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quinta-feira, 16 de abril de 2015

O Tempo é Desleal

Perdeste o brilho no olhar, com a idade.

Estás cansado, e já não sabes escondê-lo. Provavelmente nem queres. É justo. Ao menos quando chegamos a velhos que possamos fazer o que nos apetece.
Sem regras, sem problemas.
Entretanto vivemos na obscuridade do que poderia ter sido, toda uma vida.

Ainda te lembras de quando eu andava de mão dada contigo, empoleirado no muro, com 5 anos, e dizia que era mais alto que tu?
E logo a seguir saltavas para cima desse muro, para me fazer companhia? Lembras-te?
Tenho medo que não te lembres. Era suposto nunca envelheceres, mas o tempo trocou-nos as voltas.

O tempo é tão desleal, sinceramente.

Porque não te mexes um pouco? Não fiques aí estático. Assustas-me. Já chegou ver o avô assim, e não quero isso para ti.
Tens olhos cor de infinito. Assusta-me que agora mires esse longínquo, como se nada mais houvesse a fazer. Estou assustado, Pai.
Fala comigo, por favor.

Tenho saudades tuas. Tenho saudades nossas.
Volta para voltarmos atrás no tempo, para regressarmos ao café, e me davas 25 escudos para eu jogar na máquina que estava no andar de cima. Ou quando brincávamos no meu quarto, para eu aprender como se estacionam carrinhos em fila “como o pai faz com o nosso carro”.

Estou assustado porque o tempo não parou. Foi desleal com todos nós e tem vindo a roubar-nos, dia após dia.
Tenho medo que te vás. Tenho mesmo muito medo que te vás.

Não quero que te vás. Fica comigo, sempre.

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