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segunda-feira, 18 de maio de 2015

O meu nome é Maria (segundo acto)

Fonte: bbbdofabiobollis.blogspot.com
(continuação)

Levei-a no meu carro até à única praia que considerava minha.
Mais banal que qualquer praia, aquela era a minha. As ondas tinham um volume diferente, um ritmo só seu. E meu. A espuma, a areia, tudo era meu, porque aquela praia parecia desenhada para mim por Alguém maior que esperou que chegasse à idade adulta para a saber apreciar.

Assim que chegámos a minha Maria sorriu-me. Partilhou um afecto na minha face e saiu, em passo rápido em direcção ao areal que chamava por nós. Observei-a dentro do carro, e decorei na minha mente cada movimento do seu corpo. Como se descalçava, a maneira como abria os braços para receber o pouco vento que ali soprava, e o momento em que os olhos perfeitos dela se encontraram com os meus.
Escondia-me dentro do meu carro, encostando a cabeça à minha mão, refletindo que presente era este que me tinha sido oferecido. Nesse mesmo momento senti-me mínimo, como se nada tivesse feito para merecer a minha deusa.

Maria chamou-me com a sua mão. Clamava, em silêncio, que me aproximasse dela. Como seria de esperar, não me contive e fui ter com ela. Também eu me descalcei, dobrei a ponta das calças e encontrei-me face a face com ela, de novo.
“Estou aqui” pensei. Abraçou-me. Um daqueles abraços de despedida que não sabemos bem como descrever, mas que sentimos ser um adeus. E apertou-me mais. E soluçou.
Eu conseguia sentir a minha camisa humedecer nos ombros, e sabia-a a chorar. Retribui o abraço que me entregava, na esperança vã de a acalmar, suplicando que parasse com aquele choro que fazia doer a minha alma.


Quando finalmente me enfrentou, pediu simplesmente que fosse com ela até à água para nos “baptizarmos em uníssono, cravar este momento” no único lugar onde nada fica imóvel e tudo é roubado com a passagem da espuma que tudo leva.
Segurei-a nos meus braços e deixei-me levar pela corrente. Ali, abraçados, ficaríamos enquanto o frio não nos assaltasse e roubasse daquele momento.
A minha Maria soluçava de novo. Sucumbi com ela, e despedi-me da minha Maria, muito antes de partilharmos o nosso último suspiro juntos.

Relembrava, em contínuo, a nossa troca de palavras da noite anterior. Eu e a minha Maria, porque há sempre uma Maria na vida de um homem como eu.

O sol achou por bem secar-nos ao sair do manto de água que nos envolvia, embora tenha demorado umas boas duas horas até que conseguíssemos sentir-nos secos, e durante todo esse tempo não trocámos mais que leves respirações, olhares tímidos, pedidos de desculpa sem som, e culpa de não sabermos que fazer em seguida.
Mas não importava, pensei, estou contigo, Maria, estou bem. Até ao momento em que fique mal, estou bem.

A minha deusa deu um safanão naquela malfadada tranquilidade e puxou-me. Dali fomos não sei para onde, vá-se lá saber porquê, perdidos num amor que não sabíamos definir.
Passaram-se dias de puro êxtase, misturando-se outros de pura saudade que ainda não tinha razão de existir, e não fazia mal. Existíamos apenas, e seria isso a única coisa que importava. A nossa única promessa era existir enquanto pudéssemos, até que a minha Maria deixasse de ser minha, e partisse. Ou eu.

Permanecemos, existindo, amando, sendo amados, expulsando um sem-número de demónios, apenas para permitir a entrada de outros.

E existimos, até ao dia...
 


(continua)








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