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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Mãos

São as tuas mãos.

São as tuas mãos que me acariciam, não a pele, mas a minha alma despida. Porque, connosco, a distância é a soberana e esta saudade a capa que me envolve o amor. E as tuas mãos que me tocam e despertam são a lembrança que existes, meu amor. Não te conheces a amar-me, porque nunca te apresentei a essa esperança. Que é vã. Que é oca.

Mas é minha para te sussurrar no silêncio da noite quando descansas de viver.

São elas que me protegem dos medos que sobrevivem, incólumes, nos meus sonhos assustados, quando me seguras e trazes de regresso ao plano dos vivos. A este plano que existe para nos atormentar.

São as tuas mãos, que nunca abracei nas minhas, que me acalmam da vida que se mexe em paralelo com a tua.
Vibrante e singular como tu.

São elas, que unidas com os teus braços, anseio por sentir no meu corpo daquela forma que só os amantes sabem sentir. Como os amantes que, suspeito, nunca seremos a não ser nas minhas noites solitárias em que te chamo.

São perfeitamente inesquecíveis as tuas mãos. Ou então sou eu que só sei fantasiar com impossíveis que não te assistem.
Indiferente a tais infortúnios deixo-me permanecer na tua lembrança esquecida dos dias que são pedaços de luz na minha escuridão escondida.

A pensar num toque que não conheço.
A sofrer por um abraço que não chega.
A chamar um nome que não se ouve.
A pedir um amor que não se sustenta senão nos loucos devaneios deste que te deseja...

São as tuas mãos, meu amor, que são a senha para descodificares a minha tormenta. Aquela que se chama Tu. As tuas mãos, meu amor.
Que não se abraçam nas minhas, que não se amam como eu te amo a ti, meu amor. Nunca as tuas mãos.

Nunca, meu amor.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Passos (ou Teoria Geral do Abandono)

Eras tu.
Tinhas sido apenas tu.
Ter-me-ias sido suficiente. Se apenas tivesses caminhado pelos destroços caídos à minha volta, se apenas tivesses querido querer atravessar por entre os pedaços de memórias e cerimónias que te deixei ver.

Passo a passo.
Que andasses um passo de cada vez pelo meio de tudo aquilo que fui eu. Mesmo que agora não o seja. Chamei-te e tu ouviste. Sabias o que eu te queria dizer, no segredo das tuas quatro paredes, mas preferiste não escutar.

Passou o tempo.
Findou a minha carência. Esgotou-se-me o desejo.
E está bem assim, digo-te eu.

Não penses agora tocar-me. Nem te deixes sucumbir à tentação de me chamar, de esticares o braço em busca de mim, porque eu não estou mais. Sou eu agora que não te quero bastar nem caminhar em direcção a ti. Basta-te a ti mesma, agora.

Eu não me sei preencher, ainda. Mas sei que de ti não quero auxílio ou entendimento.

Shh... Silencio-me para ouvir algo que me soa a ti...
É o som dos teus passos que escuto ao longe? É a tua mão que me bate à porta da memória esgotada? É a tua voz que me chama do outro lado?
É.

Apago as luzes,
                         para me fingir ausente desta casa,
                                                                               deste mundo.

De ti. Ausente de um "nós" que existiu tarde demais na tua imaginação e cedo demais na minha.
Sento-me, esperando que desistas. Que te canses de me chamar. De mim apenas te posso oferecer silêncios e rancores que o tempo há-de levar para longe. Sou eu que espero, agora, que o cansaço te acompanhe para longe da minha porta que não se abrirá nunca mais.

Passo a passo, tempo a tempo. Terminou o que nunca foi nem será jamais.
E está bem assim, digo-te eu.







quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Não quero pestanejar

Estou aqui. 
A olhar-te dançar em rodopio, pela vida fora, com a infinidade a segurar-te na mão.
Aqui estou a deliciar-me com o teu riso que se mistura com o barulho de fundo de uma cidade cheia de outras vozes que não as nossas. Sem que me reconheças a presença. A saberes que todos te querem, mas apenas um te sabe desejar. 

Estou aqui, ainda. 
A perder-me em vergonhas de me aproximar. 
A deixar-te viver como eu gostaria de saber viver, também. 
A admirar-te de longe. Sem pestanejar, com medo de perder alguma pitada da tua luz. Com receio de perder um momento, O momento. Aquele instante que pode tornar-me um homem melhor. E eu não quero perder esse momento, esse instante de perfeição que apenas o teu olhar me saberá dar.
 
Estou aqui, ainda aqui, a pedir-te silenciosamente que me leves contigo a viajar pelos dias preenchidos, os mesmos que deixas para herança dos outros mortais que te glorificam. Os mesmos que te invejam e não percebem. Os mesmos para os quais sorris, desarmando-os de qualquer tentativa de descarrilamento ao teu rodopio.
 
Levas-me contigo?
Se quiseres, lembra-te de mim e de onde estou. Que estou aqui.
 
Por mim, estou aqui. Aqui ao longe. A olhar-te em rodopio, deliciando-me, a perder-me de vergonhas. Fico-me por aqui, então, em silencioso suplício, para que me leves a voar contigo. 
Para que não perca o momento.
 
Aquele momento em que seja, por fim, aquilo que tu já és sem esforço. Perfeita.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Corpo e Alma

Adoro passear por entre os cantos que te fazem ser o que és.
Coração e sangue de uma cidade que te acolhe, e que sem ti não respira. 
Porque és alma daqui, e já o debatemos sem reservas vez após vez.
Simplesmente porque tu és daqueles assuntos que nunca cansa nem enfada. És daquele tipo de gente que se entranha nas entranhas da gente e não mais nos abandona...

E hoje...
Bem, hoje eu decidi que iria ter sede de ti.
Tomei a liberdade de te querer, egoísta e fervorosamente como se fosses a única salvação possível desta civilização que de civilizado já nada tem.

Decidi, hoje, que te ia ter saudades.
Que não ia conseguir que o dia passasse sem te querer ouvir rir. Sem que fosse a tua imagem a última coisa que visse antes de me deixar adormecer numa cama orfã de ti.

Decidi que hoje te daria as minhas horas e desassossego, para que com eles fizesses o que te aprouvesse.
Que neste dia, escolhido ao acaso, a minha respiração ganhasse um propósito com o teu nome. Porque sempre foste o mais abençoado dos acasos. Porque se tivesse pedido a Alguém que chegasses, não haveria o mesmo encanto ou assombro.

Sou intruso aqui.
Ladrão do teu oxigénio que encontra recobro à beira de uma margem de água que não sabe estar quieta.
Sou um ser ausente de todo um mundo que não quero saber que existe, porque no resto do mundo não existes, senão aqui.
Hoje decidi que te ia sentir a falta. Só mais uma vez. Prometo que não será a última. Hoje escolhi deixar de viver sem o auxílio de te imaginar. 

Se deixares, hoje respiro-te. Só mais esta vez. E prometo que não será a última.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Gosto disto aqui

Eu gosto disto aqui.
Este estranho aqui onde me deixei ficar.

Tudo isto é estranhamente familiar, confesso. Esta minha varanda que dá para a podridão dos dias, vividos pela gente que se transfigura para existir, também dá para o horizonte que anoitece.
Adiante, lá bem adiante, observo o sol que se deixa cair, apagando-se misturado com as nuvens de um tempo que arrefece de dia para dia.
Nestes tempos a luz natural é um bem precioso que se desvanece cada vez mais cedo.

O cinzeiro está cheio de beatas de cigarros. São os restos mortais dos meus pensamentos que ali jazem apagados. Como os meus pensamentos. Como a minha consciência. Sento-me fumando, como sempre, enquanto te escrevo estes meus dias cansados. Este exercício de observar o mundo dar as suas voltas cansa-me. Porque vou rodando com ele, apalpando o meu lugar e o meu propósito. Ainda não descobri nem um nem outro e, por isso, não me consigo sentir parte dele. No entanto, gosto disto aqui.

Escapo-me de quando em vez para esticar as minhas pernas já cansadas. À procura de histórias que queiram ser contadas, palmilhando cantos que me esqueci que visitei em tempos, encontrando pessoas que de mim não guardam qualquer memória. E ainda bem. Porque ser uma memória é ser um peso na alma de alguém.

Sentado na porta de um café escondido, na travessa mais junto da rua onde vivo, está um ser já idoso e esquecido de tempos solarengos. Com uma boina gasta pelos meses, a tapar uma cabeça parca de cabelo, e um casaco que já conheceu melhores dias, respira com a lentidão das horas que não passam. Um sacrifício, grita ao ver-me. Acredito que sim. Para mim também não é menos, respondo-lhe.
Acena com a mão, em jeito de "vai embora", e eu faço-lhe a vontade.

