Translate

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Serenata à Chuva

Vi-a a dançar pelo meio da chuva. Dançava, desviava-se das poças e do vento com a leveza que é só dela. 

Esperava-a no restaurante do costume, à hora do costume, com a ansiedade do costume. Abracei-a com a ternura que só a ela lhe dava e sentei-a na cadeira guardada para ela. Senti o perfume dela, fechei os olhos e suspirei que naquele abraço ficássemos durante um pedaço de eternidade. 

Ouvi-a falar, sorrindo, concordando, perdido nela como sempre me perdi, sem trocar mais que uma ou duas palavras a cada pergunta. Era indiferente o que lhe dissesse, nunca foi importante. Saímos à hora do costume, abraçados como de costume, caminhando pelas ruas do costume à procura da paz e sossego que é costume nunca encontrarmos. 

Beijava-lhe o cabelo com saudade. Parecia que não a via há milénios e, no entanto, vi-a com mais frequência que à minha própria mulher que estava tão longe de mim, embora partilhasse, todas as noites, a mesma cama comigo. A ela eu olhava e vivia; com a minha mulher via e deixava-me andar, como uma pena de prisão da qual não pudesse receber amnistia.

Mas a ela, e só a ela, devotei-me e fiz-me santo com pecado e sem medo da penitência que chegaria mais cedo ou mais tarde. Na beleza dos olhos dela pintei quadros, no som da sua voz ouvi melodias que mais ninguém conseguiu ouvir, no corpo dela explorei os sentidos que nem sabia existir, antes dela. Fui feliz sem saber ao certo o que era isso. Apenas soube que o era.

Um dia, como todas as coisas, um fim foi imposto. Uma incapacidade qualquer tomou conta da minha felicidade e fiquei sem as rotinas de costume, sem a beleza que julgava nunca ter, sem a mulher que me mudou para sempre. Mas com ela fui feliz.

Seja lá o que isso for, com ela fui feliz. 
Depois dela, nunca mais o fui.

Sem comentários:

Enviar um comentário