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sexta-feira, 22 de maio de 2015

O meu sonho chama-se Petra

Fonte: amorislumineaeternam.tumblr.com
Sempre gostei de livrarias.
Abomino o digital em que tentaram transformar o papel.
Considerei sempre que era um sacrilégio destruir o que tanto trabalho deu a construir. É um local onde se pode procurar bênçãos, saber, amor, cordel, o que nos aprouver. E por isso considero que o livro merece, e merecerá sempre, que seja parido em papel. Gosto de livros.
E sempre gostei de livrarias.

Normalmente, passo muito tempo na livraria vermelha e branca da minha terra natal, aquela que fica junto à superfície comercial demasiado megalómana para as ambições atuais. Gosto de lá vaguear, não pelo atendimento (que sempre me passou ao lado), mas porque me sinto em casa. É mágico ali estar, e sempre que me desloco até à livraria encontro um sem-número de desejos ardentes que necessito saciar. Tal como o foi a Petra.

Petra… O nome tem algo de místico. E ela também tinha.

A Petra foi daquelas doces marcas que para sempre ficam gravadas na nossa consciência que queremos guardar no mais especial dos locais cardíacos que possamos encontrar. Emanava magia, despertava a minha curiosidade, fez-me ansiar por estudar o oculto que ela guardava dentro dela e que mais ansiava ser descoberto. A curiosidade matou o gato, dizem eles, mas no meu caso matou a sede que senti por ela. Instantaneamente. Desejei sabê-la. Precisei dela.

Quando me dirigi a ela, foi como se uma outra força me guiasse na sua direção e, sem surpresa, ela já me aguardava. Tinha fechado e pousado o livro que a consumia e deixou-se esperar por mim. Uma imagem de Helena de Troia esculpida pelo mais atento artista. Era assim que a via. Ainda é assim que a recordo. À Petra. Olhos castanho-esverdeados perfeitos, carregados de uma energia vital impossível de quantificar, que lhe davam um ar sereno.
Disse-lhe algo desajustado e nervoso, ao que ela me respondeu com o sorriso das ninfas, pedindo-me para sentar junto a ela. Por dentro do meu corpo o calor espalhou-se e o feitiço que ela me lançou ficou concluído.
Roguei-lhe que saíssemos dali, pouco tempo depois. A minha sede por ela fez-me segurar aquela mão fria e arrastá-la para junto de mim.

No momento que saímos da livraria vermelha e branca pedi-lhe:
- Não me fujas.
- Não te fujo – prometeu-me.
- Que me fizeste?
- Aquilo que me pediste para te fazer. E pediste-me, agora, para ficar. Mas és tu quem fica.
- Anseio-te com um simples olhar. Não faz sentido.
- Não precisas procurar razões para nada. Eu não tenho respostas que queiras ouvir. Agora, vem comigo, e não fujas.
- Não fujo.

Levou-me. Leu-me de cada vez que me fitou com os olhos castanhos-esverdeados perfeitos. Fez-me esquecer a livraria vermelha e branca, e recanto onde me lançou a doce praga.
Olvidei tudo para me focar nela. Guardou-me para ela, mas não me permitiu que nada mais guardasse senão o sabor do suor que dela fluiu. E o beijo vermelho que ofereceu uma e outra vez e mais infinitas vezes...
Encostou cada centímetro do seu corpo junto ao meu, e possuiu-me da única forma que poderia fazê-lo: sem que o amanhã importasse.
Senti-a, amei-a, suspirei-a, enlouqueci até que nada ouvisse ou sentisse. A minha Petra fazia-me ser dela sem que eu lutasse contra isso. Não sei quantas horas, noites, dias passaram até que ela me libertasse do seu jugo. Sei apenas que acordei na minha cama, sozinho, perdido e encontrado, saciado de magia e prazer.

A minha Petra? Não sabia onde estava. Nada dela me restou senão o odor, a memória do que entendeu oferecer-me.
Sonhei? Vivi? Ambos?
Não vi a minha Petra, a não ser nas suas visitas nos meus sonhos. Ali encontrei-a sempre que se deixou encontrar, apenas para me tornar dela de novo. Uma e outra e outra vez.

Até ao dia que partiu do meu mundo sonhado.

Não te sei mais, Petra. E sei-te por completo, mesmo assim.

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