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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Faz-te à estrada

Deixei-me ficar.

Preferi permanecer na rua uns minutos mais. Passei grande parte da noite a deambular, rodeado de vazios mesclados com cheios. Havia muita vida nas ruas da vila, durante grande parte do tempo. De um momento para o outro chegou o silêncio. Uns raros carros foram passando por mim, sinalizando que, para aquelas gentes, tinha chegado a hora de recolher.

Senti uma espécie de alívio, pois as ruas seriam só minhas.


Pé após pé fui aprendendo o caminho das ruelas, entre calçadas e alcatrão, palmilhei não sei quantas

travessas, muito menos conseguirei contabilizar os metros. Senti o tempo passar à velocidade do vento que me arrefecia a cara e os braços meio desnudos. Ia pensando, falando sozinho, tecia cenários improváveis, e fantasias longínquas como as areias do tempo passado. Mas não posso dizer que me doesse ou causasse qualquer espécie de dano. Caminhava, simplesmente.

Tropecei em pedras desfasadas do chão, escorreguei em passeios abençoados pela chuva miudinha que chegou sem avisar, mas mantive-me de pé. Não foi fácil, confesso, mas lá fui conseguindo.

Chegou uma altura, no entanto, em que me vi desenquadrado. Não sabia onde estava, portanto. Perdi-me num sítio fácil. Se isto fosse uma cidade grande, estava lixado, pensei. Olhei e nada reconheci. Nem as casas, nem o pavimento, nem o cheiro da aragem que inalei. Perdi-me, racionalizei. Uma breve sensação de pânico assaltou-me. Vi sombras imaginárias, e perigos eminentes que apenas estavam na minha mente, em mais lado nenhum. No entanto, arregacei, ainda mais, as mangas, e voltei ao caminho. Levantei a cabeça, procurei o norte, e lancei-me à caminhada, uma vez mais. Ainda me parecia uma visão labiríntica, aquela, mas olhando para cima, apercebi-me que as minhas hipóteses se renovavam: a lua surgiu de novo, e até as estrelas saíam do manto escuro.

Vai ser fácil, pensei. Enganei-me. Os pés começavam a roer-me a concertação, mas aguentava-se. Apesar de me sentir animado, continuava a brigar comigo à procura da saída que me levasse até casa. Tentei por ali, não tive sorte. Virei naquele cruzamento, pela esquerda, onde pensei reconhecer abrigo, mas falhei novamente. O processo repetiu-se e senti que necessitava de descanso. Acendi um cigarro, deixei-me visível debaixo de um candeeiro, inspirei e expirei enquanto houve tabaco para fumar, e lá segui o traço fictício que engendrei.

Finalmente uma visão familiar. A praia. Consegui ouvir vozes vindas da areia. O vento, as ondas, os bares, as vozes ainda. Tudo me soou mais familiar. Sabia que tinha conseguido encontrar o meu caminho, novamente.

Suspirei, e sorri. Tinha conseguido, finalmente.

Agora era mais fácil, mas não era fácil. Era apenas mais simples retomar. Levantei os colarinhos da minha camisa, pedi aos meus pés para aguentarem um pouco mais e segui. Estava mais em paz, agora. O caminho fazia sentido, de novo.
Só faltava segui-lo. E não perdi mais tempo.

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