Regresso sem histórias novas para te contar. Como ontem. Como nos dias antes desse.
A minha vida já é uma história. Antiga e cansada.
A minha vida é uma memória, apenas. E é uma memória que pesa na alma de alguém.
Na minha.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Caos e fraquezas

Sentei-me no cais, mirando o rio que se movimentava abruptamente.
Soprava um vento constrangedor que empurrava as gentes para longe daquele lugar. Apesar dos elementos, o sol conseguia mostrar-se de maneira intensa.
Os meus óculos escuros reflectiam aquela luz banhada de vento conferindo equilíbrio ao mundo que passava à minha volta.

Acendi um cigarro inútil e deixei-me ficar sentado. Deixei a minha cabeça apoiar-se na minha mão livre e deixei os meus dedos afagar o meu cabelo.



Pensativo. A contemplar o rio, o movimento do ar, a minha presença aqui, fumei a meias com o vento.
Cansado. A reviver horas e dias em permanente loop. A querer desligar-me mas a não permitir-me desligar da corrente de fadiga que me fazia procurar a turbulência do inverno, ao invés do repouso da minha casa.
Confuso. Tudo tinha sido demasiado rápido, mas também premeditado. Palavras foram ditas e enviadas a quem quisesse ler.

O mundo rodopiava indiferente ao que se movia dentro de mim, tudo conforme delineado. Este mundo não pertence a quem duvida, a quem quer deter-se a pensar. O tempo evapora-se sem fazer perguntas e sem repetições. E os corpos não sabem existir assim. Nem as mentes. E muito menos as almas.
São voltas demais para entidades tão fracas como nós.
Mas hoje sinto que ninguém é mais fraco que eu.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Decadência do ser

Miseravelmente adormecida. É assim que te vejo. A ti, cidade.
Perco a conta aos teus edifícios que furam os céus sempre cinzentos que te cobrem. Estás podre, como as pessoas que te percorrem com pressa de morrer.

Vejo-te morrer um pouco a cada dia que te atravessa. E esta gente que morre um bocado contigo de cada vez que acorda para te esventrar com os seus passos e preocupações.
Caminho em direcção a casa, carregando sacos com vinho e comida pré-fabricada. Não tenho tempo para pensar em culinária, hoje. Nem nunca. 
Passa por mim uma alma indefesa à morte que a rodeia. Segura pela mão de uma mulher quebrada e ausente deste plano, seguramente uma das tuas vítimas. Desvio o olhar. Farto de morte estou eu, até da minha que insiste em adiar a sua visita.

Ouço o meu telefone tocar quando encosto a chave à porta, mas não corro para atender. Não me custa adivinhar quem está a chamar-me. Como nos outros dias é ela que me chama. Melhor não lhe dedicar mais atenção. Nem às suas lágrimas ou súplicas e perguntas com resposta pré-desenhada. Continua a tocar enquanto deixo os sacos na mesa da cozinha e acendo um cigarro que aguardei com impaciência desde que vi aquela alma inocente.

Cala-se o telefone, finalmente. Tiro as dúvidas e confirmo que era ela. Sempre ela. E sempre o mesmo desprezo que lhe ofereço. A todas as horas, a todos os momentos.
Vejo a noite chegar pela janela da sala, sentado na beira do móvel. Uma janela grande, demais até, sem cortinados que bloqueie a minha vista para o mundo a desfazer-se à minha frente. A cidade que faz companhia ao mundo a decair. Fumo apressado. Acendo outro em seguida, e continuo a vê-las. Juntas e sem relação. A ela e à cidade. Ambas decaem à velocidade da respiração de cada uma.

Prefiro não a ver, não a ouvir, não entender. Largamos tudo, disse-me ela. O mundo não nos merece, vamos esconder-nos dele, dizia ela. Eu cuido de ti e basta, disse-me ela. E talvez tivesse razão. Não quero descobrir.
Observo a decadência incessante da vida como me ensinaram que era. Das pessoas que abraçaram esta existência vazia, debaixo de um céu pintado de cinzas e julgamentos. Aqui só vive a morte a chegar.

Aqui só existo eu que espero a visita do anjo, uma última vez. Eu e a minha cidade. Apenas nós que esperamos a morte que não se cansa de se atrasar.

Eu e ela. A cidade que se deixa morrer. Exactamente como eu.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Tem cuidado



Espero que nunca te apaixones por mim. Espero que tenhas no teu juízo todo o discernimento do mundo. Que percebas que estou danificado, que não tenho nada de gente dentro de mim. Que entendas que eu não sou a tua salvação nem a tua esperança. Espero que sim.

Espero que nunca te apaixones por mim.
Tenho fé que entendas que eu não sou uma pessoa, sou um ser. Falhas abundam em mim aos milhares. E não, nem todos nós somos um mar de imperfeições. Eu sou a personificação da imperfeição, e não me esforço para ser diferente. Espero que percebas que nunca irei mudar quem sou, como respiro, como caminho em direcção ao fim dos meus dias. Espero que sim.

Espero que nunca te apaixones por mim.
Quero pensar que sabes que a cadeira que aqui está , livre do meu lado, não tem razão de ser. Não quero que se sentem junto a mim, me perguntem o que for nem partilhem aquele cigarro que guardam para uma ocasião destas. Este espaço que existe é para permanecer um espaço, um elemento decorativo na imensidão da tortura e solidão que é a minha existência. Espero que saibas que estou sozinho, por mim, e sem fé no amanhã. Espero que sim.

Espero que nunca te apaixones por mim.
Desejo que nunca te encantes com o meu sorriso, o meu toque na tua face, a minha vida de sorver os dias como se terminassem hoje. Passei toda uma vida a praticar esta arte do "que se lixe" e agora não conheço outra forma de aqui passar o meu tempo. Que nunca te deixes levar por esta minha displicência com os sentires. Espero que saibas que a minha estrada não se cruzará com ninguém, com mais ninguém. Espero que sim.

Espero que nunca te apaixones por mim.
Só quero que nunca te apaixones por mim.
Por favor, nunca te apaixones por mim.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Árvores

As minhas Árvores caem à minha volta. É o tempo que as faz cair ou sou eu o lenhador que as corta, deixando uma raiz agarrada à terra a qual, um dia, o tempo se encarregará de destinar.

Olho esta clareira que se forma ao meu redor, tornando-se maior a cada lua que se cruza com o meu próprio tempo.
Passa-me pelo meu olhar a história de cada uma das Árvores que caíram nestes mais de trinta invernos enquanto percorro esta minha floresta caída. 
Passo a minha mão por cada tronco, cada ramo caído, vejo o que ficou esmagado debaixo dos troncos sem que lhe reconheça semelhança com alguma memória.
São muitas Árvores. São muitos invernos.

Por vezes parecem ser já demasiados, ao ponto de me esquecer que a seguir vem sempre um Verão. Mas hoje não me lembro do Verão. Hoje só me envolve o Inverno. Igual a tantos outros que conheci e atravessei com relativo sucesso.

Arrefece o ar nestas paragens. A nuvem de vapor que se escapa por entre os meus lábios lembra que um novo Inverno chegou. Que um novo nível de inferno se galgou.
Cada Inverno mais parece um Inferno, realmente.

A nossa floresta pessoal cresce a cada ano que passa por nós.
A cada encontro e experiência. 
Ano após ano. Vivência após vivência.

Mas um dia começa a desaparecer. Por nós ou por outros que a deixam.
A cada queda. 
A cada corte. A cada Inverno misturado com Inferno. 
E desaparece. Lenta e serenamente a clareira aumenta. 

Rolam lágrimas, decidem-se destinos, caem árvores em sequência ao lado das que começam a crescer. 
Para mim, e apenas para mim, as quedas são sempre mais significativas que os nascimentos. Marcam mais. Corroem mais. Mas ensinam mais. 
São capítulos que se esgotam. E assim é que deve ser. Sempre

Recentemente tombou mais uma das minhas Árvores. 
Pela raiz, nada mais. 
Recentemente a clareira ficou tão maior, e percebi - novamente - que nada irá impedir que assim seja, daqui em diante.
Até que o Inverno seja a única realidade que conheça. 

Até que o Inverno seja a única coisa que reste.
Até que seja eu apenas aquilo que resta. 
E só restarei eu, sozinho, de pé nesta clareira onde as árvores tombam à velocidade do tempo e do inferno que o consome.


