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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Uma questão de sobrevivência

Fechou-se o dia.

Foi apenas mais um dia. Teve as mesmas horas, os mesmos minutos, as mesmas pessoas que não conheço, as mesmas ruas e estradas que conheço demasiado bem. Um dia igual ao anterior, tão vazio quanto valioso porque o vivi mas fi-lo de coração vazio.

A chuva e o vento foram a minha companhia, durante todo o dia vazio. Caminhei pelas ruas, sem guarda-chuva, com as golas do casaco levantadas, cabixbaixo como se estivesse envergonhado com alguma coisa que tivesse feito. Se calhar foi mesmo isso. Tenho vergonha e caminhei com vergonha.

Sentia o cabelo completamente molhado, e algo em mim me dizia que eu merecia esta "molha". O meu casaco pesava muito, completamente encharcado. Sentia o olhar das pessoas na minha direcção, com incredulidade olhando aquele homem, alto, de olhar prostrado no chão, caminhando numa linha imaginária, deixando-se molhar pela chuva gritante que se fazia sentir. Sem procurar abrigo, sem se preocupar com nada a não ser os seus pensamentos.

Pensava na vergonha que tinha sido a nossa despedida. A discussão, os gritos, as lágrimas dela escorrendo pela face, agarrada à minha camisa, implorando que a ouvisse. Da minha boca nem um som. Nem uma palavra, nada! Vou-me embora e nunca mais volto, vou para longe nunca mais me verás! Foram as suas últimas palavras até bater a porta com tal força que o prédio todo deve ter pausado a tentar perceber o que foi aquilo. Fui até à porta, para a trancar, e ouvi-a sentada lá fora a chorar desalmadamente. Abri a porta e olhei-a. Quando me baixei para lhe tocar, levantou-se num só movimento e desceu as escadas em plena corrida fugindo de mim. Garanto que parecia que fugia da morte.

Não dormi um minuto que fosse. Apenas me sentei à janela, na sala, a olhar a noite iluminada por uma lua enorme. Até que o dia nasceu e eu eventualmente saí para receber a punição do céu sobre a minha cabeça. Não sei quanto caminhei, quantas pessoas se cruzaram comigo. Não sei nada.

Sei só que o dia se fechou. Sei também que dela não saberei mais nada.
Sei que a solidão insiste em se fazer de minha amante durante a esmagadora parte do meu tempo neste mundo. Como uma mulher que se faz de convidada para me agraciar com falsas promessas de estabilidade. Negra como a noite mais escura. Mais forte que as vontades.

Juntos somos um casal perfeito. Eu anulo-me para que ela vença, e ela conquista-me, abraça-me e deita-se comigo uma vez mais. Ama-me na perdição da minha cama e beija-me sem que eu lhe responda. Não aceita um não como resposta e não aceita outra no lugar dela. Somos um casal único. O único casal que pode ser na minha (sobre)existência.

Eu, ela e a minha triste (sobre)vivência.

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