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terça-feira, 18 de agosto de 2015

O meu nome é teu

Não sei mais chamar-te, dizia-me ela.

Não sei mais como te implorar que fiques em mim, soluçava ela.
Não sei mais como te dizer “amor”, não sei encontrar o caminho de volta. Perdoa-me, dizia-me, perdoa-me por não saber mais o teu nome como antes.

O norte não me é mais nada, agora que tu deixaste de ter o nome pelo qual te conheci durante tantos meses, anos. Consegues desculpar-me? Consegues perceber-me no meu do meu discurso embelezado e pleno de significado, perguntava-me ao enxugar as lágrimas.

A luz é-me nociva, queima-me a pele. Só o negro me faz sentido. Quero esconder-me, deitar-me, afogar-me no soluço compulsivo da lágrima e esquecer-me que há o mundo na rua a passar. Sabes o que é o vazio, aqui dentro, chorava apontando para o seu peito, como que a segurar o coração nas duas mãos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Princesa

Abeirou-se de mim, assustada.

Dizia-me “papá, caí… rasguei o vestido…”
Não faz mal, princesa. Cair faz parte de aprender a andar, tentei explicar-lhe.
Ela chorava, receosa de uma repreensão da mãe. De uma repreensão que não chegou, pois não havia motivo. Ela é que não o sabia ainda.

Mas papá, a mamã vai ficar triste comigo, e vai ralhar comigo.
Porquê, princesa? A mãe não fica assim triste contigo por causa de um vestido. Devagarinho, as lágrimas começaram a parar. Disse-me que a mãe tinha dito para ela não correr. Que subir às árvores não era aceitável, com o vestido novo.
Mas ser criança implica testar os limites da paciência daqueles que mais nos amam.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Nada será com antes

Terra estranha, esta.
Amigável, mas estranha.

Há algo que se sente no ar, que se sente nestas gentes. Não são tristes, mesmo vivendo debaixo de um clima de restrição.
Aqui as letras são diferentes, as coisas escrevem-se do avesso, para o lado inverso, e os nomes das coisas importantes são ditas e respiradas de outra maneira.

Ainda me custa olhar para trás, e ver o caminho que me trouxe aqui. Começar do zero nunca tinha sido uma opção, mas agora nada há a fazer. As linhas são mesmo diferentes na minha história e tenho que me habituar a essa realidade imposta.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A partida

Malas feitas. Está na hora.

Arrumei tudo dentro da mala, menos quem gostaria de levar. É assim que o mundo gira, é assim que se avança, mesmo contra os mais profundos desejos de cada um.
Não consigo ainda fechar a mala maior. É onde guardo roupas, livros e alguns pedaços deste sítio que agora deixo.

Não cabe tudo. Não cabem as pessoas, mas ainda procuro recantos onde possa colocá-las. Sinto-me idiota por fazer essa busca, mas de tudo o que levo nada poderá servir de aconchego quando comparado a um abraço, um carinho, um telefonema, um beijo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O vento

Soprava forte.

O vento. A mágoa. O medo.
A perda misturava-se com tudo e com o aglomerar de nadas que eu contava na minha mente.

Pesei tudo. Vez após vez. Contei o que ainda não tinha, contrapondo com os restos que me caíam à frente.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Ímpio

Nunca para, o tempo.

Quando o tempo parar, também eu não terei alternativa senão inexistir.
Não quero existir desta maneira, por isso quero que o tempo pare de se contar, de se mexer, de me roubar, de me fazer avançar.
É um avanço mentiroso, pesado, salubre, ímpio. E o tempo torna-me assim. Mentiroso, pesado, salubre e ímpio.

É uma aventura deliciosamente insensível, a minha. Mas cansa, é exasperante em certos tons do dia; mais quando o dia se torna cinzento, quando perde a cor da madrugada. Carrega beleza, ao mesmo tempo, mas é, na sua última instância podre.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Uma e outra vez...

Descansa, agora.

Enquanto acendo um cigarro, ouço o movimento dela nos lençóis. As pernas dela movem-se lenta e seguramente por entre os lençóis que a cobrem parcialmente.
Deixei-a a dormir depois do prazer. Prefiro fumar e olhar encostado na ombreira da porta. Sei lá, parece-me uma pose mais “hollywoodesca” que apenas ficar ali deitado a olhar de lado. E não há ninguém que não goste de olhar a uma distância razoável.

Consigo fumar sem fazer um único som, consigo olhar sem dar nas vistas ao instinto dela.
Tenho sorte, penso. Que bem terei eu feito, e a quem, para me seres dada, assim, de mão beijada?

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Faz-te à estrada

Deixei-me ficar.

Preferi permanecer na rua uns minutos mais. Passei grande parte da noite a deambular, rodeado de vazios mesclados com cheios. Havia muita vida nas ruas da vila, durante grande parte do tempo. De um momento para o outro chegou o silêncio. Uns raros carros foram passando por mim, sinalizando que, para aquelas gentes, tinha chegado a hora de recolher.

Senti uma espécie de alívio, pois as ruas seriam só minhas.


Pé após pé fui aprendendo o caminho das ruelas, entre calçadas e alcatrão, palmilhei não sei quantas