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terça-feira, 22 de março de 2016

Somos

São os braços que se esticam em busca do corpo que conforta.

São os lábios que buscam o paraíso, nem que seja por curtos instantes.

São os corpos que, quando se fundem, deixam de nos pertencer para serem posse do outro.
São as mãos que rezam em cada milímetro de pele que encontram.

São pedaços de felicidade que se procuram na pessoa amada, que não nos importamos de abdicar se o outro for mais feliz que nós, a dado momento. São sacrifícios que o deixam de ser quando são feitos para que outro seja maior. Mesmo que seja maior que nós.

São todos os instantes de prazer e amor que se juntam para nos tornar mais que aquilo que pensamos ser. São ardentes desejos que não queremos guardar para nós, que só fazem sentido se deixarem de ser apenas nossos, para serem de outro ser.

São dores e alívios que ninguém mais percebe senão eu e tu.
É a vida que se escolhe nas pontas dos dedos que te conhecem como a mais ninguém.

É a nossa vida. Só nossa como deve ser sempre.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Para ele

Perfumou-se antes de sair de casa, como se ele a esperasse. Antes tinha perdido horas a procurar o vestido perfeito, os sapatos ideais. Seria como se fosse ele que a pudesse abraçar e despir no final da noite há tanto tempo sonhada.

Foi até ao local combinado, chegando trinta minutos antes da hora acordada. Gostava de ter o seu tempo antes de cada encontro. Acima de tudo, gostava de sonhar que era ele que iria bater à porta para se deitar com ela na cama daquele quarto de hotel. Sabia que não iria ser assim, mas era como gostava de fazer, era como ela gostava que fosse.

A troca efetuou-se, como sempre, a um preço elevado. O seu tempo era valioso, tal como o prazer da sua companhia, por poucas horas que fosse. Ficava sempre no quarto até ao raiar do novo dia, regressando a casa quando os primeiros raios de sol iluminassem a cidade e apenas os homens que limpam as ruas a vissem.

Depois, a rotina continuava. Era o banho quente, o cuidar da pele, a preparação da roupa para a lavandaria, o abraçar dos seus próprios lençóis, o adormecer a sonhar que tivesse sido ele e não um perfeito desconhecido que a tinha possuido por uma noite apenas.

Acordava sempre da mesma maneira. Com lágrimas de pena e de miséria, muita raiva e saudade. Era assim há anos, e nada iria ser diferente apenas porque ela sofria por amor e ausências. A solidão era a doença sem cura que a dominava e destruia todos os dias, cada dia um bocado. Ele não iria ali estar junto a ela para a consolar, dizer que tudo iria ficar bem e que iria, para sempre, ficar com ela.

Mas nele não havia perdão, não existia o esquecimento dos meses que passaram pelo corpo dela antes de o conhecer. Não havia compreensão, só doença. E nela só desilusão. E amor. Muito amor. Chorou noites demais, humilhou-se vezes demais. Ele não quis saber de promessas, de uma mulher que se ajoelhava e rebaixava apenas para ele. Apenas por ele. Fugiu, partiu para a única vida que conhecia sem nunca conseguir fugir dele. Mas era assim o destino dela, não poder estar, nunca mais, com ele.

Até hoje é assim.

E pela tarde, recomeçava a sonhar. O vestido, os sapatos, a maquilhagem, o perfume. Tudo para ele. Tudo o que ela tivesse para oferecer era para ele, mesmo que ele não quisesse. Mesmo que ele se tivesse esquecido que a queria.

Mesmo assim, tudo era para ele. E ela também seria.

quarta-feira, 9 de março de 2016

O Pai que nunca o será

Tenho um misto de medo e de saudade a morar dentro de mim.

Se por um lado, nunca o quis, por outro sinto uma ausência atroz que não seria suposto habitar aqui.

Podia dizer-te que não te queria, que iria rejeitar-te se aparecesses do nada. Que te iria renegar e fugir da tua vida, como se não fosses parte integrante de mim. Quem sabe, seria expectável que fosse um escroque desses que vira as costas ao que é ser responsável pelas nossas escolhas e atitudes. E o teu avô não me educou como um ser desses.

Agora, aquilo que mais me incomoda e deixa as noites com sabor a tempo parado é o facto de me preocupar com o facto de pensar como serão os dias sem ti. É estranho. Mais confuso, se calhar. A tua avó insiste que tem de ser, o teu avô argumenta que é a Lei da Vida e que faz todo o sentido estares aqui, ao pé de mim e da mulher que te abrigue durante quase um ano.

Será a solidão e a ostracização impostas por mim, a mim, que irão reinar. E eu nunca saberei o que é ouvir "amo-te, pai", "odeio-te!", "nunca me fazes as vontades", "o que faço eu agora que fiquei sem ela?", "ajuda-me"... Nunca o saberei, porque escolhi. Mas tenho saudades de o ouvir. É a confissão maior dos meus dias. Não te vou ter aqui, mas momentos há em que não há mais ninguém em quem pense.

