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terça-feira, 31 de maio de 2016

Dores de crescimento

Sentou-se à minha frente.
Nos lábios trazia uma espécie de amor. Ou alegria. Não sei distinguir muito bem uma coisa da outra, nem preciso. Mostrava ansiedade, também, sem dúvida. Não éramos vistos à mesma mesa de café há meses, anos até. Não parecia. Nada tinha mudado afinal, só talvez as minhas feições de outrora; antes era prazer e euforia, agora saudades misturadas com uma incompreensível pressa do futuro.

Mas tudo isso se alterou num soprar de vento.
Não abri sequer a boca, não fiz mais que suspirar e tudo nela mudou num instante. Perdeu brilho nos olhos, e pediu que nada lhe dissesse. E começou a chorar. Não daquela forma disfarçada em jeito de "tenho algo na vista", mas a chorar realmente. Sem nunca tirar os olhos dos meus, deixou sair aquilo que eu não conseguia deixar sair. Não por ela, apenas por mim. Somente porque eu estava preso, unicamente porque o homem que estava sentado do outro lado não era mais eu. Ela sabia. Meu Deus, sabia tudo...
Sabia que eu me tinha desencontrado algures, que os meus pés se deixavam ir nas brisas da sorte mal fadada, que a minha alma não era o refúgio de antes. Sim, verdade seja dita que a face apenas carregava os contornos de tempos idos, mas os meus olhos, esses não eram os de ontem. Já não eram os meus.

Que te aconteceu, por alma de quem, que se passou aí dentro de ti?
E não consegui falar. Eu não conseguiria falar. Eu não precisava falar.
Balbuciei uma palavra: segura-me...
Foi um segundo que esperei até que ela me abraçasse, me prendesse nela. Foi apenas e somente um segundo que precisei esperar para que os meus braços não conseguissem mover-se, para que sentisse que agora não estava só.

Nela me deixei ficar.
Ela ainda era o furacão de ontem. Eu agora era apenas o final de uma tempestade que começava a querer deixar espreitar o sol...

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