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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Princesa

Abeirou-se de mim, assustada.

Dizia-me “papá, caí… rasguei o vestido…”
Não faz mal, princesa. Cair faz parte de aprender a andar, tentei explicar-lhe.
Ela chorava, receosa de uma repreensão da mãe. De uma repreensão que não chegou, pois não havia motivo. Ela é que não o sabia ainda.

Mas papá, a mamã vai ficar triste comigo, e vai ralhar comigo.
Porquê, princesa? A mãe não fica assim triste contigo por causa de um vestido. Devagarinho, as lágrimas começaram a parar. Disse-me que a mãe tinha dito para ela não correr. Que subir às árvores não era aceitável, com o vestido novo.
Mas ser criança implica testar os limites da paciência daqueles que mais nos amam.
E ser criança é correr, subir árvores, aprender o que está à nossa frente, debaixo dos nossos queixos, cair muitas vezes, esfolar joelhos e ouvir ralhetes preocupados.

Ser criança também é perceber o bom do mau, o certo do errado, e aprender que tudo o que fazemos tem uma consequência. E ser criança é também temer consequências.
Saber que o pai e a mãe vão sempre limpar as lágrimas, mesmo aquelas que são merecidas, também faz parte de ser criança, e aprender a crescer.

Mas à minha princesa doía-lhe não os joelhos, mas um cantinho da sua consciência em desenvolvimento. Quando percebeu que nem tudo é castigo, que o colo é sempre intemporal e não tem horas, que rir é bem melhor que chorar, tudo se tornou calma, abraço, paz.

Nada me preparou para ser pai. Foi uma bênção perfumada que não conhecia e sempre tinha rejeitado, mas agora o ciclo fechava-se, em consonância com outro que se abria sem ter paralelo.
A estrela já não era eu ou ela. A estrela de todos os dias era a minha princesa. E eu não estava pronto, não sabia as regras, não sabia como era isto.

Tinha medo de falhar. Ainda sinto esse medo.
Mas não neste dia. Neste dia, a minha princesa aconchegava-se no meu colo, dizia-me “papá gosto tanto de ti” e o mundo girava no sentido certo, novamente.

Vi-a a espreitar pela janela, e depois sair pela porta vindo ao nosso encontro.
“Subiste à árvore, não foi, princesa?”
“Sim, mamã” e esticou-lhe os braços à procura do colo e do mimo que só as mães sabem dar.
Abracei-as com carinho.

O mundo estava a girar corretamente, apercebi-me novamente.
Com elas, o mundo só consegue girar num só sentido, mesmo…

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