Eu sou o Pai que nunca o será.
Os teus avós sonham contigo e rezam, cada qual à sua maneira, que apareças para lhes conceder a plenitude da alegria que lhes falta viver. Eu tentei, esforcei-me a sério para lhes tirar essa esperança. Expliquei-lhes de todas as formas e mais algumas que não valia a pena viverem agarrados a um sonho que eu não quis, nem quero, vivenciar ou concretizar. Nem a eles, nem a mim, a ninguém. Não quero.

Mas lamento esta minha vontade. Todos os dias o lamento.


                                Todos os dias lamento o facto de ser o Pai que nunca o será.

terça-feira, 8 de março de 2016

A Mulher

O ser dos seres... É o ser de todos os seres.

Ou é o sorriso. Talvez a forma de falar ou apenas de olhar. Poderá, quem sabe, ser apenas o riso ou a maneira como se comporta, diferente de tudo e todos os outros. Cada uma tem um qualquer "quê" que nos derrete e aprisiona a ela. Nenhuma é igual à outras, mas todas são igualmente nobres e perfeitas...

São incontáveis os momentos em que me deixo permanecer em silêncio a contemplar cada uma delas.

E contemplar às vezes é tanto e tão pouco. Por vezes ganho coragem para me abeirar delas para lhes confessar o quão belas são, como a imagem daquela frágil perfeição me abraça tantas e tantas vezes... Lamento apenas que não o possa dizer a cada uma delas, todos os dias o quanto as admiro. Todas são tão belas, e cada uma à sua maneira.

Custa-me escrever sobre elas. É um exercício tão doloroso e abençoado, ao mesmo tempo. Dói porque acho que não houve ainda ninguém que sobre elas conseguisse escrever. Nem Neruda ou Vinicius, no auge da sua genialidade souberam fazer-lhes justiça, como poderia eu sonhar sequer com isso?

Mas é uma benção porque posso tentar. Posso tentar dizer que, no final de tudo, são elas, e cada uma de forma única e magnífica, que são a minha razão, inspiração e plenitude.

De longe são o expoente máximo da Criação. São elas e mais ninguém...


A ti, Maravilhosa
A ti, Perfeita
A ti, Frágil
A ti, Poderosa,
A ti, Mulher... Obrigado.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Peça de teatro

Vermelho. Era uma cor que lhe assentava bem na pele tão clara. Só nela poderia um pedaço de tecido dançar daquela maneira quase indecente e, ao mesmo tempo, deliciosa.

Desliguei da conversa que estava a manter com a minha entediante companhia para me deixar levar pelo vestido vermelho dela. Mas mais por ela. Parecia que toda ela tinha sido desenhada para viver na minha memória com apenas aquele vestido... As mãos, o cabelo ondulado e escuro como a noite, e os olhos perfeitos que não conseguiam disfarçar algum desconforto com os olhares que a desejavam como à vida.

É uma atriz de teatro, meu querido, sussurou-me a minha editora ao ouvido. Que se chamava Gabriela e iria atuar uma só noite em Lisboa. Onde? Diz-me onde ela estará que eu estarei lá também.
Levei rosas vermelhas que pedi que encontrassem as suas mãos apenas, no final da peça. "Sublime", escrevi num pedaço de cartão. Não esperei nada vindo dela. Caminhei até à rua, procurando um táxi que me levasse a casa. Tocaram-me levemente no ombro. Que agradecia a amabilidade e o cartão, que queria cumprimentar-me, se não me importava de acompanhar este rapaz até ao camarim onde me iria dizer pessoalmente o quanto apreciava o gesto.

Por momentos tremi e amavelmente recusei. Desculpei-me, que tinha a minha filha em casa à minha espera, mas que podia ficar com o meu contacto, estaria por Lisboa e que adoraria partilhar um café no Terreiro do Paço.

Sem sentido, pensei. Ela vai embora e ficarás apenas com a imagem eterna da dança do vestido na receção aborrecida de ontem, será suficiente para te aquecer a alma. Abracei a minha filha ao chegar a casa, que tinha acordado ao ouvir as minhas chaves e que queria que a confortasse antes de adormecer finalmente. Fiz-lhe todas as vontades, despedi-me da filha da vizinha da frente que tomou conta dela, servi-me um whisky e sentei-me na cozinha a fumar o último cigarro do dia, a ver as luzes que se multiplicavam. E ela ali no meio da noite, talvez confusa pela recusa, talvez enternecida abraçada às rosas. Não sabia, não era preciso saber.

Um telefonema a horas impróprias e uma voz que me pediu uns minutos do meu tempo. Que "sublime" tinha sido uma amabilidade que não merecia. Que agradecia, novamente, o gesto tão gracioso das rosas. Que pedia desculpa pelo seu inglês arranhado. Não diga isso, pedi-lhe, que fosse em que língua fosse a voz dela era uma melodia que só os abençoados podiam ouvir. Riu-se, e informou-me que aceitava o meu convite. Que estaria no hotel à hora que desejasse. Que queria saber como cheira esta cidade e que paladar carrega. Que só teria tempo para mim e para Lisboa.
Agradeci e aceitei a tarefa de lhe dar o melhor de mim e de Lisboa. Um beijo, disse-me ela. Boa noite, respondi-lhe eu, e até amanhã.

Deixei-me adormecer, embalado pelas palavras dela, abraçado a uma emoção que não sabia nomear que me apaziguou a alma até o amanhecer que se avizinhava.