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quinta-feira, 10 de março de 2016

Para ele

Perfumou-se antes de sair de casa, como se ele a esperasse. Antes tinha perdido horas a procurar o vestido perfeito, os sapatos ideais. Seria como se fosse ele que a pudesse abraçar e despir no final da noite há tanto tempo sonhada.

Foi até ao local combinado, chegando trinta minutos antes da hora acordada. Gostava de ter o seu tempo antes de cada encontro. Acima de tudo, gostava de sonhar que era ele que iria bater à porta para se deitar com ela na cama daquele quarto de hotel. Sabia que não iria ser assim, mas era como gostava de fazer, era como ela gostava que fosse.

A troca efetuou-se, como sempre, a um preço elevado. O seu tempo era valioso, tal como o prazer da sua companhia, por poucas horas que fosse. Ficava sempre no quarto até ao raiar do novo dia, regressando a casa quando os primeiros raios de sol iluminassem a cidade e apenas os homens que limpam as ruas a vissem.

Depois, a rotina continuava. Era o banho quente, o cuidar da pele, a preparação da roupa para a lavandaria, o abraçar dos seus próprios lençóis, o adormecer a sonhar que tivesse sido ele e não um perfeito desconhecido que a tinha possuido por uma noite apenas.

Acordava sempre da mesma maneira. Com lágrimas de pena e de miséria, muita raiva e saudade. Era assim há anos, e nada iria ser diferente apenas porque ela sofria por amor e ausências. A solidão era a doença sem cura que a dominava e destruia todos os dias, cada dia um bocado. Ele não iria ali estar junto a ela para a consolar, dizer que tudo iria ficar bem e que iria, para sempre, ficar com ela.

Mas nele não havia perdão, não existia o esquecimento dos meses que passaram pelo corpo dela antes de o conhecer. Não havia compreensão, só doença. E nela só desilusão. E amor. Muito amor. Chorou noites demais, humilhou-se vezes demais. Ele não quis saber de promessas, de uma mulher que se ajoelhava e rebaixava apenas para ele. Apenas por ele. Fugiu, partiu para a única vida que conhecia sem nunca conseguir fugir dele. Mas era assim o destino dela, não poder estar, nunca mais, com ele.

Até hoje é assim.

E pela tarde, recomeçava a sonhar. O vestido, os sapatos, a maquilhagem, o perfume. Tudo para ele. Tudo o que ela tivesse para oferecer era para ele, mesmo que ele não quisesse. Mesmo que ele se tivesse esquecido que a queria.

Mesmo assim, tudo era para ele. E ela também seria.

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