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quarta-feira, 17 de junho de 2015

O meu nome é Maria (terceiro e último acto)

Fonte: carlossimo.arteblog.com.br
Passaram mais dias, e mais dias passaram sem que nada em nós mudasse.

Mas a cada hora, a cada respiração das nossas bocas, sentíamos o nosso tempo fugir. Tinha abandonado tudo para estar com a minha Maria, esquecido que tinha uma vida fora das muralhas da nossa sublime paixão. Maria entristecia a cada dia, como se consciente de que uma despedida estava por perto. Eu sentia-a um pouco mais íntima do meu ser a cada momento, mas não conseguia fazê-la esquecer o peso que ela carregava.
O mar grita por mim, dizia-me. Eu percebia mas não percebia porque ela tinha de partir. Porque te chama ele, questionei-a. Ela simplesmente baixou os olhos e abraçou-me, soluçando nervosamente. Preciso que me abraces, abraça-me por favor. A minha Maria chorava, despedia-se a cada pulsação, e eu sofria. Não queria perdê-la, mas ela era-me roubada uma e outra vez pelos pensamentos, pelos chamamentos, pela sensação de despedida que habitava nela como uma semente que crescia e preenchia cada recanto da sua alma.

Adormeceu nos meus braços, nessa tarde. Deixei-a repousar nos lençóis do nosso amor, e parti em direcção à praia. Coloquei o meu ar mais desafiador e perguntei, em silêncio, que queria o mar com a minha Maria. Não tens o direito de ma roubar, não te pertence. Mas seria que ela me pertencia? Ou não era de ninguém, senão dela própria? Eu não tinha respostas, apenas saudades e dores e ansiedade e prazer e dúvida permanente. Já não sabia lidar com nada disto, e olhava os céus cinzentos pedindo uma ajuda que não chegaria jamais.



Sem respostas deixei-me regressar ao nosso quarto. Ela tinha acordado, enfim, e esperava-me.
Calma e serenamente, fumava um dos meus cigarros e olhava a mesma praia onde tinha estado há momentos. Que fazes, meu amor, perguntei. Olhei-te daqui, tive saudades tuas, e fui procurar-te onde te sabia, respondeu-me. Fui tentar resgatar-te ao mar, mas ele não me respondeu, confessei-lhe.
A minha deusa sorriu sem nunca levantar os olhos do chão. Apagou o cigarro, ergue-se e beijou-me o canto da minha boca. Envolveu-me com os seus braços, como sempre fazia, mas desta vez algo estava errado. Senti uma lágrima cair pela sua face. E foi nesse instante que tudo desabou.
A minha Maria perdeu as forças, não conseguiu mais manter os seus braços em redor do meu pescoço e caiu inanimada. Consegui impedir que o seu peso morto caísse no chão do nosso quarto, ao mesmo tempo que o pânico tomou conta da minha mente. Gritei, supliquei, chamei-a pelo nome, Maria!, mas a minha deusa não reagia. Um pulso muito fraco era o que sentia na pele dela, e mais nada me restou senão pedir ajuda.

Chegaram na ambulância para me roubarem a minha deusa. Lá fora o mar tornou-se violento e ouvia-o embater contra a praia e o pontão. Muita violência, revolta! O céu fechou-se mais, escureceu mais, e lágrimas dele caíram. O mundo à minha volta alterava-se, e a natureza também.
Acompanhei a ambulância até ao destino, onde me pediram que aguardasse, que me chamariam quando soubessem algo. Ouvia vozes mais altas quando as portas se fecharam. Fiquei só, pensativo, preocupado, com o peito mais apertado que em qualquer momento da minha vida. Senti que cada segundo demorava horas a passar, e naquele corredor revi cada momento que partilhei com a minha Maria. A minha deusa não me deixava, pelo menos na minha mente. Combati, vezes sem conta, cenários macabros de partidas deste plano, agarrei-me a esperanças que me segurassem a este mundo. Aprendi a rogar a Algo que não sabia nomear que não me roubassem da minha pérola.

Os relâmpagos ouviam-se lá fora, cada vez mais presentes, e alguém balbuciava que estavam a aproximar-se de nós. Não prestei muita fé naqueles raciocínios e permaneci nos meus pensamentos. Sentia saudade mais forte, agora. Olhava à minha volta e ninguém surgia para me confortar ou perguntar nada, muito menos informar. E mais momentos se passaram. Não sei quantos, mas deverão ter sido demasiados. Até que o momento de enfrentar as explicações chegou.

O homem da bata branca e do estetoscópio aproximou-se, e tocou-me no ombro.
Ela está muito fraca, disse-me, mal consegue reagir a qualquer estímulo e poderá, a qualquer instante, cessar de respirar.
Não respondi, permaneci atento e incrédulo.
A infecção está muito disseminada, nesta fase, e afecta-lhe os pulmões de forma muito intensa, e custa-me a crer como ela foi capaz de aguentar tanto tempo com tanta vitalidade. Lamento, mas nada mais há a fazer neste momento. Se me acompanhar, eu levo-o até perto dela. Pelo menos é-lhe permitido permanecer junto dela, nestes instantes.

Aproximei-me da minha perdição, e sentei-me junto dela. Toquei-lhe a face, e pareceu-me que acordava. Lá fora, pela janela via-se a chuva torrencial que caía violentamente, acompanhada pelos relâmpagos cuja luz entrava pelo quarto. Então, amor? falou-me. Não te preocupes, porque breve sairemos daqui de mãos juntas até ao nosso quarto para existirmos até ao fim do sempre…
Não consegui articular mais que soluços quando ela disse aquelas palavras. As minhas lágrimas eram mais fortes que as palavras, ao assistir à fuga de vida da minha Maria.

Porque não me disseste, perguntei eu. Porque não perguntaste, respondeu ela. E continuou. Se te contasse iríamos sobreviver até que o dia chegasse. Assim pudemos verdadeiramente existir e amar sem preocupações exageradas sobre o amanhã. Foste o que melhor me poderia ter acontecido, meu amor. Fiquei consciente, algures no meu íntimo, que nada de errado existia naquelas palavras.

Beijei-a suavemente nos lábios. Um último beijo. Uma última esperança que o beijo lhe trouxesse vida. Mas sabia que a minha Maria ia partir a qualquer instante. Abraça-me, por favor, pediu a minha deusa, e eu acedi e segurei-a. Beijando-lhe a testa e chorando a hora que se aproximava, abracei a minha Maria. Amo-te meu amor, suspirou, e respirou uma última vez.

Os céus lançaram salvas e mais salvas consecutivas, em sofrimento pela partida da minha Maria, e a chuva caía de forma ainda mais violenta. Nada mais podia fazer senão chorar copiosamente, até que tudo parou. A chuva parou. O mar acalmou. Os céus abriram. As minhas lágrimas secaram. Mas não larguei a minha Maria, nem tampouco lembro o momento que a soltei.

Anos passaram, pessoas comigo se cruzaram, juras de amor se trocaram.
Mas nunca, nunca da minha Maria soltei as minhas amarras, esperando o dia em que me possa novamente reunir com a minha deusa.

A minha perfeita Deusa.



A minha Maria.



(fim)

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