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Despedidas

Foi uma crueldade. Só isso.

Foram poucas e sonoras as palavras ditas. Foram duras e cortantes como se exigia. Mas foram ditas no momento em que nada mais havia a debater. 
O arrasto, a dor, a insuficiência multiplicada por quadrantes que só nós podemos perceber... tudo se acumulou, semana após semana, ano após ano, até que um dia nada mais permaneceu que pudesse ser salvo. 

Falaste, no teu jeito calmo, embora sofrido, sofrendo genuinamente por te ter obrigado a um murro na mesa demasiado sonoro para que eu não o ouvisse. E eu ouvi. Em silêncio deixei-me ficar a escutar sem responder nem reagir. Não era preciso nem desejado. Bastava que ouvisse, aceitasse e prosseguisse. Pareceu-me correto. 

Quando a porta bateu atrás de ti que saías, o vazio entrou para ocupar a vaga agora criada. Foi uma crueldade, mas não tua. Nunca seria. Foi minha, no fim de contas. Esta coisa das assunções de culpas tem destas particularidades. É sempre o repetido pedido de desculpas, as promessas que se esbatem no tempo, a repetição da repetição que se repetiu após outra qualquer repetição. E isso é cruel e deixa marcas profundas que o tempo nem sempre tem tempo de curar. 

Partiste. Eu fiquei. Não à espera de ti, não à espera de mim. Apenas fiquei a sorver as palavras e choros que provoquei. 

Sim, estarás longe. Eu longe permanecerei. 
Porque tem de ser, porque é o mais certo, porque era o inevitável. Que os nossos caminhos se mantenham direitos, cada um à sua maneira com os destinos escolhidos por força ou por desejo. Mas que sejam escorreitos e de bom-porto. 

Foi uma crueldade. Apenas e somente isso. Seja lá o que for que nos aguarde no horizonte longínquo, que nos deixe viver. 
De formas diversas. Mas que nos deixe viver...

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Uma cidade chamada tu

Esta cidade tem uma noite criada apenas para ti. É uma noite única. A que a cidade te dá todos os dias, mas também esta que me preparo para viver contigo. 

A cada recanto ou suspiro que solto sinto que não estou no meu lugar, mas no teu. E não é fácil. 

Respirar um ar que não me pertence não é, de todo, confortável. 
E tu sabes o quão estranho me sinto aqui. Tento esquecer que não estou na minha zona de conforto e parto novamente na tua direcção. 

A vida que corre à frente dos meus olhos não me deixa inquieto, quase me habituo a tanta gente e movimento. Olho para o telefone em busca do sítio que me pediste para encontrar, e noto que estou muito perto. Noto o que se passa à minha volta, para perceber porque chamam a este sítio "uma mistura de gentes". São pedintes, artistas de rua, estudantes que não sabem ainda viver, adultos que não souberam crescer. Toda uma mescla que não te afecta, mas a mim me surpreende.

Subo a rua à minha esquerda e identifico o local marcado. Ao entrar estás apenas tu. Mais ninguém. Canta-se a canção sofrida vinda da alma de uma mulher cansada mas feliz por se saber a cantar as dores da gente. Ninguém mais ali. Agora estou eu contigo sem saber que palavras dizer, que passado partilhar contigo.

Sorris sempre, com a saudade dos tempos idos a chegarem ao teu olhar. Mas não te descais, nem eu. A tua voz permanece a mesma, o teu riso igual. As novidades circunstanciais deixam de ter importância com o prolongar do tempo que passa sem que nos consigamos dar conta. As horas rodeiam-nos pelo receio que se esgotem e nos deixem ao abandono. Lá fora o ruído faz-se notar mas entre nós nunca a comunicação foi mais límpida.

Vamos sair daqui, vem comigo, convidas-me. Anda ver a cidade que sabe ser minha, e eu vou. As calçadas emanam alegria, agora, e as gentes são outras. São luzes e sons mesclados com sentidos estes que me mostras. Rimos, falamos. Por vezes sem usar a palavra, outras para reforçar o que apenas o silêncio sabe dizer.

As horas vagueiam e nós vagueamos com ela. Seguras-me a mão, como se a proteger-me, como a pedir-me que aceite também estas ruas como minhas. O sol surge à nossa frente e o cansaço nota-se. 
Mas só o físico.

De nós não é possível cansar.
Eu de ti, certamente que não. E, depois de hoje, desta cidade também não.



quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O Escritor

Roubaste-me a vida. Ficaste com ela. Agora leva-la contigo para onde vás. 

Deixei-te tirar, pedaço a pedaço, a minha essência. O meu espírito também. Os meus pensamentos, os meus sentires que tinha recolhido nestes anos de existência que aqui continuo a palmilhar. Foste roubando e eu fui sorrindo, sem consciência do que estava a acontecer. E foste guardando, em ti, todos estes pedaços que me fizeram ser quem fui. 
E agora nada restou a não ser um recomeço forçado de re-descoberta insana do ser que agora se te declara desaparecido.

E o pior não foi teres partido para parte incerta. Foi teres continuado a roubar-me de mim, do mundo depois de teres decidido que te querias longe daqui. Seja lá onde daqui seja. E eu fui permitindo, mesmo depois da despedida.

Olho-me em frente a um espelho do tamanho de mim e procuro aquele traço que era eu. Leves lembranças se acomodam nos meus olhos e quase começo a conseguir recuperar um ou outro bocado de alma que julguei perdido. E outros há que nem sabia serem meus, mas que recebo para me restabelecer deste assalto de que te acuso. 

Sinto dores aqui. Dói porque me faltam coisas. Suspiro a cada respiração por mim. Por ti. Porque agora és tu que carregas. Até as minhas antigas dores me levaste. E eu sinto falta delas. Sem elas não me sei escrever, não sei escrever-te. Não sei viver-me, não sei viver-te. 

Quero viver. Não assim, perdido de mim, mas novamente como me apanhaste. Como me deixaste.
Se porventura regressares a este plano dos mortais, traz-me contigo. Preciso que me faças isso. Traz-me contigo, deixa-me aqui novamente. 


Porque sem isso não sei escrever-me. Não te sei escrever.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Indeciso

Através do vidro da janela do carro vi como a chuva caía impiedosamente. Choveu sem parar durante mais de uma hora. Foi como o desabafo que nunca consegui exteriorizar. Alguém chorou por mim, pensei. 

Mas depois lembrei-me que não há ninguém que me queira as dores ou os desabafos. Muito menos as lágrimas ou a vontade de chorar. O mundo e os céus sabem governar-se muito bem. Só eu não aprendo a fazer o mesmo. 
Heranças, penso eu. 

Quando regressei à minha casa começou a chover novamente. Tive sorte, pensei. Peguei num livro para me entreter até que o sol nascesse, mas nem me lembro qual nem o que li. Porque não me interessou, nem interessa. Nada me interessa ou me faz reagir. 

E eu que continuo sem chorar. Nem em desabafo nem em regozijo. 

Desisti de tentar ler. Preferi acompanhar-me do meu cigarro e de uma garrafa. São companheiros fiáveis porque não falam. Deixam-se usar a meu bel prazer, eu prefiro assim. Não são como as pessoas. 

Essas falam. Por vezes até demais e sem regras. Não se usam. Usam-me e isso não me se faz. Cansei-me das pessoas na mesma proporção que não me cansarei jamais do cigarro ou da garrafa. Esses ouvem-me em silêncio deixando-se consumir por mim, embora se consumam pelas minhas dores. E isso é o melhor contrato que alguma vez tive.

Mas continuo sem chorar. Muito menos desabafar ou regozijar-me.

Fumo compulsivamente. Bebo muito mais. Até que consiga adormecer e esquecer. Não sei o quê mas preciso esquecer-me. 

Esquecer que estou vivo? Que tenho alma ? Indeciso. Em ambas. Adormeço. Durante três horas. Mais que ontem. A primeira boa notícia do dia. A melhor dos últimos meses. A garrafa caiu no chão sem tampa. Metade do que restava dentro dela desapareceu ensopado no tapete da sala. O cigarro ficou no cinzeiro e apagou-se durante o meu sono. Tivesse caído no chão e eu não teria acordado. Será a segunda boa notícia do dia? Indeciso. 

E eu que continuo sem chorar.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Teratoma

Absorveste-me sem que disso desses conta. Como invejosos gémeos. Com a voracidade que só tu sabes personificar, roubaste-me à vida. Simples.
E eu quis.

