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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Morto de cansaço

Fonte: vilaclub.vilamulher.com.br
Achei-o estranho.
Triste, até...
Vivam-se dias sombrios carregados de sol, e eu olhei-o com admiração mórbida.

Estava muito cabisbaixo, e não dizia uma palavra que não fosse necessária.
E no meio dessa constatação, não tive coragem de o questionar sobre o que o consumia assim.
Às vezes fazemos bem às pessoas só por não lhes perguntarmos nada. Deixá-los permanecer na penumbra até que tenham vontade de ver a luz do sol.

No meio da alma sentia duas coisas: uma vontade tremenda de auxiliar a sair do marasmo, e uma necessidade de o respeitar na sua dor. Fosse qual fosse essa dor
Custou-me vê-lo chegar, a olhar o chão, e manter-se silencioso.
Fui educada e perguntei se estava tudo bem, mas apenas isso. Respondeu que não, mas que não queria falar sobre isso.
Acedi, como só quem já passou por isso pode aceder.

Pediu um café. E nunca me olhou. Veio o café, pagou, agradeceu, misturou o açúcar e pousou a colher no pires de forma displicente.
Mas não bebeu o café. Ao invés respirou fundo, muito profundamente, e falou.
Sem nunca me olhar nos olhos falou. E nunca o ouvi falar assim. Não era um discurso batido, conhecido. Era uma apologia sentida. Não dirigida a mim, mas a quem quisesse ouvir.
Suponho que se alguém, que não conhecesse de lado nenhum, ali chegasse e sentasse a escutá-lo ficaria com a noção de que ele se dirigia a ela.

Nunca o tinha ouvido falar assim... Pedia perdão ao mundo por ser menos que aquilo que o mundo julgava que ele deveria ser. Sem um pingo de auto-miséria, sem um relance de pobreza.
Não o justificava de forma simples. O discurso era profundamente elaborado, e fluía perfeitamente enquadrado com o momento, o tempo, o espaço onde estávamos.

Desde que o vi sonhar à minha frente que sentia que poderia ter uma queda grotesca, mas sabia-o demasiado forte para isso.
Pelo menos era como o idealizava. Intocável, imutável na sua progressão, invencível. O (meu) perfeito exemplo do que é vontade de ser tudo aquilo que o mundo quer para cada um de nós.

Nesse dia deixei de o ver assim. Nunca mais o procurei para conselhos, pedidos, justificações, tempo.
Deixei-o sozinho, procurar o algo que lhe faltava.
Não acho que tenha feito bem, sei apenas que mal não fiz.

Voltei a vê-lo semanas depois. Permanecia igual àquele dia sombrio cheio de sol.
Perguntei-lhe se tudo estava bem. Ele já não me respondeu. Apenas sorriu timidamente e seguiu.
Foi esse o nosso último momento de comunicação, pois perdi-lhe o rasto.

Meses depois contaram-me que tinha sido encontrado em casa, livre de vida, com aspecto cansado.
Tinha adormecido na sala. Encostado a uma das paredes, junto à janela maior sem sinais de dor ou agressões. Apenas cansado.

Nesse dia chorei. Muito. Corri para o visitar no último lugar de todos nós.
Não me lembro de uma única palavra que lhe dirigi, num momento em que nada valia a pena.

Viveu, Existiu, Perdeu, Desapareceu. Cansado.
Parece que, afinal, podemos morrer de cansaço.


1 comentário:

  1. Ainda não lho referi, mas refiro-o agora. A escrita do Vasco tem uma qualidade que, enquanto leitora, claro, e isto é pessoal, me prende a partir do primeiro parágrafo. A leitora que há em mim espera que continue a escrever.

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