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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Preferências

Há dias assim.

São dias vazios de palavras, de emoções e de planos. São dias em que nem o fumo do cigarro nos faz companhia, em que o sol é apenas uma lâmpada de rua, ou em que as pessoas que se cruzam connosco são apenas miragens necessárias. Hoje é um dia assim. Triste, iluminado e despido. Não achas?

Claro que não. Mesmo quando partilhavas os teus dias com os meus, nunca achaste que houvesse vazios ou perdas de tempo. Faz sentido. É a pessoa que és, que eu nunca consegui ser e que me custou a nossa partilha de dias.

Por aqui já não consigo explicar como são os dias despidos. Já o fiz tanta vez que agora corro o risco de ser banal, e tu não estás com paciência para coisas sem outro tipo de sumo. Tu nunca tens paciência para repetições. Que inveja de ti! Que saudades de ti!

Não! Recuso a repetir-me uma e outra vez! Sempre tu, para sempre tu, em permanência tu! Não! Vou parar de me dar liberdade de te falar,
                                                                  sonhar,

                                                                   sorver,

                                                                  escutar,

                                                                 procurar.

Prefiro a prisão dos dias despidos. Prefiro a solidão ao enfado da repetição. Como qualquer um destes que se pavoneiam no exterior com o ar mais atarefado do mundo, sem ter nada mais que uma existência sobrevivente e sem um destino que os espere.

Prefiro o meu cigarro à tentação de repetir o pedido feito ao vento que te levasse o som da minha angústia. Como se pelo meio das montanhas, dos oceanos e dos desertos a minha mensagem não se extinguisse na imensidão daquilo que nos separa.

Prefiro o silêncio coberto pelo fogo da penitência à devassidão da minha memória abraçada nos teus suspiros.

Prefiro não me repetir e permanecer em silêncio um dia mais. É só mais um dia.
E há dias assim.

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