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quarta-feira, 9 de março de 2016

O Pai que nunca o será

Tenho um misto de medo e de saudade a morar dentro de mim.

Se por um lado, nunca o quis, por outro sinto uma ausência atroz que não seria suposto habitar aqui.

Podia dizer-te que não te queria, que iria rejeitar-te se aparecesses do nada. Que te iria renegar e fugir da tua vida, como se não fosses parte integrante de mim. Quem sabe, seria expectável que fosse um escroque desses que vira as costas ao que é ser responsável pelas nossas escolhas e atitudes. E o teu avô não me educou como um ser desses.

Agora, aquilo que mais me incomoda e deixa as noites com sabor a tempo parado é o facto de me preocupar com o facto de pensar como serão os dias sem ti. É estranho. Mais confuso, se calhar. A tua avó insiste que tem de ser, o teu avô argumenta que é a Lei da Vida e que faz todo o sentido estares aqui, ao pé de mim e da mulher que te abrigue durante quase um ano.

Será a solidão e a ostracização impostas por mim, a mim, que irão reinar. E eu nunca saberei o que é ouvir "amo-te, pai", "odeio-te!", "nunca me fazes as vontades", "o que faço eu agora que fiquei sem ela?", "ajuda-me"... Nunca o saberei, porque escolhi. Mas tenho saudades de o ouvir. É a confissão maior dos meus dias. Não te vou ter aqui, mas momentos há em que não há mais ninguém em quem pense.

Eu sou o Pai que nunca o será.
Os teus avós sonham contigo e rezam, cada qual à sua maneira, que apareças para lhes conceder a plenitude da alegria que lhes falta viver. Eu tentei, esforcei-me a sério para lhes tirar essa esperança. Expliquei-lhes de todas as formas e mais algumas que não valia a pena viverem agarrados a um sonho que eu não quis, nem quero, vivenciar ou concretizar. Nem a eles, nem a mim, a ninguém. Não quero.

Mas lamento esta minha vontade. Todos os dias o lamento.


                                Todos os dias lamento o facto de ser o Pai que nunca o será.

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