Translate

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Nada será com antes

Terra estranha, esta.
Amigável, mas estranha.

Há algo que se sente no ar, que se sente nestas gentes. Não são tristes, mesmo vivendo debaixo de um clima de restrição.
Aqui as letras são diferentes, as coisas escrevem-se do avesso, para o lado inverso, e os nomes das coisas importantes são ditas e respiradas de outra maneira.

Ainda me custa olhar para trás, e ver o caminho que me trouxe aqui. Começar do zero nunca tinha sido uma opção, mas agora nada há a fazer. As linhas são mesmo diferentes na minha história e tenho que me habituar a essa realidade imposta.

Há cor aqui. Há uma energia diferente daquela que conheci em casa. As pessoas circulam, falam alto, ou não falam de todo. Eles fumam, observam, vendem coisas que considero intragáveis e vivem um dia atrás do outro, como se o dia anterior fosse o prelúdio do dia seguinte. Igual na rotina, diferente no calendário. Elas vagueiam, deixam as vestes sacudir-se pela brisa. Algumas carregam coisas mais amplas que os seus ombros, mas não se importam. Também os seus dias são similares, na sua maioria, ao que passou.

Cheira diferente de casa. Um cheiro especial, peculiar mas que me agrada e com o qual terei de viver durante muito tempo. Mistura especiarias, pão, carne preparada de maneira estranha.

Circulei tempo suficiente, por hoje. Regresso a casa pelo mesmo caminho, com receio de me perder. A solidão obriga a cautelas que, no fundo, sei serem desnecessárias mas é mesmo assim que sou.
Chego a casa a tempo de vislumbrar o sol deitar-se. Também eu me deito, fazendo-lhe companhia. Miro o tecto por cima da minha cabeça, tento abstrair-me das saudades. Esforço-me para me convencer que foi pelo melhor. Não tenho mais hipótese, senão pensar que foi pelo melhor.

A mala ainda ali está. Quase completamente por desfazer.
Sabia que a dor ia ser profunda, mas tenho que a esquecer por completo. Tenho que começar de novo, reinventar-me, adaptar-me, realizar-me.

A palavra “casa” parece-me um vocábulo distante, ao fim de umas horas. Isso assusta-me e conforta-me em simultâneo, num misto que não consigo ainda apreender por completo.
Viro-me na cama, coloco o meu braço por debaixo da minha cabeça e lembro-me de ti. Lembro-me sempre de ti, invariavelmente, e penso no que estarás a pensar de tudo isto.
Também receias como eu? Gostava de te perguntar, mas não é apropriado. Hoje, pelo menos, não o é.

Outro dia pergunto-te. Hoje as questões são todas para mim, mas as respostas só as terei quando assentar, parar, absorver, integrar, viver.

Viver aqui. Ser aqui. Existir aqui.
É isso que me espera.
E nunca mais nada será como antes.


Sem comentários:

Enviar um comentário