Pus-me a jeito, é verdade. Coloquei-me à tua disposição de forma inconsciente, mas vezes houve em que me ofereci para teu gáudio, como se de um sacrifício me tratasse.

E pior: sabia perfeitamente que o estava a fazer.


E tu, sem pestanejar ou hesitar por um segundo, agarraste-me, sorriste-me, envolveste-me com o abraço do desejo disfarçado de amor.
E eu quis.



E quero.
                                                                                                                       Que me toques e abençoes.

Que me digas aquilo que eu quero ouvir, com o som da tua voz.
                                                              

                                                                 Que me leves pelos caminhos que não sei conhecer sozinho.




Não sei dizer-te quandos ou porquês. Porque não me interessa.

Apenas sei que não quero ser de mim mesmo, que não quero mais pertecer-me.
Quero sentir o ar dos teus pulmões nos meus, quero que o meu coração se sinta no teu peito e saiba que, no fundo, é o teu coração que me faz viver. Peço apenas que me permitas viver dentro de ti, e não apenas sobreviver.

Mas se for pedir muito, então solta-me ao mundo, novamente. Não me permitas morrer dentro de ti. Ou pior: ir morrendo aos poucos enquanto te veja viver. Porque do abandono estou cansado e de ti não o consigo suportar.

Absorve-me sim. Sem nada que mais importe. Não esperes mais. Eu deixo.
E leva-me contigo até que os ventos se cansem de viajar e os dias se cansem de nascer.
Leva-me. Eu deixo.










 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Pétalas

Restei eu. Bem, não apenas eu. Os meus receios e mazelas ficaram a fazer-me companhia.
Pobres acompanhantes, certamente concordarás.

Mas é o que permanece, agora. Continuo aqui, cambaleando mas ainda de pé. Assim, tal como me vês, serpenteando pelas calçadas encostando-me a paredes em busca do meu fôlego, já parco em forças.

Os meus receios e mazelas, como tatuagens que qualquer gente pode ver, servindo de aviso às almas que se abeiram de mim em busca de não sei bem o quê.
Não as entendo, procuro não gastar muito do meu tempo com elas. São passagens de uma história que escrevo com a leveza das pétalas que caem das flores secas pelo outono que se aproxima do calendário.

Um dia, a seguir outro. Mais uma volta à boleia das rotinas, essas desgastadas defesas que criamos para nos mentirmos dizendo que, afinal, nada mudou. Os hábitos que giram à volta das horas marcadas no relógio dos dias e das noites que são iguais a ontem e amanhã.

A minha vida, existência ou como lhe queiras chamar tem cores novas. Mais escuras, talvez, com pinceladas de luz que me fazem companhia nas noites em que a solidão não se me queira emparceirar.
São apenas corpos. As tais almas às quais não preciso saber o nome ou o propósito nesta correnteza vivida. São apenas pedaços de prazer que me oferecem, sabendo que de mim não terão mais nada senão mentiras e suor. Não as preciso, não as aprendo a respirar, não me servem para nada. Apaziguam ligeiras tormentas e pouco mais. Deixo essas entidades repousar na minha cama, onde se deixam cair como as pétalas das flores secas. São as minhas pétalas. Minhas. Que morrem embrulhadas em inocência de fugazes encontros com o desconhecido. Que se apaixonam por olhares e frases feitas, num jogo enleado e regrado que todos conhecem bem demais.

Pétalas secas por ventos e outonos. Só.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Guerra

Pensei que me fosse possível viver depois da nossa guerra.
Mas não sobrevivi.
Não eu. Não como tu.

Tu sabes como escapar incólume às mazelas e agressões. Às investidas da tua própria vontade de te declarar vencedora, quando afinal perdeste tanto quanto eu.
A diferença foi que eu me deixei permanecer a olhar os campos de batalha que partilhamos inutilmente. Tu abandonaste tudo nos rios da memória onde ainda insisto em banhar-me com a saudade típica do guerreiro derrotado.

Imerso em visões de plena luxúria do teu amor, deixo que esta corrente me leve assim. Ferido, combalido, tão diferente de ti que não perdes o teu tempo em águas de lembranças em pleno movimento sobre si mesmas, até à inevitável estagnação dos sentidos.

Mas tu já não sentes. Tu não sabes o que é desejar que o tempo pare de se mover, com a insistência e teimosia da ausência saudosa que só eu sei sentir e colocar aqui para que me saibas. Como se te preocupasses em saber-me, sentir-me ou acalmar-me.

Daqui não guardas a emoção ou memória.
Abandonaste esta nossa guerra.
Abandonaste-me.

Que seja.
Que seja então eu aquele que sara as feridas na solidão escura que resta.


A guerra terminou. Por fim.
Mas eu não sobrevivi. Pelo menos não como tu.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Eu não tenho quereres

Não quero que fiques aqui.
Aqui não é o teu lugar. No puzzle que construí tu és uma peça que não encaixa mais. Nunca encaixaste, se eu quiser ser honesto. Hoje quero sê-lo. Porque hoje despeço-me da nossa utopia que tão bem me serviu, que me aconchegou as noites de inquietude e os dias em que te sonhei de olhos abertos.

Não te posso manter viva.
Para que a minha mente não se ofusque com o brilho que deste ao meu coração, este meu recanto demasiado obscuro para perceber de despedidas ou de carinhos.

Quiseste dar-me pequenos nadas que para mim eram mais que tudos.

Quiseste ser-me doçura e crença num despertar da inocência perdida, mais que uma vez, nas mentiras que me contei sobre ti, que tu nunca confirmaste a não ser em pedaços da minha louca imaginação.
Quiseste fazer-te presente, com a honestidade que só as almas puras apregoam, segurar-me as mãos durante  os pesadelos que atormentam e nos fazem acordar lavados em dor e angústia.
Quiseste que te suspirasse como se olhasse uma peça de arte rara que nunca mais poderia vislumbrar durante esta vida, para te recordar como a louca odisseia que nunca poderia perseguir.
Quiseste tudo. Eu quis-te apenas a ti. Mas eu não tenho mais quereres que permaneçam vivos em mim. Ou em ti.

Foram estes os quereres vazios que nesta minha existência fica orfã do que nunca pudemos partilhar, mas que apenas eu soube verdadeiramente sentir.

E por fim, caio. Caímos.

Cai o sonho, disfarçado de amor raivoso ou paixão vazia de sustento.
Caio eu, abraçado à tua memória que desvanece nos meus abraços vazios enquanto me sinto descer ao purgatório, caído numa ravina de auto-comiseração que antes tinha esquecido existir.
Cai o desejo, a necessidade, a vontade, o sexo.

Caem todos juntos sem que os veja, como caem os sonhos que não são mais que pecados e fantasias. A triste herança que me resta, tal como prometido no primeiro momento em que me deixei encantar por uma luz que nunca foi minha para receber.






sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Necessidades

Tenho dúvidas. 
Sinto-te a falta, mas tenho dúvidas. Se vale a pena esta maçada de me impor a ti, pedindo que me sacies esta minha saudade da tua presença. Preciso-te, perdoa-me por te suspirar.

Duvido. Não acho que mereças que te chame, não por mim, mas por ti que me és querida e sonho erótico que recuso confessar. Não precisas que te atrapalhe com as minhas existencialidades absurdas. Não mereces. Mas preciso-te. 

Soa-me a deslealdade que te peça que te aproximes de mim, quando estou assim. Sôfrego, carente, teimoso, dedicado. Mas preciso-te.

Estupidifiquei o meu respirar, porque estupidifiquei a alma que agora se desfaz em palavras vãs.

Tenho dúvidas que mereças que te precise assim. Mas preciso-te amargamente, meu amor...
Só hoje. Não peço mais, mas que hoje me deixes precisar-te. Só hoje.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Sal




Cheira a sal. Na tua pele.
Estendeste o corpo à minha frente para que o sol o beije completamente. 

Os pingos deixam-se cair pelas tuas pernas e pelas tuas costas, já bronzeadas, e eu invejo-as porque te tocam. Confesso. Apeteces-me neste momento. Mas não podemos, há gente. Mantenho no silêncio este meu desejo permanente, tentando desviar o meu pensamento do teu corpo.
O mar mantém o seu perfume em ti, tentando-me com mais força. 
Fico-me pelo beijo suave no teu ombro, declarando o meu amor por ti. Só por ti. 
Não sopra senão uma aragem, leve como tu, que me traz esse odor salgado, e me chama a atenção em permanência. Sei que estou inebriado por tudo aquilo que te faz ser mulher, deitada ao meu lado, com esse perfume de mar. 

