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sexta-feira, 4 de março de 2016

Peça de teatro

Vermelho. Era uma cor que lhe assentava bem na pele tão clara. Só nela poderia um pedaço de tecido dançar daquela maneira quase indecente e, ao mesmo tempo, deliciosa.

Desliguei da conversa que estava a manter com a minha entediante companhia para me deixar levar pelo vestido vermelho dela. Mas mais por ela. Parecia que toda ela tinha sido desenhada para viver na minha memória com apenas aquele vestido... As mãos, o cabelo ondulado e escuro como a noite, e os olhos perfeitos que não conseguiam disfarçar algum desconforto com os olhares que a desejavam como à vida.

É uma atriz de teatro, meu querido, sussurou-me a minha editora ao ouvido. Que se chamava Gabriela e iria atuar uma só noite em Lisboa. Onde? Diz-me onde ela estará que eu estarei lá também.
Levei rosas vermelhas que pedi que encontrassem as suas mãos apenas, no final da peça. "Sublime", escrevi num pedaço de cartão. Não esperei nada vindo dela. Caminhei até à rua, procurando um táxi que me levasse a casa. Tocaram-me levemente no ombro. Que agradecia a amabilidade e o cartão, que queria cumprimentar-me, se não me importava de acompanhar este rapaz até ao camarim onde me iria dizer pessoalmente o quanto apreciava o gesto.

Por momentos tremi e amavelmente recusei. Desculpei-me, que tinha a minha filha em casa à minha espera, mas que podia ficar com o meu contacto, estaria por Lisboa e que adoraria partilhar um café no Terreiro do Paço.

Sem sentido, pensei. Ela vai embora e ficarás apenas com a imagem eterna da dança do vestido na receção aborrecida de ontem, será suficiente para te aquecer a alma. Abracei a minha filha ao chegar a casa, que tinha acordado ao ouvir as minhas chaves e que queria que a confortasse antes de adormecer finalmente. Fiz-lhe todas as vontades, despedi-me da filha da vizinha da frente que tomou conta dela, servi-me um whisky e sentei-me na cozinha a fumar o último cigarro do dia, a ver as luzes que se multiplicavam. E ela ali no meio da noite, talvez confusa pela recusa, talvez enternecida abraçada às rosas. Não sabia, não era preciso saber.

Um telefonema a horas impróprias e uma voz que me pediu uns minutos do meu tempo. Que "sublime" tinha sido uma amabilidade que não merecia. Que agradecia, novamente, o gesto tão gracioso das rosas. Que pedia desculpa pelo seu inglês arranhado. Não diga isso, pedi-lhe, que fosse em que língua fosse a voz dela era uma melodia que só os abençoados podiam ouvir. Riu-se, e informou-me que aceitava o meu convite. Que estaria no hotel à hora que desejasse. Que queria saber como cheira esta cidade e que paladar carrega. Que só teria tempo para mim e para Lisboa.
Agradeci e aceitei a tarefa de lhe dar o melhor de mim e de Lisboa. Um beijo, disse-me ela. Boa noite, respondi-lhe eu, e até amanhã.

Deixei-me adormecer, embalado pelas palavras dela, abraçado a uma emoção que não sabia nomear que me apaziguou a alma até o amanhecer que se avizinhava.

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