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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Cubo

Sentei-me.

Não consigo pôr-me de pé aqui dentro. Nem esticar os braços confortavelmente. Não tenho cama nem almofada nem janelas. Não tenho nada de confortável onde me encontro. Pensando bem, será que preciso de conforto ou paisagens? Se calhar não. E mesmo que precise não vou ter, por isso prefiro aceitar que a minha condição é esta, agora.

Ouço vozes que vêm lá de fora que reconheço. Algumas sabem o meu nome e procuram-me mas não me conseguem ver. Não as vejo, não tenho janelas. Imagino uma qualquer lei da física que me permita escutar sons ou receber ar, quando este cubo que me envolve não tem locais por onde passe ar ou barulho. Ouço chamar o meu nome mas não ouso responder. Prefiro ficar aqui. É mais confortável viver em desconforto que em harmonia.

Vou deitar-me no chão. Suponho que aqui está bem. Sinto algum frio, mas esqueço-me dele. Vai ser uma constante, por isso é melhor habituar-me a ele. Ao colocar-me na única posição que me é permitido (de lado, pernas encolhidas), respiro fundo. Uma vez, outra de seguida, e outra ainda antes de me deixar inspirar e expirar de forma contínua e menos profunda. Fecho os olhos e penso na contradição entre benção e castigo que poderia existir se eu estivesse ali fora, onde os outros andam com as suas preocupações e conquistas.
Mas neste meu recanto é mais protector, mais meu. Lá fora nada me pertence, nem sequer as direcções que opto por percorrer. Voltam a chamar-me, mas agora noto um toque de preocupação quando o meu nome soa no vento. Não ligo. Vou calar-me, esperar que passe, deixar que o vento leve esta sensação de saber que lá fora está um mar de gente que me nomeia em uníssono mas não me sabe alcançar.

Não me lembro de muito mais coisas antes de adormecer. Quando acordo noto que estou precisamente na mesma posição. Como um preso político numa cela, onde cada dia é apenas dia de mais uma sessão de tortura. Estes dias são um pouco assim, também. Acordar é sempre um exercício complicado, que exige muito de mim. Mas não quero deixar de acordar; tenho uma réstia de sentido de auto-preservação que acho ser útil. O frio não se foi embora, e agora é mais agressivo. Não tenho mais roupas que as que tenho vestidas, por isso volto a exercitar a minha mente para me habituar. Este meu cubo serve apenas para receber uma pessoa de cada vez. Não há espaço para ninguém. Ninguém vai entrar (não haver uma porta ajuda) e perguntar como estão a ser os meus dias. Se perguntassem duvido que respondesse, honestamente. Quero estar aqui, quieto, sentado, sem mais nada. É preciso, digo-me. Tem que ser.

Sentei-me, puxei os meus joelhos para junto do meu peito e envolvo-os com os meus braços e deixo descair a minha cabeça em cima deles. Há mais conforto assim. De repente oço alguém gritar muito. Vem lá de fora do meu cubo. Reconheço que o meu nome é dito, mas mais uma vez não sabem chamar-me. Estou aqui fechado, preso político por me rebelar contra o que penso e sinto, e enclausurei-me aqui. Juiz, júri e carrasco de mim próprio. É preciso, repito. Tem que ser.

No momento seguinte ao acordar vejo que o meu cubo escureceu. Está negro, quando antes era cinzento. Se calhar não é nada de importante. Deito-me novamente mas agora olho para o tecto que agora escureceu. Olho em redor mas só vejo escuridão. Não consigo ver a minha mão à frente dos meus olhos. Está certo: está escuro, não há janelas.

Uma parte de mim começa a questionar-se novamente, e sou novamente levado à barra do tribunal onde eu próprio me aviso a não fazer esse tipo de exercício. Não se pode, não se deve. Baixo a minha cabeça, aceito e volto ao meu cubo. As vozes lá fora não se calam mas eu não as quero ouvir, por isso durmo.
Não me lembro se cheguei a acordar do meu cativeiro. Não me lembro se sonhei. Apenas que estive cativo, e que nada alterou em mim. Sei que mais dia menos dia para lá regressarei e nem eu nem nenhuma voz pode fazer nada em relação a isso. 

É o meu mundo torcido, preverso, libertador ao mesmo tempo. Ninguém mais o percebe. O meu cubo. O meu pequeno cubo. É meu. De mais ninguém.

Como ao meu mundo. É meu e de mais ninguém.

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