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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Nesse dia

Ainda me lembro da tua mão a segurar a minha.

Lembro-me que já não tinhas muita força, mas não desistias de a segurar com a que tinhas ainda dentro de ti. Custou-me muito ver-te assim. Debilitada, doente, em sofrimento. O sentimento de impotência comeu-me por dentro até ao ponto em que me vi obrigado a questionar os poderes que dizem ser todo-poderosos. Nesse dia deixei de acreditar em nada menos que a realidade.

Respiravas com muita dificuldade. Mas lutavas sempre e a todo o segundo. Apenas nós estávamos naquele quarto. Já não era o quarto da tua casa, mas um canto do hospital. Já não sabia como conseguias suportar os tubos, a medicação e o sofrimento que o teu corpo sofria sem tréguas. Apenas tu e eu na sala pouco iluminada por um candeeiro de luz amarela que te tinha trazido de casa a teu pedido. Nesse dia deixei de visitar hospitais por me trazerem de volta à realidade demasiado crua para eu enfrentar.

Não tenho fome, dizias-me. Eu pedia-te que comesses a sopa, pelo menos, que te ia ajudar a fortalecer. Não quero, respondeste-me. Preferi não insistir contigo por achar que não tinha esse direito. Pousei a tigela na pequena travessa e deixei-te por segundos para a entregar a uma das auxiliares naquele piso. Quando voltei para junto de ti estavas a sorrir, em paz e seguraste-me a minha mão de novo. Está na hora, disseste-me. Não soube arranjar forças ou jeitos para te responder. Comecei a chorar perdidamente e juntei a minha outra mão à tua. Não chores, por favor, tens que me deixar ir. Eu não queria, não podia. As minhas lágrimas caíam pelos teus dedos e pelos meus e entrava num pânico que não queria mas não controlava. Começou a doer-me a cabeça insistentemente. Nesse dia deixei de perceber a morte e a vida e todas as regras implícitas que trazem em si.

Meu querido, olha para mim. Sorrias amavelmente e deixaste sair uma lágrima muito tímida. Está na hora, envolve os teus braços em mim para que eu chegue aconchegada ao meu destino. Deixei o meu corpo cair ao de leve no teu peito, chorando em desespero por saber que te abraçava pela última vez. Estou pronta, meu amor. E estavas. Amo-te, segredei-te. E eu a ti, muito, meu amor. E suspiraste pela última vez. E ali fiquei não sei quanto tempo, enquanto enfermeiros entravam e me olhavam. Aquele som agudo com notas de morte ecoava no quarto onde antes a tua alma estava junto ao teu corpo agora deserto de vida. Ninguém teve coragem de me arrancar de ti. Quando me levantei taparam a tua face ainda com esboços de paz e calma.

Nesse dia soube que te iria amar para todo o sempre.
Nesse dia senti o mundo mais pesado.

Nesse dia o céu começou a chorar por ti, ou por mim, já não sei.
Nesse dia tu foste embora para nunca mais me deixares só...

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