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terça-feira, 30 de junho de 2015

A Morte saiu à rua

Fonte: fioapavioblogue.blogspot.com
Partiste.
Foste para outro lugar.
Eu não queria, mas não dependia da minha vontade. Não estava ao meu alcance prender-te. Por isso, partiste. E foste para outro lugar.

Por vezes a vida leva-nos o que mais desejamos ter por perto. Por incapacidade nossa de manter a presença do outro alguém. Pelo cansaço do trabalho que dá manter o outro alguém na nossa esfera. Por causas naturais que reclamam os corpos e as almas em conjunto.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Lado nenhum

Perguntou-me, muito sério, no café da esquina:

- Achas que vais a algum lado com isso da escrita?

- Acho. Sou bom o suficiente para isso – respondi, confiante.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Lamento

Perguntei-lhe, do alto dos seus 18 anos:
- Que queres ser quando fores grande?
- Feliz - respondeu, prontamente.
- Lamento, mas já não vais a tempo.

Afastou-se de mim, a chorar, e não mais a voltei a ver. E ainda bem. Sonhar tão alto nunca fez bem a ninguém assim tão novo.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O meu nome é Maria (terceiro e último acto)

Fonte: carlossimo.arteblog.com.br
Passaram mais dias, e mais dias passaram sem que nada em nós mudasse.

Mas a cada hora, a cada respiração das nossas bocas, sentíamos o nosso tempo fugir. Tinha abandonado tudo para estar com a minha Maria, esquecido que tinha uma vida fora das muralhas da nossa sublime paixão. Maria entristecia a cada dia, como se consciente de que uma despedida estava por perto. Eu sentia-a um pouco mais íntima do meu ser a cada momento, mas não conseguia fazê-la esquecer o peso que ela carregava.
O mar grita por mim, dizia-me. Eu percebia mas não percebia porque ela tinha de partir. Porque te chama ele, questionei-a. Ela simplesmente baixou os olhos e abraçou-me, soluçando nervosamente. Preciso que me abraces, abraça-me por favor. A minha Maria chorava, despedia-se a cada pulsação, e eu sofria. Não queria perdê-la, mas ela era-me roubada uma e outra vez pelos pensamentos, pelos chamamentos, pela sensação de despedida que habitava nela como uma semente que crescia e preenchia cada recanto da sua alma.

Adormeceu nos meus braços, nessa tarde. Deixei-a repousar nos lençóis do nosso amor, e parti em direcção à praia. Coloquei o meu ar mais desafiador e perguntei, em silêncio, que queria o mar com a minha Maria. Não tens o direito de ma roubar, não te pertence. Mas seria que ela me pertencia? Ou não era de ninguém, senão dela própria? Eu não tinha respostas, apenas saudades e dores e ansiedade e prazer e dúvida permanente. Já não sabia lidar com nada disto, e olhava os céus cinzentos pedindo uma ajuda que não chegaria jamais.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Cronologia de uma queda




Carrego às costas o seguro.

O meu seguro de vida, que me salvaguardaria da tua desistência de mim. Temo esse dia, porque o sei possível. O meu para-quedas é daqueles que pode não abrir, eu sei.

Mas preciso dele.
Preciso porque sei que a estrada em que caminho pode abrir-se de repente, com a tua partida. Se tu faltas, falta-me o chão. Se me falta o chão é porque já não estás, e a queda-livre pelo teu amor desaparecido torna-se a minha nova realidade.

É um seguro, sabes? Pesa este meu seguro, mas dele preciso.
Percebes?

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Dia da criança



O dia da criança chega ao fim em breve.

Perguntaram se eu tinha saudades de ser criança. Tenho. 

Mas tenho porque ser adulto, em demasiados momentos do dia, é uma real merda.

E não me importo de ser "asneirento" ao exprimir-me. Não tenho, e não vou ter, papas na língua, e não gosto muito de censura, muito menos auto-censura que hoje é a coisa mais presente no dia-a-dia de cada um, camuflada, mas presente. 

Ser criança significa que nos passam ao lado todas as merdas que atualmente insistem em rodear a sociedade, as relações interpessoais, as relações institucionais. E olhem que bosta a mais já enjoa. Bosta deve ser sempre demenos, nunca demais, mas os dias de hoje estão carregados dela. Basta irmos à varanda e vemo-la passeando, mostrando-se, sussurrando, roncando, barulhando até à exaustão.

Ser criança é bom, mas se há coisa que as crianças hoje não são é precisamente ser crianças. São enfiadas em ATL's porque a sociedade exige que os papas e mamas estejam "ocupados" a (sobre)viver ao invés de educar, cuidar, amar, tornar os pequenos em pessoas úteis e interessantes. Em vez disso ser criança é ter telemóvel topo de gama, ter tablet, competir na escola para poder competir quando tiverem a nossa idade. Ser criança, hoje, é ser pressionado com provas e provações, já não é ser pressionado pelo vizinho do andar de baixo a ver quem ganha a jogar ao berlinde ou à apanhada ou a ver se a malta da rua de cima nos ganha no jogo de futebol inter-ruas que decide o campeão daquela semana.

Não. Hoje ser criança é ser educado para esquecer que o dia tem horas para brincar com os pais, lembrar que há o inglês, o futebol, a natação, a catequese, tudo menos estar com os pais a horas decentes e não apenas quando têm que fazer os trabalhos, tomar banho e comer a correr para amanha levantar as 6:30 da manha e começar a mesma merda do costume.

Ser criança pelo menos, se tem de ser tão sufocante, que tenha uma recompensa: não perceber toda a bosta que rodeia ser adulto. 

Porque, crianças do mundo, ser adulto por vezes é a pior coisa do mundo. Podem acreditar, eu tenho umas costelas de adulto, e se duvidarem perguntem aos papas e as mamas quando os virem no fim‑de‑semana ou assim (que é quando terão 5 minutos do tempo deles para conversar, entender, saber que são os vossos pais, não apenas aquela malta que vos obriga a fazer os trabalhos, tomar banho e deitar cedo).