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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Biografia

Gosto de fumar sentado na minha varanda.

Não tenho paisagens lindas, não tenho luzes que quase me ceguem, não tenho nada mais que a mais pura banalidade debaixo da minha varanda e à frente dos meus olhos quando me sento a fumar.

Se pensar bem, não vou à procura de imagens bonitas quando me sento na minha varanda a fumar. Apenas me sento, com o maço de tabaco ao meu lado, acendo um cigarro, inspiro e mando fumo para fora como se expulsasse algo maior que eu de dentro do meu corpo.

Nunca estou em paz comigo quando me sento na minha varanda a fumar. Nunca sinto prazer quando fumo na minha varanda. Sou eu, o meu cigarro, a vida banal que corre debaixo de mim, e a minha alma em guerra quando me sento ali.

Por vezes enceto conversas comigo próprio, quando revivo momentos que passaram. Uns mais bonitos que outros, mas marcantes no seu tempo. O que têm em comum é que me deixam fora da minha carapaça e obrigam a explicá-los, descrevê-los, disseca-los, revive-los uma e outra vez. No fundo sou um problema mental em forma de gente, se calhar. Se eu fosse ler isto a alguém, chamavam logo uma ambulância para me levar. Ou então fugiam simplesmente. E às vezes quero mesmo que fujam de mim, da minha presença, da minha pequena dose de loucura. Receio infectar alguém com este problema. É um problema?

O que importa é que adoro a minha varanda onde me sento a fumar. E gosto muito de fumar, desde que seja na minha varanda com vista para a banalidade. Em dias gelados, como ontem, esqueço que o frio me está a envolver. Esqueço porque nada me pode envolver com mais força que a minha própria forma de estar. Plenamente preocupante, mas apenas para mim. Sempre e apenas para mim. Sou aquilo que mostro, e não mostro nada que não queira que o mundo conheça. O monstro que em mim habita não pertence a este mundo, e o mundo não tem culpa da sua existência.

Os demónios que carrego, às costas da minha alma, são o combustível para o dia-a-dia que se tornou rotineiro como o nascer e pôr-do-sol o são. Sem eles não sou eu quem comanda o navio que navega nestas águas perigosas que desejam afogar-me. Sem os demónios, os diabos e anjos, as dúvidas e certezas, não me reconheço ao espelho e não sou capaz de fazer aquilo para que fui colocado para fazer nesta vida.
Um monstro com demónios e anjos da guarda em permanente vigília para que não me perca ainda mais. Podia ser uma história interessante de se escrever. Mas para quê escrever uma coisa que se vive em permanência? Não vejo interesse.

Enquanto estou aqui, na minha varanda, a fumar, a escrever mentalmente sobre a minha monstruosidade latente e a minha perfeita capa de normalidade, a banalidade da vida passa por debaixo dos meus pés, por baixo do fumo que mando fora.

A minha varanda tem vista para o abominável. Para a corriqueira normalidade sem interesse.
A minha varanda é a ponte entre o mundo do poeta assombrado e o mundo que não o conhece. Mas eu adoro a minha varanda onde fumo os meus dias, um a seguir ao outro.

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