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terça-feira, 9 de junho de 2015

Cronologia de uma queda




Carrego às costas o seguro.

O meu seguro de vida, que me salvaguardaria da tua desistência de mim. Temo esse dia, porque o sei possível. O meu para-quedas é daqueles que pode não abrir, eu sei.

Mas preciso dele.
Preciso porque sei que a estrada em que caminho pode abrir-se de repente, com a tua partida. Se tu faltas, falta-me o chão. Se me falta o chão é porque já não estás, e a queda-livre pelo teu amor desaparecido torna-se a minha nova realidade.

É um seguro, sabes? Pesa este meu seguro, mas dele preciso.
Percebes?


Dás nomes a esta minha mochila. Insegurança, Medo, Receio, Falta de Amor Próprio. Já não sei todas as expressões por ti usadas. Talvez tenhas razão. Talvez não.
Que importa?
Vais perdoando estas minhas fraquezas, vais engolindo o facto de eu te mostrar que tenho necessidades de segurar a minha vida a um para-quedas que pode estar defeituoso, um seguro que não abrace todas as coberturas que a minha alma queira subscrever.

Esta estrada que percorremos os dois. Olha para ela. Está cheia de buracos, de falhas, rachas no solo que são verdadeiras armadilhas e hipotéticos erros que possa cometer. Por vezes quero rodear estes socalcos e ir pelo caminho mais fácil.
Cobarde, chamo-me. “Tens razão” confirmando-me a alcunha menos desejada.
Olhas-me com amor, olhas-me com prazer, lês-me os meus medos e vais perdoando. E durante esse tempo vais aguentando. Até quando, pergunto eu. Até me fartar, respondes tu.

A mochila está pesada. Juro que está.
Já me arrasto pela estrada, e não consigo evitar todos os buracos, e acabo por me ir lesionando um pouco mais a cada dia. A cada hora. A cada discussão. A cada lágrima que sai em silêncio.
Tu ainda caminhas a meu lado, é verdade, mas já te custa carregar-nos aos dois. Puxas, levantas-me quando eu caio, e quando cais tu demoro mais a conseguir arranjar posição para te levantar, também.

O cansaço, o seguro, a luta, os socalcos.
Sobrecarregam-nos em demasia. Já noto que preferes ir andando sem me segurares a mão.
“É mais fácil” reclamas tu. “Está bem” calo eu.
Não sei o que se passa. O medo cresceu e as coberturas do seguro também necessitam ser reforçadas, mas aumentam o peso. Este meu seguro, este meu para-quedas está com o cordão de fora, preparando-se para ser lançado a qualquer momento.
Não sei mais esconder o medo da tua partida, de maneira que não te sobrecarregue também.

Tenho medo que partas, amor, mais hoje que ontem.
“Quanto mais medo tens, mais me prendes. Quanto mais me prendes, mais me quero soltar. Quanto mais me quiser soltar, mais rápido chega o fim”.
Sempre tiveste o condão de te antecipar. Desde o princípio.

De repente, olhaste-me. Assustei-me porque choravas muito.
Não me conseguias olhar, e assustei-me.
Olhei à volta. A estrada cedeu e deixei de ver. O chão fugiu e deixou de haver horizonte abaixo de mim. Caio em espiral a caminho de um chão que não vislumbro.

“Amor!! Segura-me!” implorei!!
Mas já não me podias responder. Todas as respostas e avisos e cuidados tinham sido proferidos antes do momento!
O para-quedas! O para-quedas não abre! Estou em queda-livre sem ter onde me segurar, agarrar, respirar. O cordão partiu. Não há seguro que me valha, agora.
O meu seguro de vida falhou, talvez porque nunca fora real.
Foi apenas um fardo imaginário que escolhi carregar e que me quebrou. Que te quebrou a ti. Que nos quebrou a nós.

E agora nada mais posso fazer, senão sentir-te a falta.
Sem para-quedas.
Sem seguro.
Sem nada.

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