O meu beijo faz virar a tua face na minha direcção. A luz não te deixa manter os olhos abertos mas não desfaz o sorriso dos teus lábios, respondendo-me a este mimo sem barreiras que posso deixar fluir. 
Abraças as minhas costas com o teu braço, já colorido com os tons do Verão, para que me beijes a face. Sussurras baixinho "eu também", antes de retribuíres o carinho no meu braço, com a delicadeza do teu beijo. Tudo está normal, penso. 

O meu mundo está a girar no sentido desejado, porque estás aqui. 
Porque estou aqui. Contigo. Como deve ser.

Tudo faz sentido. 
Porque é a tua pele que perfuma os meus dias.
Porque é o teu sussurrar que me ama.
Porque é o teu beijo que me expia de todo o pecado.

Porque tudo faz sentido, quando posso viver o meu amor ao teu lado. E não preciso de mais nada.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Impossível

Não te posso tocar. 

E é injusto. Imperfeito. Obsceno. Mas não te posso tocar.
Não existe saída nem alívio, não te posso tocar. Apenas te posso querer. 

E não chega. Nunca chega.

Anseio, numa sofreguidão exasperada, que um dia estas barreiras que nos manietam desapareçam. Que tudo o que está a mais se dilua em meros nadas, e que finalmente te toque e inspire.

Isto não é viver. É apenas aguentar todo e cada dia como se fosse uma penitência exagerada em busca de uma redenção que (estou consciente) não chegará nunca. 

E tu aí, à minha frente, como se nada disto te fizesse o mínimo sentido, por ignorares que todo este turbilhão existe e se faz gente.

Achei uma personificação do desejo. Tu. Ninguém mais. 

Foi tudo um desastre à espera de acontecer, a tempestade perfeita. E agora... agora algo me diz que a minha ansiada paz não me chegará nestes tempos vividos à velocidade da luz, que partilhamos e amaldiçoamos serem tão efémeros...

Como poderei, algum dia e nesta vida, saciar uma vontade que apenas mora na minha alma sem pele nem rosto? Vivo numa utopia que só eu conheço, que não partilho nem entrego a mais ninguém.
 
E tu aí, à minha frente. Sem que nada disto te faça sentido, sem que nada te inflame, enquanto eu me deixo consumir neste incêndio ao qual não vejo mais horizonte...

Não te posso tocar.
E é injusto. Imperfeito. Obsceno. Só desejar-te, e isso não chega.

Nunca chega. Nunca chegará...




quinta-feira, 28 de julho de 2016

Paz

Abraça-me outra vez.
Exatamente assim.
Ou se preferires não me soltes de todo.

Sim, eu sei que te peço demasiadas vezes o conforto dos teus braços. Não sei viver sem eles.

Não sei ser homem sem me deixar levar pela paz que só tu me sabes conceder nesse momento em que o tempo tira férias, nos deixa ficar ali, quietos, serenos e longe das nossas tribulações.

Mas não o sei evitar. Não quero aprender a fazê-lo. Perdoa-me por isso.
Peço-te perdão por não querer saber como são os dias corridos sem te ter, junto a mim, envolvida e envolvente.

Morri de amores por um momento. Apaixonei-me tanto por ti como por este momento que, de repetido, se tornou pele em mim. Sim, é isso. Tornaste-te a minha pele, a minha única pele. Que me protege, conforta, me ilumina... tudo numa só pessoa. Tu, que és a minha outra metade de alma, desta alma tresmalhada e confusa. E só.

São estes os dias em que os momentos se tornam as horas do meu prazer.
É nestes pedaços de tempo que me sei reconhecer.
Serão sempre estas oferendas que me entregas que me tornam pleno.

Em ti sei o que é paz. Em ti sei o que é a necessidade. Em ti sei o presente.

Somente em ti sei o que é o amor.



quarta-feira, 27 de julho de 2016

Pertença

Adoraria passar, simplesmente.

Adoraria passar pelos dias sem os ver correr desenfreados, sem os viver desnecessariamente, sem esperar mais. Apenas porque significaria que estava contigo. Escondido. Protegido. Contigo.

Nesta cidade deprimida pelos tempos obscuros, nada há para fazer que não seja pensar-te.

Investir o meu tempo em ti, de forma permanente e reflectida. É um investimento inseguro, sem retorno expectável, a um custo hipoteticamente elevado.
Mas é esta a minha forma de te gostar.

Ver-te à frente dos meus olhos, esticar a minha mão e não conseguir tocar-te, mas ainda assim sorrir... Sentir-te respirar ao meu lado, abraçada ao meu peito, sem que aqui estejas. Navegar cada recanto desta calçada sem conseguir tirar os olhos do chão por ter vergonha que as gentes me achem maluco por sorrir sem motivo aparente.

É a minha maneira de te pertencer. Não conheço outra forma de viver, de ser pleno, quem sabe até feliz.
Mesmo que nunca seja mais que a minha imaginação que me leva até ti, sem que o saibas. Sem que confesses que, por instantes, me soubeste junto a ti a sussurrar-te o impossível, encostado ao teu ouvido. Mesmo aí, onde dormes. Aí onde eu queria estar.



Haverá outra forma de te ter?...
Se houver não a quero saber. Será imperfeita e sujeita a tremores de terra e aflições.
Prefiro estar assim, longe e perto em simultâneo. Da única maneira que faz sentido querer-te.

Assim...








terça-feira, 26 de julho de 2016

Indefinições

Tenho medo disto. 
Disto que não sei o que é.

Porque não nos falamos como antes, não nos chamamos como antes. 

Como se a estrada tivesse mudado à frente dos nossos olhos e não déssemos conta.
Como se tivéssemos deixado que a direcção deixasse de ser a que originalmente tínhamos antevisto.
Como se fosse, afinal, este o nosso destino final emergido das areias do nosso deserto comum.

Não sentes? Não respondas. Prefiro não saber.

Mas tenho medo, confesso-te. Receio que tudo seja furacão que passe a correr e nada reste depois da borrasca.
Que seja apenas uma passagem pelo teu refúgio, que apenas nos vívamos dentro do silêncio, como criminosos. Meros pecadores numa vida que merece mais que apenas o sonho.
Sem saber para onde olhar. 

Apenas prefiro não ver-te falar comigo sem dizer uma única palavra. Porque tenho receio que quando o faças, fujamos para longe para onde os dias se diluam nos rios da memória. Não apenas da tua, mas da minha também.
Fugaz entrega do ser que apenas anseia ser mais do que é. Daquela maneira que me olho ao espelho depois de te abraçar.

É natural? Faço-te sentido? Fazes-me sentido?
Não sei. Nada mais consigo saber...

Mas suponho que sim. 
É um dilema. O extremo da incerteza. Simplesmente uma verdade que não pode merecer mais detalhe ou debate.

És o meu medo e a minha vontade. E receio que ambos se misturem. Até que nada mais reste de nós, como a vida deveria ser vivida...


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Mérito

Devia ser proibido ter ansiedades destas. 

Nos nossos genes devia haver um mecanismo de defesa contra ti. Contra as coisas que me fazes pensar. Prevenção contra esta loucura que me fazes passar de cada vez que me lembro que existes.
É imoral, sei. Vai contra todas as convenções que me ensinaram ser válidas. Mas nada me vale, agora. Neste momento não sei a quem ou a que recorra para me acalmar este estado de angústia e pecado. Sim, porque aquilo que sonho tem que ser pecaminoso e punido. Porque me fazes pensar em ti de todas estas formas?


Não me ignoras a existência. Eu não deixo.
Sabes qual o meu rosto e como se chamam os meus olhos quando se encontram com os teus. E não tens pena de mim, nem me tentas consolar. Não te afastas, eu não deixo. 
Tu ris. Gostas de saber que te suspiro a cada pulsação que se manifesta em mim. E eu gosto que tu gostes, é indesmentível...

A minha fortuna continua a ser o facto de não te ver. A não ser quando adormeço, claro. Quando me deixas sonhar-te. Não tem o sabor da tua pele clara, ou o cheiro do teu peito, mas é o melhor que posso ter. Não me chega, mas dás-me isso, pelo menos.

Mas ainda assim permaneço nesta ansiedade atroz que não se acalma, para a qual não há, ainda, cura viável. Provavelmente, só tu me podes dar esse remédio, impregnado nos teus lábios, entregando-me a salvação com um beijo que desejo merecer. Mesmo que não te mereça. Mesmo assim, sei-te ser a chave da minha prisão que carrega o teu nome. 
Quero-a. Hoje e todos os dias que me esperam no horizonte...

