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quarta-feira, 13 de maio de 2015

O meu nome é Maria

O meu cigarro ainda queima, enquanto me perco a olhá-la. À Maria.

A Maria (há sempre uma Maria) pavoneia-se em frente ao vento que a abraça num aperto suave pelo qual ela se apaixona irremediavelmente. Como eu me apaixonei por ela.
Não sei precisar, agora, se foram os lábios que me entregaram esse feitiço no momento que a beijei na cama. Provavelmente terá sido esse o click inicial, mas pensando bem, não foi bem aí.

Conheci-a numa estúpida festa, daquelas banais para as quais somos solicitados sem sabermos bem a necessidade ou o porquê. E por essa mesma razão vamos – todos temos um gene de estúpido em nós. A Maria só sabia ser o centro das atenções, precisamente pelo facto de não o querer ser, atraindo ao seu redor um número considerável de homens que queriam conhecer o que escondia Maria.
Mas apenas ela poderia lidar tão bem com o assédio desavergonhado. Só ela os saberia colocar a pensar ainda mais porque estaria ali, sozinha, sem complexos.
Não podem sequer compreender-me, suspirava Maria. Sorria amavelmente, mas não era sincera. Notava-se que queria sair dali, mas nenhum dos ignóbeis sabia a frase certa a proferir.
Reencarnação de uma deusa grega, chamei-lhe eu, mas sem que ela ouvisse, claro. Nunca se deve comparar uma mulher a uma deusa em voz alta. Não é apropriado, contam as regras da boa educação.

Mas Maria ouviu-me, pois dirigiu-me os olhos verdes. Aqueles espelhos onde não queremos ser refletidos por ficarmos sem defesa e sem máscara. Só a Maria, a minha doce Maria, poderia despir-me assim. Nunca vou perceber como me ouviu a Maria.
Gentil, como só uma mulher digna desse nome sabe ser, pediu desculpa, deixou embeiçado mais um ignóbil e dirigiu-se a mim. Abraçou-me como se quisesse dançar, gemeu baixinho como sentisse alívio e sussurrou-me:
- Imploro-te, tira-me daqui.

Não consegui proferir uma única palavra. Agarrei-lhe a mão sem apertar (nenhuma mulher gosta de se sentir apertada, muito menos presa) e trouxe-a até ao jardim.
Nunca ouvi ninguém suspirar como a minha Maria. Olhou-me triste, mas sorriu para mim.
- Obrigada. És um anjo. Estou farta, sabes? Mas salvaste-me.

Não fui capaz de falar, novamente. Sorri timidamente, ajeitei os óculos no meu nariz e simulei uma vénia. Pensei “Não precisas agradecer-me.”
Assustei-me, pois ela ouviu-me de novo.
- Obrigada, sim. Viste-me, percebeste que não queria estar ali. Vamos embora? Levas-me para um lugar teu? Não me interessa quem és, não é importante. Mas adoro que sejas a personificação silenciosa do que necessito. Vamos?

Afastei-me do seu caminho, e deixei-a passar, como o cavalheiro que penso ser, e aí senti algo novo.
Tão novo que não consegui racionalizar o que estava a ver, cheirar, inspirar.
O vestido. Nem tinha observado as suas vestes de deusa. Percebi os seus contornos todos. Entendi o seu cheiro, a forma como movia as mãos.
“Apaixonei-me” pensei. Sabia que era obviamente mentira, mas disse-o para mim mesmo.

Permaneci imóvel, apenas apreciando a Maria, e a forma como caminhava no ar.
Deusa, chamei-lhe, e ela parou. Estática durante segundos, e virou-se em seguida para mim mostrando toda a ternura que um sorriso pode encerrar.
Esticou-me a mão, de novo, segurou-me e ao chegar ao seu lado, envolveu o meu braço e encostou a cabeça. Perdi-me de amores por ti, Maria.

Caminhávamos pela rua sem ouvir o que quer que fosse, sem ver se o caminho estava certo. Nem importava, algo nos guiava até um lugar onde pudéssemos existir.

Parámos em frente a um hotel que nem sabia que ali estava, e reservámos o nosso ninho para aquela noite. Pela primeira vez desde o nosso semi-abraço ouvimos um som. Era o som dela, era o chamamento do mar. Sei que a chamou pois ela tremeu, olhou assustada para mim. Novamente olhou o negro horizonte, de onde apenas se ouve o rebentar de ondas, e encostou de novo a mim.
Falei pela primeira vez:
- Tens de ir?
- Não. Não agora, mas terei um dia. Hoje vamos apenas… existir.

Quando entrámos no quarto, a Maria abraçou os seus próprios braços. Tremia com frio. Abracei-a por detrás, e soltei um suspiro mais profundo que um abismo.
Estou aqui, pensava.
Ela sempre me ouviu quando falava em silêncio.
- Eu sei que estás.

Beijo. Beija-me. Unimo-nos pelos lábios. Nada mais faltava, agora.
Apaixonei-me. Entreguei-me, Maria. Não me resta mais vontade própria. Ordena-me e eu farei como desejas.
Conta-me como te batizou este mundo que não te merece.
- Maria. Sou Maria. Não fales mais, por favor. Existe, apenas. Vamos apenas existir enquanto podemos ser.

Existimos enquanto Morfeu não nos levou para a terra dos sonhos. Sucumbimos, apenas para acordar ainda mais fatigados pela nossa existência.
Olhamo-nos como se casados estivéssemos há anos. Não havia vergonhas, só júbilo.
- Maria, vamos. Querias ir para um lugar meu não era? Vamos então.




(Continua)


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