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sexta-feira, 22 de maio de 2015

O meu sonho chama-se Petra

Fonte: amorislumineaeternam.tumblr.com
Sempre gostei de livrarias.
Abomino o digital em que tentaram transformar o papel.
Considerei sempre que era um sacrilégio destruir o que tanto trabalho deu a construir. É um local onde se pode procurar bênçãos, saber, amor, cordel, o que nos aprouver. E por isso considero que o livro merece, e merecerá sempre, que seja parido em papel. Gosto de livros.
E sempre gostei de livrarias.

Normalmente, passo muito tempo na livraria vermelha e branca da minha terra natal, aquela que fica junto à superfície comercial demasiado megalómana para as ambições atuais. Gosto de lá vaguear, não pelo atendimento (que sempre me passou ao lado), mas porque me sinto em casa. É mágico ali estar, e sempre que me desloco até à livraria encontro um sem-número de desejos ardentes que necessito saciar. Tal como o foi a Petra.

Petra… O nome tem algo de místico. E ela também tinha.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Alegria de viver

Fonte: pensamentossemnexo.com
Se soubesse o quanto, ainda hoje, preciso dela talvez tivesse preferido nunca me ter cruzado com a Joana. Ou talvez não. Dói sentir-lhe a falta... E é tão bom, ao mesmo tempo...

A Joana possui aquilo que muitos de nós invejamos: pura alegria de viver.

Toda ela é um hino ao milagre de estar vivo, e isso é raro. Muito raro. Tão raro que não me lembro de ter conhecido alguém, homem ou mulher, que existisse desta forma sublime.
Lembro-me de quando nos encontrávamos ocasionalmente, n’A Mexicana, depois das entediantes sessões de dissertação do Professor Alves, o nosso humor se alterava apenas porque a Joana se sentava na esplanada connosco. Era uma emissária dos céus para nos dizer que mais há que apenas sobreviver.

No fim de tantos encontros movidos pelo acaso, juntei todos os pedaços de coragem que a minha mente permitiu e convidei-a para jantar. Pareceu-me uma tarefa hercúlea mas senti que precisava dela, de a ouvir, sentir que falava só para mim. Graciosa como só ela o soube ser, aceitou com um sorriso tão honesto quanto perfeito.
Quando chegou a minha casa, mostrou-se algo desconfortável, não pelo facto de ali estarmos entregues a nós mesmos, mas porque lamentava não ter conseguido escolher um vinho em condições, digno de um primeiro repasto.
Ri-me. E ela comigo riu. E soube bem, soube muito bem.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O meu nome é Maria (segundo acto)

Fonte: bbbdofabiobollis.blogspot.com
(continuação)

Levei-a no meu carro até à única praia que considerava minha.
Mais banal que qualquer praia, aquela era a minha. As ondas tinham um volume diferente, um ritmo só seu. E meu. A espuma, a areia, tudo era meu, porque aquela praia parecia desenhada para mim por Alguém maior que esperou que chegasse à idade adulta para a saber apreciar.

Assim que chegámos a minha Maria sorriu-me. Partilhou um afecto na minha face e saiu, em passo rápido em direcção ao areal que chamava por nós. Observei-a dentro do carro, e decorei na minha mente cada movimento do seu corpo. Como se descalçava, a maneira como abria os braços para receber o pouco vento que ali soprava, e o momento em que os olhos perfeitos dela se encontraram com os meus.
Escondia-me dentro do meu carro, encostando a cabeça à minha mão, refletindo que presente era este que me tinha sido oferecido. Nesse mesmo momento senti-me mínimo, como se nada tivesse feito para merecer a minha deusa.

Maria chamou-me com a sua mão. Clamava, em silêncio, que me aproximasse dela. Como seria de esperar, não me contive e fui ter com ela. Também eu me descalcei, dobrei a ponta das calças e encontrei-me face a face com ela, de novo.
“Estou aqui” pensei. Abraçou-me. Um daqueles abraços de despedida que não sabemos bem como descrever, mas que sentimos ser um adeus. E apertou-me mais. E soluçou.
Eu conseguia sentir a minha camisa humedecer nos ombros, e sabia-a a chorar. Retribui o abraço que me entregava, na esperança vã de a acalmar, suplicando que parasse com aquele choro que fazia doer a minha alma.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Salva-te sozinho

Filipa foi uma mulher que me fascinou. Especialmente porque nunca me ligou nenhuma, exceção feita àquela vez que me ligou para se despedir.
Habitou sempre em mim um sentimento de posse por alguém que nunca imaginou sequer trocar mais que duas palavras. Esse alguém era a Filipa.
A Filipa sempre foi uma besta comigo, mas uma besta requintada. No jargão mais ordinário poderia dizer sobre ela que “era muita puta”. Não era uma oferecida e contavam-se pelos dedos de uma mão o número de homens que a possuiu entre lençóis. Não. Ela era muita puta porque era tão sabida quanto uma puta o é. E esta comparação não é para todos entenderem. Só aqueles que nunca estiveram com uma puta irão apreender o que significa.