Mesmo que não a mereça.

Mesmo que não te mereça. A ti e unicamente a ti. 







sexta-feira, 22 de julho de 2016

Inquietude

Guarda-me de tudo o que me faz mal. Em ti.

É só isso que te peço. Apenas que me guardes em ti. 

Me abraces, protejas e digas que tudo vai correr bem, mesmo que saibas que é mentira. 
Por vezes preciso que me mintas, me faças crer por segundos que tudo está onde deve estar.
 
Preciso de ti hoje mais que ontem. 
Ontem já não interessa, passou, não o podemos ter novamente junto de nós. Mas hoje estás aqui, e não quero mais que isso.

O agora assusta-me, tanto como o amanhã. Carrego em mim todos os medos que possas nomear. Mas aquele que mais me destrói é aquele que se chama a tua ausência. Temo o dia em que possas não estar perto quando te chore, quando te escreva, quando te respire. 

No entanto, e se for apenas a tua recordação que me aqueça pela noite, ou somente o som da tua voz a confortar-me, no meio desta melodia taciturna que sou eu, será suficiente se te souber meu. 
Só meu. 
O meu recanto perfeito, o abraço envolvente de toda a paz.

Por isso te peço: guarda-me, por favor. Abraça-me, por favor. Fica aqui, por favor. Não me deixes só, sem a tua voz, a tua canção na minha melodia...

Ama-me como só tu sabes, agora que me escondo nos teus braços. 

Por vezes só preciso que me guardes, escondas, ames. Que me digas que não irás para nenhum outro sítio que não seja aqui. Junto a mim. Guarda-me, meu amor...

Somente. 
Em ti. 

Hoje. Amanhã. Em ti.





quinta-feira, 21 de julho de 2016

Sede

Esta cidade está deserta. Nunca a tinha visto assim.
Não está ninguém no jardim junto da casa dela.

Caminho pelo meio da relva sem que uma única pessoa me veja, sem me preocupar se me seguem ou documentam os meus passos. Carrego um saco com uma garrafa de vinho. Fica bem. Quando somos convidados para entrar no domínio de alguém, fica sempre bem levar uma oferenda.

Ao chegar ao apartamento, a porta estava aberta. Ouviu os meus passos, insistiu que entrasse. Que vinha já ter comigo, que terminava o jantar naquele instante. Fui até junto da janela, segundos depois, senti-a abraçar-me o peito. Bem-vindo, sussurrou-me, senti a tua falta.

Quando me virei para ela, foi o fim da palavra dita como ambos a conhecemos. Sim, eram os lábios que falavam, mas a mensagem era já outra. Sentia-lhe a falta e não sabia o quanto. Bebi a saudade dela com a sofreguidão dos aflitos. Aflitiva era também este necessidade, este apetecer inconsolável que desconhecia existir assim.

Era sede e corpos imperfeitos, era dúvida e certeza misturadas, era o fim do tempo. Éramos nós juntos e livres, finalmente livres. Teria trocado todos os momentos da minha vida passada por aquele tempo que ela me ofereceu. Tudo nela era entrega, era amor, era ela. Nada mais me importou naquele momento. Amei-a, senti-a.

No chão, enrolados num cobertor, respirei-a uma vez mais. As nossas mãos encontraram-se no meio dos corpos, encaixadas. Descansávamos da eternidade durante o tempo que nos restasse. Não era muito mais. Sabia-o. Ela também.

Se me lembro do que foi dito, naquele chão? Não. Não foi importante. O que me ficou foi o cheiro  da sua pele, os risos que soltou ao abraçar-me ali deitado. Ficou-me a imagem da minha felicidade que só ela podia ver, que só ela podia receber.

Sonhei-a como a mais ninguém. Amei-a sem saber como. Pertenci-lhe sem culpas.
E o mundo voltou a fazer sentido, a partir daquele momento.




quarta-feira, 20 de julho de 2016

Oração da Aflição

Deixas-me sonhar contigo hoje? Só hoje. Ia fazer-me bem. 

Deixa-me sonhar que molhamos os pés neste mar e que ninguém nos observa. 

Que a vida somos nós que a fazemos. 
Que as nossas pegadas nesta areia não são apagadas pela força das ondas, e permanecem para sempre, onde quero também permanecer contigo. 

Que a eternidade nos pertence, apenas a nós e mais ninguém. 

Deixas?

Se me deixares sonhar contigo hoje eu posso ser tudo aquilo que desejo, apenas por te sentir nas minha mãos como nunca senti mais ninguém.

É um pedido estranho, bem sei, mas eu nunca fui alguém coerente quando o assunto és tu. 

Sem quereres desmascaras toda esta figura que criei para me defender de ti. Apenas de ti. Nunca precisei de defesas com ninguém. Nunca quis sonhar ninguém. E agora faço-te este pedido tão absurdo, sem cabimento e vazio de sentido, como se de uma bênção se tratasse.

Deixa-me sonhar contigo sem que durma, apenas por hoje.
Peço-te que me deixes mergulhar por ti adentro como se nunca me faltasse o ar, afogando-me nesse mar que é a tua essência.  
Apenas por este dia quero pedir-te que me deixes conhecer o fundo do teu oceano, ao invés de apenas conhecer os teus olhos como os de mais ninguém.

Deixas-me sonhar contigo?
Deixas-me abraçar-te plenamente sem censuras, preocupações ou punições?
Tocar-te na alma e arrancar-te todas as tuas dores e pecados? Hoje, apenas hoje, deixa-me entregar-me sem contemplações e deixar-te levar-me para onde mais queiras, no teu mais recôndito espaço de paz, de tempestades, de luxúria e prazer... no teu mais íntimo recanto de ti.

Deixas-me sonhar contigo? Só hoje. 

Só te peço o hoje, porque o amanhã não o sei dizer e amanhã pode ser tarde demais.


terça-feira, 19 de julho de 2016

Incêndio

Saí de lá em fuga. Perdida e inconsciente.

Antes tivesse ficado, podia ter sido aquilo que era e amanhã não seria mais que isso. Uma noite passada, na minha história que poderia guardar num recanto escondido. Deveria ter sido um riso e um copo de vinho. Um jantar, um momento inocente que descambasse numa perda de sentidos momentânea, sem consequências nem marcas.

Em vez disso fugi, temendo pela minha sanidade. Nem um beijo, nem mais um copo de vinho. Mas com consequências. As piores. Daquelas que não fazem sentido.

Quero que isto passe, mas fui assaltada à mão desarmada, sem esquemas ou engodos. De maneira desleal e à luz do dia. Não se faz.

Aquece-me o sangue, a pele arde-me em cada recanto.

Esqueço-me de dormir, de comer, de respirar, se não for a imagem dele a levar-me. Por mais que tente bloquear as mãos dele, são elas que me aquecem ainda mais e me deixam ofegante por algo que não recebi, e repito que não quero conhecer. Não era suposto. 

Falta-me o discernimento, agora. Falta-me isso e muito mais. Não era suposto.

Mas agora aconteceu. Uma angústia, uma ausência que me faz doer, que não quero colmatar por não querer nada que me preencha este espaço. O mesmo lugar onde me deixei atingir, uma e outra vez, até que o fechei a estranhos. Quero este canto de mim livre de inquilinos e penetras.
Não preciso disto, não agora. Ainda sou dona de mim, engano-me a torto e a direito. É mentira, a minha vontade já não é a minha, é apenas um reflexo de uma noite que não era suposto ter deixado a marca que deixou. As consequências.

Estou ausente. Em parte incerta.

Consumida por um fogo que me cerca as paredes do meu ser. E eu ali. Sentada a ver como tudo à minha volta queima. As chamas que me incendeiam os sentidos. Que não me deixam ver fora de mim.



Tudo queima. Como o meu sangue. Como a minha pele.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

A minha amada

Sentou-se ao meu lado, no sofá preto.

Passou-me a mão pelo cabelo ainda molhado, e sorriu-me um amo-te doloroso. Uma dor que eu não via, nem sentia. 
Deixou-me que a beijasse na testa suavemente numa vã tentativa de a acalmar daquele pesadelo colorido que éramos nós, naquele momento. 

Amo-te, repetiu.
E eu a ti, pareceu-me a resposta mais plausível naquele instante. 

Não que fosse falso, apenas porque me pareceu razoável dar-lhe essa dose diária de amor sem a qual ela não respira.


