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terça-feira, 18 de agosto de 2015

O meu nome é teu

Não sei mais chamar-te, dizia-me ela.

Não sei mais como te implorar que fiques em mim, soluçava ela.
Não sei mais como te dizer “amor”, não sei encontrar o caminho de volta. Perdoa-me, dizia-me, perdoa-me por não saber mais o teu nome como antes.

O norte não me é mais nada, agora que tu deixaste de ter o nome pelo qual te conheci durante tantos meses, anos. Consegues desculpar-me? Consegues perceber-me no meu do meu discurso embelezado e pleno de significado, perguntava-me ao enxugar as lágrimas.

A luz é-me nociva, queima-me a pele. Só o negro me faz sentido. Quero esconder-me, deitar-me, afogar-me no soluço compulsivo da lágrima e esquecer-me que há o mundo na rua a passar. Sabes o que é o vazio, aqui dentro, chorava apontando para o seu peito, como que a segurar o coração nas duas mãos.

Como te posso explicar a tua ausência, se nem eu encontrei as palavras certas no dicionário? Como te posso fazer perceber o que tenho que reaprender agora que te revejo, recordo, re-amo? É-me permitido olhar-te com a saudade e ansiedade dos momentos anteriores ao momento que me dás? E virava-me a cara com embaraço, angústia, como se não me merecesse olhar, tocar, reencontrar.

Sabes que sabor tem o meu chorar? Sim, sei, já mo deste a provar nos beijos de conforto que te dei há demasiadas luas atrás. Mas dizer-lhe isto era trazer de volta fantasmas, dores, alegrias, tempos idos de prazer e riso e fantasia, que agora traziam sofrimento e medo de ausência de retribuição.

Olha-me, pedia-lhe, olha-me com o carinho que a dor te emprestou, e devolve toda a escuridão ao deus que te encapuzou o cabelo, pois agora não mais terás que te esconder. Não agora.
Toca-me uma e outra vez, pedia-lhe ao encostar a mão dela no meu peito, e não largues mais.

E finalmente, relembra o meu nome da maneira que o chamaste antes, porque sempre foi teu para ser chamado e a presunção de culpa poderá finalmente ser enterrada no teu, no meu passado.
Chama-me uma vez mais, e ela cobria a lágrima com a luz do sorriso que só ela emanava, e chegarei para junto do que mais guardas de querido. Aprende a chamar o nome que não me serve de batismo, e para sempre o terás como teu.

Estou aqui.
Chama-me. Por fim, e uma vez mais, chama-me.

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