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terça-feira, 19 de maio de 2015

Alegria de viver

Fonte: pensamentossemnexo.com
Se soubesse o quanto, ainda hoje, preciso dela talvez tivesse preferido nunca me ter cruzado com a Joana. Ou talvez não. Dói sentir-lhe a falta... E é tão bom, ao mesmo tempo...

A Joana possui aquilo que muitos de nós invejamos: pura alegria de viver.

Toda ela é um hino ao milagre de estar vivo, e isso é raro. Muito raro. Tão raro que não me lembro de ter conhecido alguém, homem ou mulher, que existisse desta forma sublime.
Lembro-me de quando nos encontrávamos ocasionalmente, n’A Mexicana, depois das entediantes sessões de dissertação do Professor Alves, o nosso humor se alterava apenas porque a Joana se sentava na esplanada connosco. Era uma emissária dos céus para nos dizer que mais há que apenas sobreviver.

No fim de tantos encontros movidos pelo acaso, juntei todos os pedaços de coragem que a minha mente permitiu e convidei-a para jantar. Pareceu-me uma tarefa hercúlea mas senti que precisava dela, de a ouvir, sentir que falava só para mim. Graciosa como só ela o soube ser, aceitou com um sorriso tão honesto quanto perfeito.
Quando chegou a minha casa, mostrou-se algo desconfortável, não pelo facto de ali estarmos entregues a nós mesmos, mas porque lamentava não ter conseguido escolher um vinho em condições, digno de um primeiro repasto.
Ri-me. E ela comigo riu. E soube bem, soube muito bem.


À noite, a essa perdi-lhe o tempo, pois tempo foi coisa que por ali pareceu não passar, e ainda bem porque ao tempo não o convidei a partilhar a Joana. Naquela noite só a mim me pertencia esta mulher.
Joana. Um nome tão simples mas que a ela assentava bem, pois a simplicidade da sua beleza era um cartão de visita que se recebia de braços abertos.
A (minha) Joana… Morena com caracóis que o vento gostava de beijar, olhos castanhos que brilhavam apenas porque sim, e uma pele que chamava pelo mais comum dos mortais.
Vi cada expressão, cada movimento das mãos, cada movimento do vestido branco, bebi cada palavra que dela saía com aquele vinho de dois euros que tinha trazido. Enfeitiçava-me em permanência nas palavras dela, e poucas conseguia articular, em dados momentos. Mas a Joana não se importava.

Partilhou as viagens de sonho que ainda não tinha feito, ao que eu amavelmente respondia “quem me dera fazer uma viagem assim” ao que ela retorquia “não vais porque não queres”. E eu concordava sempre, nada mais me restava.
Foi quando tirei os óculos que a expressão dela mudou. Foi a vez dela me fixar e deixar cair a cabeça para um e para o outro lado enquanto me lia a alma. A Alma que a pensava sem que ela assim o imaginasse, desde há tantas semanas atrás.
- Finalmente me deixas ver os teus olhos sem filtros.
- Não são nada de especial.
- Toda a gente pensa isso. Mas gostos dos teus olhos…

Seduzia-me sem se esforçar. Eu que era o mais atrapalhado dos sedutores, daqueles que nunca soube bem o que dizer e me escondia nos meus desejos, sozinho no meu quarto, sentia-me querido. Foi a Joana que o conseguiu. Seduzir-me sem plano ou trajecto. Não me restou nada mais que não fosse mergulhar nela sem bússola ou mapa, desejando apenas viver como ela tentava ensinar os que tinham a fortuna de conviver com ela.

Quando acordei, no dia seguinte, não estava ali a Joana. Estava apenas o seu cheiro, a sua herança. E um bilhete.
“Obrigada. Por nada, por tudo, para sempre. Até breve…”

Guardei o bilhete algures no meio dos livros.
O “até breve” não chegou. Perdi o rasto à incomparável Joana, e nem n’A Mexicana ela surgiu, pelo menos nas semanas seguintes. “Não sei onde ela está”, diziam. “Não responde às mensagens”, conformavam-se.
Nunca percebi o que a levou a partir assim, tão diferente da forma como me chegou. Se calhar, estava escrito nas estrelas que era assim que seria o nosso encontro neste plano.

Anos mais tarde vi-a no jornal. Lançara um livro sobre arte que não cheguei a comprar, nem ler. Mantinha a mesma chama que me deu naquelas tardes e naquela noite. O sorriso em nada tinha mudado. Ainda era a minha Joana, mas agora estava irremediavelmente longe de mim. Não lamentei, não suspirei.
Senti a falta de algo que não soube nomear, mas pouco depois se apagou essa saudade de algo, apenas para retomar a sua presença com tanta força quanto frequência...

Mas a pergunta que, ainda hoje, me assalta é outra...

Afinal, como se pode sentir a falta de algo que nunca se teve realmente?...

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