A toalha envolvia-lhe a pele, também ainda molhada, e assentava-lhe como um vestido feito à medida para os seios dela, descendo somente até à cintura. Estás linda, sabias? Sorriu e respondeu-me novamente aflita: amo-te. Aquela aflição afligiu-me também. Quis perguntar que se passava, se algo acontecia ali naquele pedaço de ar que nos separava. Não perguntei. Segurei a face delas nas minhas mãos. Chorou. Amo-te, chorava o meu doce amor. Chorava porque lhe doía, porque o amor lhe doía e eu não percebia.

O meu amor suspirava, soluçava, lacrimejava e eu ali assustado sem solução à vista que a acalmasse.
Abracei-a. Forte. Ela não me abraçou de volta. Fiz força novamente, para que ela soubesse que o meu amor ainda lhe pertencia. Mas ela não levantou os braços à procura de me aconchegar.

O cabelo dela, molhado como o meu, estava pesado. Mas era a alma dela que pesava mais e eu tentava ter força por nós dois, e ela deixava-se cair. Amo-te, suspirava o meu amor, sem que o som das palavras saísse da boca dela. Só o ar perfumado com o pesar das noites me chegava aos ouvidos. Era a minha aflição e a dela, misturada com a minha, num mar turbulento de tremores à nossa permanência juntos.

Era o sofá negro que perdia o sustento, os meus braços que fraquejavam, era a minha voz que secava no ar que comprimíamos um contra o outro. Era tudo a fugir de nós e nós a tentar manter tudo vivo e perfeito.

Amo-te, dizia-me o meu amor, sem olhar para mim. Amo-te, como que a pedir perdão, dizia-me a minha amada. E eu a ti, respondi-lhe eu, não por ser plausível, mas por medo que ficasse sem alguém a quem o dizer.



Amo-te, suspirou pela última vez a minha insubstituível mulher, até que no meu abraço se deixou adormecer.
E eu também te amo, segredei-lhe ao ouvido, para que a acompanhasse no seu sono... Não por ser plausível, não mais por medo descontrolado.

Apenas por ser a única verdade que naquele momento soube ser irrefutável.



sexta-feira, 15 de julho de 2016

Psicose

Os pedaços de sol que entram pelas persianas meio fechadas do meu quarto acordam-me de um sono falso.

Não passaram muitas horas desde que me refugiei nos meus lençóis brancos, em fuga das horas que me acompanharam, quando ninguém mais o fez. 

Apenas as horas passaram. As mesmas que, a cada segundo me aproximam da morte. Elas e os meus cigarros que sempre se misturam com o álcool que verto para dentro de mim, para me adormecer mais rápido, todos os dias.

O meu corpo jaz, agora, sem grande movimento que o apoquente. No chão coberto por um tapete negro restam papéis e blocos de notas infindáveis com histórias que temo partilhar. Não são mais que as minhas desventuras por esta existência oca e sem grande sentido que a nomeie. Mas é desses contos que se faz a minha história.  


Subjugo-me à vontade da luz e deixo-a entrar sem mais conversas. Este dia está demasiado brilhante e contrastante com as prosas que acomodei nas páginas lisas dos meus blocos de notas. Sento-me, derrotado, e leio.
Revivo os momentos de memórias que me levaram até àquelas frases ditadas ao meu ouvido, por uma voz que nunca consegui identificar, mas que insisto em escutar com a maior das atenções.
Segreda-me retalhos de uma vida passada e desejos de dias que de futuro nada têm. Mas eu ouço e escrevo. Uma palavra, uma frase, uma folha inteira. Nascem relatos fiéis desta coisa que não sei se chame vida ou teste à minha resistência. Deito-me no tapete negro, e só agora reparo que nada mais me cobre o corpo senão umas calças gastas pelos meses. Leio, de novo, a minha história com uma curiosidade inexplicável, duvidando que tenham sido os meus dedos que a colocaram ali, à minha frente.

Ainda atordoado pela minha descoberta, acendo um cigarro solitário. Como eu. Façamos companhia um ao outro, pois então. Folheio inconscientemente uma e outra página, e ali permaneço. Agora não estou só, é a frase que se repete na minha cabeça.
E no entanto sei que é mentira. Por momentos não faz mal. Nestes instantes não me faz mal saber que as coisas mais simples do meu dia são mentiras. Penso se não serei, também eu, uma mentira. Uma invenção daquela voz que todos os dias me segreda as minhas memórias. Serão minhas, realmente?

Duvido de tudo, questiono tudo. Vivo incrédulo, naquelas horas que me leio, que tenha conseguido exorcizar tantos pedaços de mim.
Vivo sem crenças, sem respirar a vida com os meus pulmões. Existo à espera do dia em que desista de desistir de mim, um dia que me prometem que chegará, pelo qual tenho que esperar. Só.

Neste recanto da cidade só moram as minhas letras, que habitam nos meus blocos de notas. As mesmas que me segredam ao ouvido. Por alguém que não saberei jamais nomear. Um nome que não quero saber. Apenas sei que o nome não é o meu.

Porque eu não sei mais o meu nome, por ter esquecido quem sou.






quinta-feira, 14 de julho de 2016

Somente Mulher

Tudo o que preciso agora é do teu silêncio. Mais nada.

Não preciso de abraços, de beijos, de nada que não seja a ausência de palavras tuas. Porque não quero nada mais que não seja o meu canto, o meu mundo onde agora não cabes. 

Não te estou a expulsar, apenas a pedir que não fales, que por momentos te esqueças de mim. 
E que me deixes aqui sozinha, a olhar o mundo passar à frente dos meus olhos.  Os mesmos olhos que se desviam dos teus...

Estou diferente? Talvez, agora. Sinto-te a falta, mas não lhe posso chamar saudade. Tu não compreendes o quanto eu me quero. Muito mais que te quero a ti. 

Deixaste de ser a prioridade, e ainda bem. 

Foi demasiado tempo a pertencer-te e a esquecer-me que, afinal, não te sou propriedade e sou dona de mim mesma. 
Tu não percebes. Não faz mal, eu perdoo-te e compreendo que não consigas entender que ninguém é mais importante que eu. Muito menos tu.

Gostava de te pedir que não viesses ter comigo, que não pedisses para invadir este meu espaço. Que não é nosso, somente meu. Tudo o que eu preciso é que faças silêncio. Que me deixes sentir o sabor da saudade por ti. Que queira o abraço e o teu beijo. Agora não quero. Não te quero, volto a dizer-te.

Não vou partir. Mas preciso viajar em mim e por mim. Saber quem mora neste corpo, afinal.  Redescobrir a minha face, reaprender qual a cor dos meus olhos, como é o toque na minha pele. Quero saber onde chegam estes braços que investiram tanto tempo a envolver-te, e nenhum a descobrir-me.

Será que é pedir-te assim tanto? Se for, lamento. Nada mais te poderei explicar, quando tu não queres saber. Talvez não me queiras como eu sou, e apenas como desejas que eu seja. E eu não posso querer ser isso para ti. 

O que quero? Ainda não percebeste?
É tão simples, meu amor...


Quero ser aquilo que nasci para ser. 
Mulher. Somente Mulher.



terça-feira, 12 de julho de 2016

Um Adeus nunca será um Até Breve

Na despedida das memórias que te guardei, deixo-me levar pela doce leveza da tristeza que tanto tempo quis esconder.

Uma despedida dói e magoa, como se nos arrancassem um pedaço daquela que é a nossa história. Um adeus nunca se pode disfarçar de até breve.

Eu sei-o, tu sabe-lo também, e a admissão de que assim é nunca nos passa incólume ou isenta de marcas.

É uma derrota, convenhamos. Quem é derrotado? Não sei.
Prefiro apenas pensar que não há vencedores, porque ambos somos vencidos. Não que a vida seja um jogo, e não quero pintar um quadro com essas cores, mas admitamos. Uma despedida é o resultado da inglória vontade de querer tornar o presente num eterno futuro que nunca se desvanece na alma e no corpo. E como eu te guardei na minha dilacerada alma, meu amor
.
Sabendo que a despedida tinha chegado antes do amanhecer, não a quis abraçar nem valorizar. Amanhã ainda vem longe, gritei. Era mentira porque o tempo não espera por mim, e tu não quiseste esperar por mim.

Foi no sossego da tempestade que é a minha eterna solidão que me foi segredado ao ouvido: está na hora, o momento do adeus chegou. Há segredos que não queremos conhecer, há momentos que nunca queremos viver, há estradas que nunca queremos percorrer.

