acordar-me deste pesadelo que é este momento.


Não me ouves, agora. O beijo na testa doi quando dado, é o sinal do final que anunciaste envolvido em lágrimas. E eu agora vejo este final, de mãos atadas, aqui sentado. Ninguém me ouve agora, e ela chega. Tu sabes de quem falo, e não estás aqui para a repreender e afugentar. Estou só. Só estou eu e... eu. O futuro é desconhecido, agora. Agora que não estás tudo é susto e medo. Ainda não regressaste? Regressa. Regressas, por favor?

Só mais esta vez. Não deixes que seja o fim. Passa-me a mão pelo cabelo e abraça-me uma vez mais ao acordar. É um pesadelo, apenas? Prometes?






(silêncio)

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