Sabia muito sobre viver, sem ter o peso de uma idade que levasse a essa conclusão. Raro. Muito raro nos dias de hoje.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O meu nome é Maria

O meu cigarro ainda queima, enquanto me perco a olhá-la. À Maria.

A Maria (há sempre uma Maria) pavoneia-se em frente ao vento que a abraça num aperto suave pelo qual ela se apaixona irremediavelmente. Como eu me apaixonei por ela.
Não sei precisar, agora, se foram os lábios que me entregaram esse feitiço no momento que a beijei na cama. Provavelmente terá sido esse o click inicial, mas pensando bem, não foi bem aí.

Conheci-a numa estúpida festa, daquelas banais para as quais somos solicitados sem sabermos bem a necessidade ou o porquê. E por essa mesma razão vamos – todos temos um gene de estúpido em nós. A Maria só sabia ser o centro das atenções, precisamente pelo facto de não o querer ser, atraindo ao seu redor um número considerável de homens que queriam conhecer o que escondia Maria.
Mas apenas ela poderia lidar tão bem com o assédio desavergonhado. Só ela os saberia colocar a pensar ainda mais porque estaria ali, sozinha, sem complexos.
Não podem sequer compreender-me, suspirava Maria. Sorria amavelmente, mas não era sincera. Notava-se que queria sair dali, mas nenhum dos ignóbeis sabia a frase certa a proferir.
Reencarnação de uma deusa grega, chamei-lhe eu, mas sem que ela ouvisse, claro. Nunca se deve comparar uma mulher a uma deusa em voz alta. Não é apropriado, contam as regras da boa educação.

Mas Maria ouviu-me, pois dirigiu-me os olhos verdes. Aqueles espelhos onde não queremos ser refletidos por ficarmos sem defesa e sem máscara. Só a Maria, a minha doce Maria, poderia despir-me assim. Nunca vou perceber como me ouviu a Maria.
Gentil, como só uma mulher digna desse nome sabe ser, pediu desculpa, deixou embeiçado mais um ignóbil e dirigiu-se a mim. Abraçou-me como se quisesse dançar, gemeu baixinho como sentisse alívio e sussurrou-me:
- Imploro-te, tira-me daqui.

Não consegui proferir uma única palavra. Agarrei-lhe a mão sem apertar (nenhuma mulher gosta de se sentir apertada, muito menos presa) e trouxe-a até ao jardim.
Nunca ouvi ninguém suspirar como a minha Maria. Olhou-me triste, mas sorriu para mim.
- Obrigada. És um anjo. Estou farta, sabes? Mas salvaste-me.

Não fui capaz de falar, novamente. Sorri timidamente, ajeitei os óculos no meu nariz e simulei uma vénia. Pensei “Não precisas agradecer-me.”
Assustei-me, pois ela ouviu-me de novo.
- Obrigada, sim. Viste-me, percebeste que não queria estar ali. Vamos embora? Levas-me para um lugar teu? Não me interessa quem és, não é importante. Mas adoro que sejas a personificação silenciosa do que necessito. Vamos?

Afastei-me do seu caminho, e deixei-a passar, como o cavalheiro que penso ser, e aí senti algo novo.
Tão novo que não consegui racionalizar o que estava a ver, cheirar, inspirar.
O vestido. Nem tinha observado as suas vestes de deusa. Percebi os seus contornos todos. Entendi o seu cheiro, a forma como movia as mãos.
“Apaixonei-me” pensei. Sabia que era obviamente mentira, mas disse-o para mim mesmo.

Permaneci imóvel, apenas apreciando a Maria, e a forma como caminhava no ar.
Deusa, chamei-lhe, e ela parou. Estática durante segundos, e virou-se em seguida para mim mostrando toda a ternura que um sorriso pode encerrar.
Esticou-me a mão, de novo, segurou-me e ao chegar ao seu lado, envolveu o meu braço e encostou a cabeça. Perdi-me de amores por ti, Maria.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Dia Mundial da Fibromialgia

Fonte: Google
Tenho dores.

Levanto-me com dores.
Nunca estou sozinho. Estou sempre com as dores.
Perdi a conta aos dias em que mal me pude movimentar. Sobrevivo continuamente com a noção que nunca terei paz.
No entanto, recordo com carinho cada dia em que pude viver livremente, sem nunca ter noção que estaria encarcerado em breve. São boas recordações, sabes?

É bom ter algo a que nos possamos agarrar para nos aliviar os momentos em que mal nos conseguimos suster vivos.
Medicamentos e consultas. Consultas e mais medicamentos.
Poderia resumir a minha vida nessas duas palavras. E mais custa pelo facto de estar só. Sempre só. Só com as dores que me acompanham sem tréguas, sem férias, sem feriados desde os últimos 14 anos.