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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Salva-te sozinho

Filipa foi uma mulher que me fascinou. Especialmente porque nunca me ligou nenhuma, exceção feita àquela vez que me ligou para se despedir.
Habitou sempre em mim um sentimento de posse por alguém que nunca imaginou sequer trocar mais que duas palavras. Esse alguém era a Filipa.
A Filipa sempre foi uma besta comigo, mas uma besta requintada. No jargão mais ordinário poderia dizer sobre ela que “era muita puta”. Não era uma oferecida e contavam-se pelos dedos de uma mão o número de homens que a possuiu entre lençóis. Não. Ela era muita puta porque era tão sabida quanto uma puta o é. E esta comparação não é para todos entenderem. Só aqueles que nunca estiveram com uma puta irão apreender o que significa.

Sabia muito sobre viver, sem ter o peso de uma idade que levasse a essa conclusão. Raro. Muito raro nos dias de hoje.

E isso cativou-me desde a primeira vez que a ouvi recitar Beckett. Uma mulher e as palavras de Beckett é uma combinação que conduz o mais puro dos homens à perdição em menos de um fósforo. Nenhum ser humano macho consegue pensar em algo mais senão ela e as palavras dele, após assistir a esse momento.
Foi a primeira imagem da Filipa que guardei. Ou som, se preferirem. Amei-a naquele momento, como só os tolos podem amar: estupidamente.

sou esta areia que se esvai
entre o cascalho e a duna
a chuva de Verão chove-me na vida
sobre mim a vida que me foge persegue-me
e vai acabar no dia do começo

caro instante vejo-te
nesta névoa que se levanta
quando não tiver de pisar estas longas soleiras movediças
e viver o espaço de uma porta
que se abre e que se fecha


Quando os meus olhos conseguiram encontrar a fonte do som de onde fluía Beckett, petrifiquei mas fiz-me forte e deixei-me ali ficar. Como se conseguisse sair dali depois de a olhar.
Dizia cada sílaba com tanto prazer que se tornava desconcertante. Devo ter ficado parado no tempo pois parecia que só ela ali estava, e mais ninguém a escutava. Só eu. E ali ficávamos os três: Beckett, eu e a Filipa.
Quando terminou o meu exercício de estupefação consegui movimentar as minhas pernas na direção dela. “Brilhante”, disse-lhe. Dela nada mais que um “obrigado” seco com umas gotinhas de “sei que sou boa” com um aroma de “já te conheço” e temperado com “esquece-me”.
Restou-me engolir em seco e continuar na minha estupidificante paixão, terminar o meu gin e ir para casa. Não a esqueci, não era possível. Indaguei junto das pessoas que estavam na festa sobre ela. Não mais que um nome me forneceram: Filipa. Nenhum dos meus “amigos” me deu qualquer informação extra que me permitisse encontrar a Filipa. Achei tais manobras demasiado protecionistas, mas nada podia fazer. E passaram semanas, e cada momento de lazer que tinha apenas produzia a imagem da Filipa. Por mais que tentasse saber, ler, pesquisar algo sobre ela nada me foi dito; tudo o que pudesse saber tinha sido sonegado pelas mais altas esferas de poder, como se de uma conspiração de assassinato se tratasse.

Um dia solarengo em que o trabalho consistia em apreciar Lisboa da minha janela, o meu telefone tocou. Não sei explicar mas parecia ter um toque raivoso. Renitente atendi.

- Estou?
- Vou dizer-te isto uma vez: se babaste por me ouvir, ver, apreciar, problema teu. Mas a tua busca por mim termina. Agora!
- Filipa?
- Entendeste o que te peço? Eu não quero encontrar-te novamente.
- Peço perdão por te procurar. Perdi-me algures naquela noite e julguei que me poderia reencontrar se te reencontrasse ao mesmo tempo.
- Não sou um mapa para procurares um destino.
- Desculpa se te quero rever. Não te desejo mal.
- Eu sei. Apenas procuras em mim algo que só tu tens. Ninguém se pode encontrar senão em si mesmo. E eu não quero salvar-te de nada, nem de ti mesmo. Prossegue a tua vida.
- Ensina-me a seguir. Não conheci ninguém com uma combinação como tu.
- Não posso, lamento.
- Porquê?
- Eu sei quem és. Sei o quão miseravelmente feliz me poderias fazer. Mas eu não vou jamais correr o risco de te pertencer. Se calhar pertenço já, algures na tua torcida mente, mas não mais terás. Salva-te. Sozinho.

Não me permitiu articular resposta.
Semanas passaram sem mais nada soubesse dela. Salvei-me. Sozinho. Mas teria sido perfeito se tivesse sido a Filipa a fazê-lo.

Desapaixonar-me dela foi um purgatório dantesco, mas antes tê-la amado que não a ter vislumbrado jamais.

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