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terça-feira, 12 de maio de 2015

Dia Mundial da Fibromialgia

Fonte: Google
Tenho dores.

Levanto-me com dores.
Nunca estou sozinho. Estou sempre com as dores.
Perdi a conta aos dias em que mal me pude movimentar. Sobrevivo continuamente com a noção que nunca terei paz.
No entanto, recordo com carinho cada dia em que pude viver livremente, sem nunca ter noção que estaria encarcerado em breve. São boas recordações, sabes?

É bom ter algo a que nos possamos agarrar para nos aliviar os momentos em que mal nos conseguimos suster vivos.
Medicamentos e consultas. Consultas e mais medicamentos.
Poderia resumir a minha vida nessas duas palavras. E mais custa pelo facto de estar só. Sempre só. Só com as dores que me acompanham sem tréguas, sem férias, sem feriados desde os últimos 14 anos.


Nem o confidente (é o nome que dou ao psicólogo) tem respostas ou conselhos para me dar. “Temos que fazer o melhor com o que temos”. Se não soubesse diria que era um padre disfarçado de clínico.
E já nem vou alongar-me sobre o médico. “Sabe? Estes medicamentos são bons, e oferecem algum alívio, mas dias haverá em que nem isto lhe conseguirá aliviar o peso da dor.”
Sabes? Ele tem toda a razão.

Hoje não fui trabalhar. Como poderia?
E como pode o meu patrão perceber algo que não conhece? Mas aguenta-me por lá. Deve ter uma costela de samaritano, certamente.
Não consegui levantar os braços esta manhã. Não consegui mover os pés. Rebolar da cama estava fora de questão, porque não existiu sopro de movimento em mim.
Quem me dera que fosse uma qualquer dormência e não estas milhares de agulhas que se me cravam na carne, nos ossos, na alma.

Sinto-me desfalecer de cada vez que respiro. Como se a cada batida do coração, cada inspiração, cada acordar fossem inúteis.
Não sei que faço aqui, perdoa.
Não, guarda as palavras. Não conheces nenhuma frase, nenhum texto que me possas oferecer para me conceder alento nestas horas, nesta vida.
Estou perdido. Estou ausente.
Estou a desaparecer internamente, dentro deste corpo que parece desfazer-se todos os dias, um pouco mais.
Espera! Não vás! Eu também preciso de momentos em que tenho nojo de mim. É um direito que me assiste, e nada tem de inferior. Ninguém, mais que eu, luta todos os dias para superar este obstáculo incurável que me mandaram.

Peço-te:
não me julgues, escuta-me.
não tenhas pena de mim, ampara-me.
não me afagues o cabelo, seca-me as lágrimas.
não me digas que tudo vai correr bem, ajuda-me a viver.

Promete. Fazes isso?
Por mim? 

2 comentários:

  1. Um texto muito bonito que retrata a dor com que muitos vivemos todos os dias... Obrigada!

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  2. Que profundo, é bem assim...
    Não estás só...
    Há mais lágrimas Rolando a seco por aí, mas se essa dor vira poesia...
    Imagine um dia de riso vivido...
    Eu não tinha problemas outrora quando pensava que tinha...
    A dor está aqui, e o que é pior não mata... Resta nos viver essa vida sem vida...E um fundo vago de esperança que isso vai passar...

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