Mesmo que nos faça bem.
Mesmo que nos cure.
Mesmo que nos exorcize de todas as maleitas.
Mesmo que nos absolva de todos os pecados.




Não queremos, não desejamos, não nos pertence a nós o peso de assumir daquilo que não tem réu ou juiz.

É assim que me soam as despedidas. É desta forma que me recordo dos dias que passei a tentar não me recordar mais de ti, meu amor.

É desta forma e mais nenhuma que a despedida do que fui, me transformou na imagem do que nunca quis ser: Eu. E Eu sempre foi mais do que aquilo que podia merecer.

Da mesma forma que nunca poderia merecer aquilo que mais quis merecer:
Tu...






segunda-feira, 11 de julho de 2016

Liberdade

A voz saiu-lhe presa pela intensidade com que me amou.

Um suspiro, uma respiração profunda, do mais escondido recanto da alma. Era ela, plena e livre, comigo a segurar o corpo dela. A dizer-lhe que era ela e mais nenhuma. Eram todas as feridas que saravam, toda a luz que entrava por nós adentro. 
Era a contrição, o perdão que voavam pelas correntes de ar do prazer que nos rodeava. Era eu a pertencer-lhe e ela a dar-me  o que de melhor tinha para dar ao mundo. 

Éramos nós a ser. A deixar-nos ser. Somente. 

Para mim foi como se voltasse a sentir que viver fazia sentido. Para ela? Não quis perguntar, temia a resposta. Não era importante, naquele momento. Só importava que a abraçava, a amava, lhe falava baixinho, a beijava à procura da vida que brotava dos lábios dela em permanência... 

Olhava-me fixamente, segurando-me a face com as duas mãos, procurando a minha boca sempre. Deixava-me levar por cada movimento dela, entreguei-me por completo, e sei que ela o sentia perfeitamente. Momentos houve em que tremia nos meus braços.
E suspirava!
Toda ela era um furacão dos sentidos, e eu sem saber fazer mais que não fosse desejá-la e amá-la. Desejei-a com todo o meu espírito, até ao ponto em que sucumbi à vontade dela, à posse dela.
Não mais me lembro daquela tarde, e não é preciso. 

Resta-me apenas a memória dela a descansar em mim, quando quisemos que assim fosse.
Apenas memórias, nada mais. Porque dela sei apenas que ainda vive todo e cada dia. Dela sei apenas que aqui não está mais. Simplesmente porque me tinha ensinado aquilo que eu ainda não tinha aprendido. 


São apenas memórias daquele momento sem fim, que passou por mim demasiado rápido. Que eu guardei, um momento que me guardou e libertou.

São apenas e só memórias perfeitas. 
Tal como ela o é.



quarta-feira, 6 de julho de 2016

Foi

Estou a chegar. Onde estás?

Em casa, respondi-lhe. Desligou em seguida.

Minutos depois estava à minha frente. Sem dizer uma palavra, sem me deixar sorrir, sem mais nada, abraçou-me. 
Um daqueles abraços fortes, sabes? Daqueles que as mãos dela se entretêm a passear pelas nossas costas, para se esconderem dentro da roupa. Passou-as pelo meu peito, apenas para me envolver novamente. Foi o beijo que mais ansiava. Foi o momento, apenas, quis pensar.

Não foi nada disso. Foi tudo aquilo que sonhara. Ela. Eu. Nós. E mais nada. 
O mundo ficou lá fora, fechado a sete chaves, sem permissão de entrar. Éramos apenas nós contra todos aqueles que não sabiam que existíamos. Não interessava mais nada, senão a vontade de pertencer a outro alguém. Como se toda a nossa vida apenas agora ganhasse um propósito. Era como se todo o meu passado apenas tivesse significado porque estava, com ela, a sentir-me mais vivo que nunca.

Foi o amor que se fez, a saudade que nunca iria calar-se, a viagem que terminava onde queríamos que tivesse começado. 
Foi ela a respirar cansada de me amar, fui eu a querer que não houvesse tempo a correr contra nós. Fomos nós a saborear cada um dos recantos da pele do outro, éramos nós a querer que não houvesse outro amanhecer, que o amanhã não fosse mais que um pesadelo forçado. 
Numa única noite, fomos apenas aquilo para que tínhamos sido criados.

Foi ela deitada em mim, segurando-me com receio de uma fuga que eu não queria sequer contemplar. Fui eu a abraça-la como se de um tesouro se tratasse. Fomos nós a suspirar pelo fim que queria chegar, sorrateiro e cruel, depois daquela noite de Verão que, da nossa memória nunca se iria apagar.
Fomos nós a deixar fugir as lágrimas de uma dor feliz por se tornar real. 


Foi um momento que apenas com ela fez sentido. Foi uma noite em que o tempo não contava para nada. Foi o despertar de uma loucura que só nós sabemos descrever. 
Foi a perfeição vivida por duas vidas vazia de qualidades...

Foi um princípio com consciência de fim.
Foi o princípio do fim de algo que, afinal, não podia ser mais que um momento.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Fuga

Não vás. Por favor, fica mais um pouco, comigo.

Esboçou um sorriso, olhou para baixo e saiu de perto de mim. Fiquei deitado, enrolado em lençóis, a olhar o dia que acabara de nascer, por entre os intervalos das persianas. O meu quarto recebia os primeiros raios de luz, contrastando com a noite que ela me acabara de oferecer. Ouvia-a vestir-se algures na sala. Calçou-se e regressou até mim.

Um beijo, com os olhos fechados. Sem amor. Sem sentidos à flor da pele, como nas horas noturnas que nos tinham velado. Apenas um beijo nos meus lábios. Acariciou-me a face sem me ver a cor dos meus olhos, e despediu-se com um até breve que não era mais que um adeus, disfarçado de esperança, tão vã quanto as suas palavras. Foi. Não olhou para trás. Foi, tal qual como tinha chegado, de repente, sem compromissos ou tratados, e partiu em direcção ao futuro que só ela sabia. Um futuro que não me contemplava.

Tudo ao contrário do que sonhara, dias antes. E perguntei-me, naquele momento de pretensa solidão:
Mas há alguma coisa que corra como eu mais desejo?

Não com ela. Nunca com ela. E no fundo sabia-o, mas preferia não dar valor aos avisos do meu cérebro, optando sempre por ouvir a voz do desejo que me sussurrava insistente noites adentro. E preferi sonhar, sem pensar se me poderia arrepender, fosse do que fosse. Na minha sonhada fantasia, não havia arrependimento ou pecado. Havia-a, somente. E isso chegava-me.

E ela foi. Sem arrependimentos, sem culpas ou indício de pecado. Foi, simplesmente.

Levantei-me da cama, acendi um cigarro e, ainda nu, fui espreitar os raios de Verão que se encostavam à minha pele, com o desenho das persianas. Lá fora não havia nada que me cativasse, senão ela. A ir. A não voltar.

Ela foi. Eu fiquei. E eu consciente que, afinal, não podia ser de outra maneira.



segunda-feira, 4 de julho de 2016

Sem sentido

Eu gosto de ti.

Simples e directo. Eu gosto de ti. Custa muito dizer, mas é assim que as coisas estão. E, ao que me parece, tu gostas de mim. E isso sim, custa horrores ser dito. Porque não faz sentido, nunca poderia fazer. 

Mas agora isso voou tudo pela janela, pela mesma janela onde agora me deixo a contemplar, com os olhos postos nos dias que passam com a lentidão do Verão que teima em se fazer sentir. Porque não faz sentido, nunca poderia fazer.

Toda eu sou Verão, agora. Sorrio conformadamente, ainda incrédula mas consciente de que não posso fazer mais nada. Este sol queima as nossas peles, marcando-nos com memórias dos dias que vão, também eles, passar por nós lentamente com passadas firmes. São as recordações daquilo que ainda não aconteceu que me preenchem os lábios. E isto não me faz sentido nenhum, nem nunca poderá fazer.

No entanto, prefiro guardar segredo das emoções que enchem o paladar e o pensamento. É melhor. É mais seguro. Assim dói menos. Nunca, como agora, precisei da minha armadura bem preparada para as investidas que se aproximam. Porquê? Porque não faz sentido, nunca poderia fazer. 

Mas diz-me: há alguma coisa que faça sentido? Nestas horas, nestas confissões que só a minha mente escuta, existe alguma parte de nós que faça sentido? Claro que não. E é assim mesmo que te quero. Sem sentido, sem promessas, sem compromissos. 

Porque só assim fará sentido, da única maneira que poderia fazer.